Tokens e o futuro do crowdfunding

Editado por Rodrigo Machado

Desde que lançamos o Catarse, em 2011, carrego comigo uma pergunta: Qual será a próxima inovação do crowdfunding?

Claro, o crowdfunding ou a vaquinha, se preferirem, sempre existiu e sempre existirá, porém algumas inovacões foram fundamentais para a expansão do modelo como conhecemos atualmente.

A primeira inovação foi criação das recompensas. Esse mecanismo — que hoje é tão corriqueiro em nossas interações com projetos em captação — foi o ponto da virada para que o uso deixasse de ser somente filantrópico ou pessoal, e passasse a viabilizar as mais diferentes empreitadas da sociedade civil.

O modelo de arrecadação tudo-ou-nada, em que o recurso só é repassado para os realizadores quando atinge ou supera a meta estabelecida, e que foi desenvolvido pelo Kickstarter, pode ser considerado como a segunda inovação no crowdfunding. Esse modelo propiciou que projetos atingissem marcas inigualáveis até o momento, justamente por gerar senso de urgência e por ser um mecanismo que comunica aos apoiadores que o projeto poderá não ocorrer caso eles não se envolvam. Isso aumenta o incentivo para o compartilhamento do projeto em mídias sociais e fortalece práticas que geram mobilização e, consequentemente, maior capacidade de arrecadação.

A terceira inovação foi a possibilidade de se investir em troca de participação acionária, o que ficou conhecido mundialmente como equity crowdfunding. Esse mecanismo abriu as portas para que empresas iniciantes com dificuldade de acesso a capital através dos meios tradicionais, pudessem viabilizar suas rodadas junto a investidores qualificados, interessados na diversificação de seus ativos, podendo participar de projetos em suas fases iniciais.

Agora, a quarta inovação acontece através da emissão e venda de tokens . Esse mecanismo ainda pouco falado aqui no Brasil, mas que já demonstra potencial incrível. Projetos dessa natureza, por exemplo, invadiram , após 2016, a lista de maiores arrecadacões via crowdfunding do mundo. A modalidade abre as portas para uma nova maneira de se organizar e viabilizar ideias.

Mas afinal, o que são tokens?

O primeiro passo é definir o que são os tokens, e para isso vou usar uma livre tradução do excelente artigo Thoughts on Tokens, de Balaji S. Srinivasan:

Token é um recurso digital que pode ser transferido, e não simplesmente copiado, entre duas partes através de internet sem o consentimento de nenhum outro participante.

O primeiro de todos os tokens, o original, foi o Bitcoin — um protocolo de transação financeira P2P — o qual tem sua utilidade ao facilitar transferências entre pessoas, servir como método de pagamento para serviços e produtos e remunerar a emissões de novas moedas. Importante notar que tudo isso é registrado em um banco de dados público, distribuído e imutável, a blockchain.

Se ainda não, conhece o Bitcoin e blockchain, vale muito a pena ver esse TED com o Fernando Ulrich:

A partir do Bitcoin, vários outros tokens surgiram, inicialmente realizando mudanças no protocolo do Bitcoin e subindo suas próprias blockchains: Zcash, Monero, Dash, Litecoin e Dogecoin, são alguns dos exemplos. Essas moedas alternativas mantém a utilidade presente no bitcoin, sendo usadas para transações e remunerar a comunidade a partir da emissão de novos tokens.

Em 2014 um projeto chamado Ethereum surge para mudar todo o cenário. Basicamente a proposta era realizar a emissão e venda de seus tokens nativos, o ETHER (ETH). Levantaram mais de 30000 bitcoin, que na época estavam avaliados em cerca de 18M de dólares, tornando-se a maior campanha de crowdfunding até então.

Com esse recurso em mãos, eles criaram sua própria blockchain com uma linguagem de programação turing-complete, elevando ao máximo as possibilidades de desenvolvimento de novas aplicações, inclusive se constituindo como um computador global.

Desde seu lançamento, cerca de 1 ano após a campanha de crowdfunding, o Ethereum possibilitou o surgimento de uma nova economia em torno de seu poder computacional. A capacidade de verificação de transações é um de seus principais aspectos, permitindo qualquer um criar e rodar aplicações em seu banco de dados, desde que pague uma quantidade no seu token nativo, justamente para evitar o uso indiscriminado dessa máquina virtual.

Com o Ethereum, a emissão e venda de tokens para financiar as iniciativas desse ecossistema tornou-se muito mais fácil, propiciando levantar recursos junto aos próprios usuários e também investidores interessados ao redor de todo mundo.

E como funciona essa emissão e venda de tokens?

Essa nova maneira de arrecadar fundos, através da emissão e venda de tokens, ficou conhecida pelo nome em inglês crowdsales ou ICO — Initial Coin Offering.

Esse modelo funciona de maneira similiar a uma campanha de crowdfunding em plataformas como o Catarse, sendo que uma parte dos tokens é reservada para o time criador e outras partes envolvidas, e o restante é liberado para que qualquer um possa contribuir e receber tokens em troca.

Com esses tokens em mãos, os apoiadores podem utilizá-los, trocar ou até mesmo vendê-los, já que eles são ativos transferíveis e que podem ser resgatados por produtos ou serviços no futuro.

É fácil imaginar tokens que representam: pontos de fidelidade, itens em jogos online, ingressos para eventos, contratos de seguros, espaço de armazenamento na nuvem, e até mesmo promessas futuras para receber recompensas físicas de campanhas de crowdfunding.

