Cara Gente Branca | Crítica (ou não)

Oi, meu nome não é Hannah. Isso não está nas minhas fitas, nem no meu feed aparentemente.

Criada por Justin Simien. Dirigida por Justin Simien, Tina Mabry, Barry Jenkins, Charlie McDowell e Steven K. Tsuchida. Roteiro por Justin Simien, Leann Bowen, Chuck Hayward, Njeri Brown, Jack Moore e Nastaran Dibai. Com Logan Browning, Brandon P. Bell, John Patrick Amedori, Antoinette Robertson, DeRon Horton, Marque Richardson, Giancarlo Esposito.

Diferente das demais críticas que escrevo, aqui vou procurar abordar o tom íntimo. Assim, não esperem a mesma impessoalidade em um texto dissertativo como nas demais críticas. Isso me leva a pensar se isso é uma resenha ou não. Não sei como vai terminar. Veremos.

Ambientado dentro da Universidade de Winchester, o enredo acompanha quatro estudantes negros que vivem em uma universidade elitista e caucasiana. Após uma festa blackface de Halloween promovida pelos editores (brancos, óbvio) de uma revista interna e outros eventos que acontecem no decorrer da série, uma discussão quanto ao racismo institucionalizado se instaura nos corredores da universidade.

Os episódios fogem do padrão no momento em que cada um foca em um personagem. A narrativa, embora linear, foca em um personagem diferente por episódio. Isso gera um efeito fantástico já que, embora o preconceito seja objetivo — não existem justificativas para abominar uma etnia por ser o que é –, a forma como ele é encarado é absolutamente subjetiva. A consequência é que texto foge ao máximo de generalizações. Sam (Browning) é extremamente combativa e contestadora, enquanto Colandrea (Robertson) é ciente dos percalços vividos, mas mesmo assim tenta se encaixar no jeito branco de ser. Lionel (Williams) e Troy (Bell), por terem histórias distintas, enxergam o racismo também de formas diferentes.

Troy

A fuga do genérico, por exemplo, permite uma total aversão ao maniqueísmo. Não há, de fato, uma divisão simplista de branco, ruim, e negro, bom; na verdade, um dos protagonista, Gabe (Amedori), é branco e se solidariza com esses problemas sociais, isto é, sabe de sua condição privilegiada (caucasiana), mas não tenta justificar o racismo vivido com a batida frase: nem todos os brancos são assim. Há, também, a forma com que Sam reage ao ambiente ao redor; tão acostumada a duvidar e hostilizar ações contra suas origens, ela acaba vendo ofensas em quem é amigo e gostaria de ajudar.

A obra aborda o preconceito racial de uma forma diferente do que vimos até então. Começando pela própria narrativa (na voz pomposa de Esposito), a série duvida de sua própria seriedade, já que o narrador é equidistante dos negros e dos seus problemas vividos. Enquanto os demais trabalhos tentam construir uma crítica de forma didática, aqui vemos tudo com escárnio extremado. Claro, somos convidados a ver o lado de quem sofre com isso rotineiramente. O único efeito que isso pode causar é a exaustão. Cansados, quem sofre com racismo acaba encarando essas situações com raiva, deboche e hostilizando tudo o que vê.

Reggie

A fotografia é excelente. Abusando de um primeiríssimo plano frontal, constantemente somos encarados pelos personagens, como se eles nos julgassem, assim como eles se sentem julgados dia após dia.

Críticas à parte, o maior espanto que isso causa é como uma série tão bem feita repercutiu tão pouco no meu feed de redes sociais. Enquanto 13 Reasons Why, com todos seus problemas de roteiro, faz até hoje aparecer postagens no meu Facebook, eu conto nos dedos quantas pessoas comentaram Cara Gente Branca.

Claro, cresci em uma família de classe média e estudei em colégios tradicionais onde negros eram minorias. Obviamente isso reflete em um contato menor com pessoas de outras etnias, não só de pele negra. Isso me leva a pensar o seguinte: em 13 Reasons Why, todo o alvoroço se deu porque todos viveram alguma experiência de bullying (ou pelo menos inventaram uma para se encaixar no assunto do momento); aqui, mais da metade dos meus contatos não sofreu com racismo, logo, se sentem confortáveis o suficiente para não repercutir a série.

Gabe

Aliás, espero que não se sintam confortáveis para isso, por que a outra alternativa seria que eles são indiferentes. E isso seria realmente cruel. É muito fácil abrir a home de seu Facebook e escrever três linhas falando algo que nunca existiu ou descrever algo que nunca sentiu, só para tentar ilustrar que sabe as tragédias que Hannah passou. Agora, não existe como inventar que sofreu por ser negro quando você não é. Apenas quem sofre racismo sabe explicar o que é.

Eu não sei. Sinceramente, tento saber. Queria poder compadecer da dor alheia, ajudar a suportar o fardo e combater o máximo o que eu posso. Isso é ter empatia.

Faltou muita empatia na minha timeline.

Nota: 6/6 (Ótimo)

PS: apenas para deixar claro, o objetivo do texto não é diminuir o bullying sofrido por Hannah em 13 Reasons Why, mas, sim, salientar que uma série feita mais levianamente atingiu mais público que uma obra com argumentos excelentes como Cara Gente Branca.

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