Era uma vez, um lobo que gostava de desenhar…

Foto: Ana Paula Kezerle

As décadas de 80/90 sem dúvida foram o apogeu do rock. O estoque dos discos da banda Guns n’roses, por exemplo, não durava nem 24 horas nas lojas.

Mas não foi uma trajetória fácil: o rock viveu um romance conturbado com a sociedade. O simples ato de gostar da mesma banda tinha o poder de iniciar e fomentar amizades, ao passo que divergências de estilos musicais causava até briga nas ruas. Funkeiros e Roqueiros, por exemplo, viviam se estranhando.

Outra coisa complicada era ser fã de uma banda. Primeiro porque, se você gostava das músicas, tinha que se esforçar para escutá-las. As opções eram: ir ao show da banda, comprar o vinil ou comprar uma fita cassete e esperar que a rádio tocasse as músicas que você queria para gravá-las.

Quando alguém descobria uma banda boa, gravava o som na sua fita K7 e passava para o amigo, que também gostava de rock, escutar. Mas não podia passar a fita para alguém que não era do “grupinho dos descolados”, senão dava problema. Você tinha que “merecer” conhecer aquela banda.

Item indispensável atualmente para qualquer groupie que se preze, a camiseta de banda era coisa muito rara. Não tinha para vender no shopping e serigrafia era coisa cara e um tipo de técnica ainda não tão comum. Quem tinha uma, normalmente é porque pintou ou pediu para o amigo pintar.

Essa época marcou muito a vida do Clodoaldo Morais. Em 1994, ele era um menino de 10 anos e estava fazendo a quinta série num colégio de São Paulo. Apelidado de “Lobo” pelos amigos por causa do estilo do cabelo, o seu principal hobby era desenhar. Ele desenhava muitas coisas no caderno: personagens de quadrinhos, animais, pessoas, a arte das capas de discos vinil, de tudo um pouco. Um amigo de escola, sabendo que ele desenhava bem, pediu que ele desenhasse o álbum da sua banda favorita. Vendo que o desenho ficou bom, pediu que fizesse o desenho em uma camiseta e essa foi a primeira encomenda que o “Lobo” recebeu: uma camiseta do Van Hallen, outra do ACDC e uma do Kiss, que ele pintou à mão, com muito esmero.

O engraçado era que o Clodoaldo não era fã de rock ainda. Ele era fã de desenhar, como ele mesmo conta: “As pessoas achavam que eu escutava rock por causa das camisetas e vinham puxar assunto falando dos álbuns. Quando eu falava que nunca tinha escutado, você não imagina a cara de espanto e decepção que faziam. Diziam: Como assim você nunca escutou as músicas dessa banda que você desenhou? E eu respondia: meu negócio não é música, é desenhar. Porque, na verdade, eu gostava dos desenhos dos álbuns das bandas. Era uma mania minha ver uma capa de disco e desenhar no caderno. De tanto me perguntarem se eu tinha escutado aquela e outra banda, eu fui escutar. E, menina, quando eu comecei a escutar… foi quando o mundo perdeu um psicólogo ou um jogador de futebol… eu sabia que o que eu queria fazer pro resto da minha vida tinha que estar ligado de alguma maneira ao rock e ao desenho”.

Em 2001, o Lobo deixou São Paulo e veio morar em Cascavel porque descobriu que tinha uma filha aqui. Continuou, claro, desenhando em camisetas e, em 2010, criou a marca Malvadeza Rockwear, uma empresa de estamparia em camisetas muito procurada pelos cascavelenses fãs de rock. No total, ele já soma mais de 20 anos exercendo o ofício de ajudar as pessoas a estampar, em camiseta, o amor que sentem pela música.

Foto: Ana Paula Kezerle
Foto: Ana Paula Kezerle
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