Frente ao modelo de equity e em certa medida ao modelo de recompensas, surgem alguns benefícios claros para arrecadar recursos via ICO:

  • Utilidade: O valor dos tokens deriva de sua utilidade dentro daquela comunidade, é uma unidade de valor dentro do modelo de negócios. Dessa maneira, ao contrário do equity, os tokens tem um valor intrínseco ao negócio e muitas vezes são fundamentais para a utilização daquela plataforma. Um exemplo é o pagamento de ETHER para utilizar o poder computacional do Ethereum.
  • Liquidez: Os tokens são negociados em várias casas de câmbio online e tem demanda garantida por milhões de investidores que acompanham esse mercado atrás de oportunidades. Ao contrário da dificuldade em ter uma estratégia de saída para investimentos via equity crowdfunding.
  • Acesso a recursos globais: Estar em um determinado país não lhe restringe o acesso ao capital, já que qualquer um ao redor do mundo pode contribuir com a sua iniciativa.
  • Construção de comunidade e alinhamento de incentivos: Ao emitir tokens para um determinado produto, a comunidade passa a se engajar e ser dona daquela plataforma, daquele protocolo. Com isso, tem-se um alinhamento interesses para o crescimento e sustentabilidade daquela aplicação.
  • Democratizar o investimento: O investidor médio dificilmente consegue espaço para investir no Facebook, Airbnb, Twitter quando eles estão começando, ou mesmo, em cineastas, músicos, artistas que estão em fase inicial de sua carreira. Com novas empreitadas emitindo tokens fica muito fácil para qualquer um ter um pedaçinho das novas ações humanas, e participar ativamente de seus resultados.

Casos de uso

Para tornar mais tangível, essa nova economia baseada em tokens, segue alguns exemplos de uso para ilustrar:

Basic Attention Token (BAT)

Brave é um browser desenvolvido por um time liderado por Brendan Eich, o pai do Javascript, que tem como objetivo bloquear, de maneira nativa, ads, trackers e scripts que reduzem sua velocidade de navegação e ameaçam sua privacidade.

A fim de remunerar os usuários desse browser, bem como os geradores de conteúdo, eles desenvolveram um token para esse ecossistema que visa alinhar as ações dos usuários e propiciar uma ambiente fértil para a monetizacão da atenção na internet.

O ICO do BAT bateu todos os recordes levantando 35M de doláres em apenas 24 segundos.

Steemit

Apesar de não ter sido feito um ICO de seu token, esse exemplo é relevante pelo fato de mostrar um novo caminho para as mídias socias.

O Steemit é fórum semelhante ao Reedit baseado na sua própria blockchain, que permite a todos os participantes receberem recompensas (em forma de tokens) pela sua colaboracão na comunidade, seja através de postagens, comentários, curadoria ou compartilhamento de posts.

Esses tokens representam uma nova maneira para os verdadeiros geradores de conteúdo possam ser remunerados, e o dinheiro não fique concentrado em entes centralizados como o Facebook, Twitter, Reddit, que acabam recebendo a maior parte do valor gerado em plataformas sociais.

BRAID

Esse é o nome do primeiro filme a ser viabilizado através de um crowdsales baseado em Ethereum.

O filme cujo trailer pode ser visto aqui embaixo, pretende levantar 1.7M de doláres ao emitir seu token para possíveis apoiadores.

Esse token tem como característica servir quase como um empréstimo para os criadores do filme, que irão repagar o valor apoiado junto com um uma taxa de 15% de juros. Além disso, até 30% de todo o ganho relacionado a distribuição do filme, será também destinado aos token-holders.

O que realmente me fez casar com a causa foi ver o status quo dos estúdios de produção de Hollywood realizando as mesmas histórias, mesmas fórmulas porque eles sabem que isso funciona. Enquanto isso, cineastas independentes estão lutando para obter fundos, porque tudo o que eles realmente podem usar é Indiegogo e Kickstarter, mas essa plataformas ainda são um tipo de doação.
Eu não investiria em um desses filmes, porque ele poderia fazer milhões [de dólares] e eu não veria um retorno ". — Mitzi Peirone is the writer/director of Braid em entrevista para o Huffington Post.

Caveat Emptor

Essa é uma expressão latina que quer dizer: Cuidado, comprador!

Esse cuidado é algo extremamente necessário para esse momento, já que vivemos um mercado ainda em experimentação, o que abre diversas possibilidades para fraudes e golpes.

A fim de se precaver, é fundamental, como apoiadores desses projetos e organizações, que façamos o dever de casa em entender a fundo o que faz uma determinada empresa que está levantando recursos via emissão de tokens. Além de entender como os tokens se encaixam na operação de uma empresa, e como esse token pode ganhar valor a medida que aquela comunidade também prospera.

Portanto, o foco agora deve ser investir em tecnologias bem especializadas e documentadas, que tenham uma comunidade forte de desenvolvedores ao redor e que já esteja operando mesmo que de forma mínima, ou seja, que já tenha uma base de clientes/usuários interessados em ver aquela iniciativa evoluir.

Em termos de regulamentação, ainda estamos vivendo sobre áreas cinzentas, porém há desenvolvimento de frameworks legais (SAFT, Howey Test para tokens, CODE) para esses novos ativos, o que reforça o atual momento de aposta e construção conjunta entre criadores e investidores.

Conclusão

É somente início dessa inovacão no crowdfunding e nos modelos de negócios de produtos na internet. No entanto, fica claro que esses modelos surgem para nos trazer de volta o sonho da internet descentralizada, onde os usuários são realmente os donos de suas informações e conteúdos gerados, além de propiciar que qualquer um possa agir como mecenas e dar acesso a capital para talentos até então escondidos, compartilhando os ganhos emocionais e financeiros dessas novas empreitadas.

Referências: