A porta do mundo secreto

É esse frio na barriga, o tão famoso “secret world”. O mundo que a gente conhece é só uma fachada: as conversas rapidinhas no elevador, o sorriso fácil que distrai as têmporas, a moça do supermercado que insiste em entregar o recibo mesmo depois do “não, obrigado” quando ela pergunta se eu quero uma cópia. Porque o recibo já está impresso mesmo, veja você, então fica mais fácil simplesmente enfiá-lo na sacola. A pergunta é apenas parte do protocolo, a ilusão velada da escolha em um mundo onde tudo se precisa escolher.

O mundo conhecido vulgariza demais os sentimentos. Os “bom dias” exagerados, os adjetivos superlativizados em excesso — não por maldade, mas por querermos causar uma boa impressão. Nem todo dia precisa ser incrível. Os dias só precisam ser plenos. As pessoas só precisam ser pessoas, e precisam fazer minimamente bem umas às outras. O resto é maquiagem. O excesso é desespero.

Mas o mundo secreto é diferente. O mundo secreto só acontece nas conversas como a que tivemos duas sextas-feiras atrás, onde éramos só nós três e um vórtex de sinceridades cruzadas. Você nem deve ter percebido, mas passamos mais de três horas prestando atenção apenas em nós mesmos, sem as curtas vibrações telefônicas do mundo lá fora nos chamando para nos distrair. Fazíamos perguntas que a ouvidos desatentos soariam agressivas, intrusivas, incomuns. Mas o mundo secreto é justamente o não-medo de se entregar a cada nova pergunta, o mundo onde as pessoas verdadeiramente se importam com a resposta.

– E você?

– Eu não desisti ainda.