Florence: Quem É Esta Mulher? — Crítica

É preciso muito cuidado ao fazer um filme que retrate a vida de alguma personalidade. Se pesar muito a mão, constrói-se um mártir; se apenas assoprar, uma falácia. A produção britânica Florence — Quem É Esta Mulher? sabia disso e, melhor do que tudo, soube dosar corretamente construindo um filme tragicômico leve e horizontal.

Escrito por Nicholas Martin e dirigido por Stephen Frears (que sabe explorar o protagonismo feminino muito bem), a obra narra a história de Florence Foster Jenkins (Maryl Streep), mulher extremamente rica por sua herança, e que a usa unicamente para financiar sua paixão: a música. Infelizmente, suas habilidades mundanas não a permitem explorar a arte que tanto ama, já que é uma soprana péssima, mas que vive sendo ludibriada pelos que se importam com seu bem-estar.

O filme é muito didático. As cenas são claras ao estabelecer a narrativa, de sorte que existem poucos mistérios que serão resolvidos a posteriori. De repente, por seus poucos momentos aprofundados, o filme explora mais seu lado lúdico e exagerado: os berros esganifados de Florence, a audiência que literalmente rola de tanto rir e os estrondosos aplausos em pé. Como trata-se de uma produção muito mais voltada à vida privada do que pública, somos apresentados às tragédias pessoais que a personagem vive, o que Streep faz com muita competência. Os espectadores são conduzidos paulatinamente em uma jornada que transforma o deboche em compaixão. De início, rimos das idiossincrasias de uma burguesa peculiar, mas que na cena seguinte, nos comove com sua ternura e ingenuidade.

Streep (cheia de roupas com enchimentos), como sempre, faz um trabalho sólido e cativante, mas longe de ser uma de suas melhores atuações, o que leva a crer que sua indicação ao Oscar de melhor atriz se deu por seu gabarito e por seu discurso politizado quando do recebimento do Globo de Ouro. Ao lado da estrela, Hugh Grant, mesmo envelhecido, não perdeu seu charme aristocrático e carisma. Contudo, o verdadeiro destaque fica por conta de Simon Helberg (o Howard, de Big Bang Theory), portando uma voz tímida e doce, o pianista; com simples olhares e gestos, o ator rouba as cenas que contracena.

O diretor Stephen Frears conduz uma obra com um quê de Woody Allen. Com cenas sempre bem iluminadas e quentes, o filme nos apaixona por seu bom-humor ao retratar uma sociedade crème de la crème, sem as críticas inerentes ao abismo social causados por um grupo que anseava a volta de uma aristocracia falida. Em forma de crônica, o profissional nos convida a, através da vida de uma desafinada cantora, revermos conceitos de empatia, superação e admiração.

Para olhares menos atentos, Florence — Quem É Esta Mulher? pode parecer algo frívolo, quase um desrespeito com a vida de uma pessoa. Entretanto, à medida que o filme avança, percebemos que a maior intenção é nos trazer um sentimento de culpa, justamente por pré-julgarmos alguém por um dom (ou a falta de).

Contando a história de pessoas anônimas (e o filme faz questão de ressaltar que nenhum deles conseguiu grande destaque) o filme não perde o tom otimista. A mulher (naturalmente forte) não é imbatível, mas mesmo sofrendo seus próprios dramas, consegue dar força e ser motivo de admiração por todos que a orbitam.

Nota: 4/6 (Bom)

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