Hector Clegane
O Mastim do Monte Tigre
Foi o Primeiro filho,
do Segundo casamento de Lorde Othor Clegane, o Coleira.
Este era o título mais nobre possível.
Apesar da origem nobre, seu berço fora coberto de palha e repleto de pulgas. Pois na época (265), todos os grandes homens-de-armas do Forte Mastim haviam se retirado para somar à causa Lannister na Revolta dos Reyne de Castamere e o parto de sua mãe Emilly Bushy ocorrera no celeiro, ao lado de cadelas e porcos, por ordem do Alto-Regente Clegane: Gregor,
que permanecera como governador das terras de Lorde Othor.
Mas graças as orações de sua mãe, os Sete abençoaram seu nascimento,
e o bebê — nomeado Hector — crescera resistente e buliçoso como um verdadeiro vira-lata.
Mas para a infelicidade de Emilly, a mesma benção não prevaleceu em relação a saúde mental do garoto, visto que nos seus primeiros anos de vida (266-268), cresceu atormentado por seus irmãos mais velhos, Gregor e Sandor, nos corredores do Forte Mastim. A Revolta continuava no litoral do Ocidente, e com os irmãos Clegane no comando do Forte, ambos chegavam a barbárie para pregar peças e aterrorizar sua madrasta e o pequeno caçula. Como certa vez (269), que mataram uma cadela que Emilly criava,
e esparramaram suas tripas no leito de Hector, que acordara em meio a sangue e moscas e nunca esquecera tal zombaria.
Até os seus seis anos (271), Hector suportou como podia toda chacota por parte da corte. Tendo suas noites de desabafo com sua mãe, assim como os dias em que engolia em seco todo ladro de seus irmãos e pedia perdão,
de joelhos, por sua existência.
Atos que muitas vezes não tinham algum significado para ele, mas soavam como piada entre seus algozes, e atos que importavam tanto na sua vida, que seu corpo inteiro chegava a doer pela tortura praticada diante de uma alma tão nova — como supliciar sua mãe diante de todos.
Mais uma vez, as preces tardaram a serem atendidas, mas foram concebidas. (272) O Coleira voltara vivo da guerra, junto de seu filho mais velho: Victor. Entretanto, ao contrário do que Emilly esperava, ele retornara também, com uma mulher grávida ao seu lado. O Lorde não abdicou de seus laços matrimonias, mas o ato da traição assumida a público somado com o fato de não punir Gregor após ouvir seus relatos, levou sua mãe a loucura da depressão. Em meio a todo este drama, crescia o excluído Hector, que sequer abraçou seu pai após o retorno da Revolta e do Torneio do Ocidente.
Como aprendera desde cedo a caminhar nas sombras dos cômodos,
na contramão dos candelabros e atrás das colunas, seu pai não o notou.
Até o ano (273) em que sua mãe, a Louca Bushy, engravidou e o Coleira a acusou de traição, afastando-a de sua corte, e casando-se com sua amante.
A ferramenta principal de seu governo era o medo, e ninguém contestou.
Mas o pior fora após o parto, sua irmã chamada de Beony, por ser pequenina, como um pequeno feijão enrugado, não suportara a família que nascera e falecera de uma doença de pele. “Ou de falta da luz do Sol” como alguns rumores contavam — visto que fora isolada com a mãe nas dependências subterrâneas do Forte Mastim — A “Quarentena do Meistre Salles”.
Semanas após o enterro e cortejo de Beony, Lorde Othor foi até o dormitório de Hector e junto de Sir Ambrose Dale, avaliaram as disposições físicas do caçula. Após a conclusão de que ele não estaria apto para luta,
transformaram o carrasco de sua mãe e assassino de sua irmã
em seu professor: Meistre Salles.
Hector suportou mais uma vez, por incrível que pareça, sua couraça moral era forte e resistente, e não se deixava abater. Por pior que podia ser, ao menos Gregor não o batia na presença do Coleira no Forte Mastim.
Afinal, ainda tinha sua mãe para fazer-lhe companhia a noite.
Desobedecer Meistre Salles significava punição para um dos dois, então aprendera as letras e símbolos de Westeros, e teve breves apresentações sobre a heráldica westerosi.
Quando completou dez dias de seu nome (275), seu destino mudou. Faltavam-lhe mais alguns anos para que pudesse ganhar coragem
suficiente para enfocar o verdugo professor em sua própria corrente.
Porém, como fora acostumado, não tivera qualquer escolha.
Gregor, seu monstruoso irmão casou-se inesperadamente com uma excêntrica tigresa vinda do horizonte, de sangue nobre e família boa.
Belle Belvedere. Uma cunhada que ele não chegou a conhecer.
