Crítica | The Discovery

Produção original da Netflix trata de vida após a morte abrindo mão do viés religioso e científico

Dirigido por Charlie McDowell. Roteiro por Justin Lader e Charlie McDowell. Com: Robert Redford, Jason Segel, Rooney Mara, Jesse Plemons, Ron Canada.

Uma das perguntas inexoráveis que indubitavelmente um dia faremos é a (in)existência de vida após a morte. Todas as crenças (e a falta da mesma) buscam explicar o que acontece após o fim da jornada; seja pelo início de uma nova estrada ou pelo vazio absoluto, a verdade é que no momento não existe certeza do que nos espera quando nossa hora chegar.

A trama tem uma premissa inovadora e merece todos os aplausos por seu vanguardismo. Há um ano e meio, o cientista Thomas Harber (Redford) revelou ao mundo que existe vida após a morte. Através de provas massivas — mas não definitivas, e o filme faz questão de ressaltar isso — o cientista revela que o cérebro continua emitindo ondas em direção a um lugar desconhecido. A partir disso, o índice de suicídios tem crescido exponencialmente, já que as pessoas anseiam em descobrir o que acontece quando se chega lá (eufemismo adotado na obra). Assim, o filme se passa com a chegada de Will (Segel), que acredita que a descoberta foi um mal para o mundo, que tenta convencer Thomas a abandonar os estudos.

Desde o início o filme faz questão de evidenciar alguns pontos: a) nunca será tratada a explicação científica e/ou religiosa, de sorte que devemos abandonar as impossibilidades lógicas e os dogmas e pragmatismos religiosos; b) não estamos diante de um thriller de ficção científica, mas sim de um drama simbólico e melancólico sobre amor, arrependimentos e segundas chances. Feito predominantemente em tons frios, é muito fácil traçar paralelos com Manchester à Beira-Mar e Melancolia.

O elenco possui uma harmonia sublime. Segel, como Will, se despe de toda sua faceta cômica, adotando um ar triste e carismático; Redford abusa da falta de feições e reações para mostrar a distância de um pai sugado pelo trabalho; Rooney Mara, como Isla, é o motor de Will, já que em suas cenas estão todos os diálogos pertinentes à compreensão da obra; Plemons é o irmão Toby, que trabalha com o pai, e está dividido entre as ideias dele e do irmão mais velho.

Não há detalhes de quão afetada foi a civilização por essa descoberta; o filme trabalha basicamente a sinergia entre os quatro personagens principais. Entretanto, em diversas cenas pode-se ver cartazes contra o suicídio, de sorte que se presume que é um grande mal que afeta a sociedade.

Outro ponto interessante, e isso também é mérito do roteiro e do diretor, é que sutilmente disfarça a natureza do suicídio, mas sem tirar sua causa. Hoje, um suicida busca uma fuga do mundo em volta, entretanto, há um quê de desespero em seu ato. Com a descoberta (a forma que se retrata o evento científico), o suicídio passa a ser um escape esperançoso, quase como uma promoção a outro plano que não o terreno. O grande ponto é que ninguém sabe o que as aguarda, ou seja, o desespero se mantém, só que maquiado. Portanto, a grande crítica é que a descoberta veio como um alento a suicidas e potencial, o que nos faz questionar sobre como seria se esses fatos acontecessem de verdade.

Outra grande presença é o elemento da água, seja na chuva, na neve, ou na praia, a água simboliza a purificação, a origem da vida e a limpeza. Não coincidentemente ela está presente nos momentos mais transcendentais e esperançosos da obra. Além disso, em seu final, o filme reserva excelentes surpresas que fecham com o ritmo ditado e as revelações que aparecem ao longo do trabalho.

Cheio de questionamentos, The Discovery não veio para apresentar conclusões. É um filme de baixo orçamento que atinge seu objetivo ao não responder claramente, já que nunca quis explicar sua resposta para o maior dilema da humanidade. Ao cabo, a única pergunta que paira no ar é: o que você faria se soubesse que a vida não termina na morte?

Nota: 4/6 (Bom)


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