Parte do contrato conhecido como “Núpcias de Ferro” incluía manter um Clegane com a família da noiva, como “protegido”. Podendo ser visitado, mas sem nunca poder visitar ninguém. O filho escolhido por Coleira,
foi o Página-Virada, o Vira-Lata: Hector Clegane. Não pôde levar sua mãe consigo, e o adeus foi como enterrá-la no lamaçal de um canil. Levou uns corvos de Meistre Salles, pois sabia que sua mãe não poderia visitá-lo.
Mas o que estava por vir era muito além do que ele poderia imaginar,
o séquito que o escoltou até a Fortaleza Belvedere, era composto por mais de duzentos homens de carmesim, uma comitiva pessoal de Lorde Tywin.
O Leão Suserano seria nomeado Mão-do-Rei no mês seguinte,
mas já haviam hordas e bandos que o seguiam até Porto Real, para o Torneio da Garra de Ouro — em nome do belo troféu oferecido pelos Lannisters.
Como hóspede especial do batalhão pessoal de Lorde Tywin, ganhou sua próprio pavilhão e dentro dele, Hector teve seus melhores dias,
alimentou-se dignamente, provou sabores inéditos como a primeira mulher em sua cama, ou como os vinhos dourados da Árvore.
Também foi presenteado com uma valiosa égua puro-sangue, que Hector nomeou afetuosamente de Milly.
Tudo ao seu redor era incomum, e ele se sentiu honrado e importante.
Todavia Lorde Tywin também pediu algo em troca. Após três dias de viagem, ainda não haviam cruzado a Estrada do Ouro, o ritmo da comitiva era lento, quando o futuro Mão foi até seu pavilhão, e esclareceu à Hector.
É claro, depois de deixar bem clara a posição inferior do jovem diante dele.
“Preste Atenção, filho… Você foi escolhido para uma missão à serviço da Casa Lannister. Tenha certeza que Lorde Othor irá orgulhar-se de ti, caso seja bem sucedido em nossa causa. Entretanto, a mesma convicção me falta para o caso de sua falha. Você não poderá falhar, ou será um deles. Entende o que digo, Hector?”
Na época, o garoto de onze anos (276) só conseguiu balbuciar um “Sim” diante de toda aquela prosa, ainda que pouco se importasse com o orgulho de seu pai, ficou clara a ameaça no tom da voz de Lorde Tywin, que não era nada alto ou furioso, mas solene e hostil. O futuro Mão continuou a explicar o plano e por final, após alguns segundos de silêncio, ele fitou Hector e disse antes de sair:
“Quando você fizer quinze dias de seu nome, um Lannister retornará para obter o combinado, e você talvez poderá voltar para o Forte Mastim.
Não deves procurá-lo, apenas aguardá-lo. E a dívida será paga.”
Depois da Estrada do Ouro, seu verdadeiro pai partira para a capital.
Aquele que o tratara com integridade e respeito, aquele que o presenteara e o chamara de filho. Lorde Tywin, seu Patrono. O homem que lhe botara no mundo de verdade, com grandiosidade e imponência. Sob proteção, física e política. Que lhe dera significado.
A partir de então, seguira seu destino até Monte Tigre, onde se apresentou
à Lorde Belick Belvedere, o Tigre-de-Ferro. A recepção foi amistosa, e sua estadia como protegido nos anos seguintes (276-279) fora agradável e até calorosa. Carente da criação de um pai, rapidamente adotou Lorde Belick como exemplo, ganhando a admiração do Tigre de Ferro, conquistando-o gradualmente, tornando-se amigo de seus filhos.
Hector apossou-se do poder que ganhara. Agora tinha um nome e seu sobrenome mudara de valor, não era mais motivo de chacota ou alvo de maldades, tinha seus aposentos luxuosos e até uma banheira para lavar-se. Levava seus dias estudando na fantástica biblioteca Belvedere, repleta de artigos históricos e ensinamentos matemáticos, geograficos e religiosos.
O Tigre-de-Ferro notou a aptidão e gosto de seu protegido pela leitura,
e também percebeu que o garoto possuía alguns corvos, e como seu Meistre não possuía grande habilidade com as “Asas Escuras”, testou Hector como seu carteiro pessoal, e após satisfazer-se com o resultado das mensagens que enviava pelo garoto, tornou-o Mestre dos Corvos da Fortaleza.
Mas o garoto não esquecera do Leão Suserano, e ao completar quinze anos (280), ficou a espreita, deixou todas as portas abertas, procurava nas mensagens dos Belvederes algum sinal, tentava ouvir conversas paralelas, ou identificar olhares e gestos. Mas não houve indício do seu espião Lannister.
Até que depois de um ano (281) de angustiante espera, ele desistiu da ideia ao lembrar das últimas palavras daquela missão:
“Não deves procurá-lo, apenas aguardá-lo. E a dívida será paga.”
