Dissolvendo Humores
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Começara o dia com o pé esquerdo, sem razão aparente. Acordara irritado, os nervos a flor da pele. Antes mesmo de tomar seu café da manhã já brigara com sua mãe e depois do banho, discutira com o irmão. Tivera um desentendimento consigo mesmo e acabara perdendo a briga para a voz da razão do seu inconsciente. Tentou contornar a situação, mas percebeu que seria em vão quando ganhou uma mordida da sua cachorra. “É, esse será um dia daqueles”. Pensou.
Só queria chegar no trabalho e colocar seus fones de ouvidos. Ficaria calado pelo resto do dia, somente respondendo perguntas feitas diretamente a ele. Não estava em condições para interações sociais e o clima do lado de fora só refletia o humor que encontrava-se dentro dele. A garoa fina, o céu cinza, as nuvens escuras se aproximando. O vento gélido que balançava as árvores lá embaixo. Todos os prenúncios de um dia insatisfatório.
As nuvens oscilavam como o seu humor. Uma variação entre o deprimido e o miserável. Esperava que seu abatimento se dissolvesse ao longo do dia, porém, era mais provável que esse desalento logo se tornasse um estado de espírito. Conforme as horas iam avançando, sentia como se fosse ficar para sempre com a testa enrugada, os olhos cabisbaixos, o maxilar trincado.
Enquanto perdia as esperanças, olhou para fora. Uma fina faixa de sol brigava com o clima pesado, luta de gigantes para decidir quem levaria a melhor. O dia ruim ou a esperança de um restinho de tarde agradável. As nuvens dissipando, o vento espalhando o cinza pesado, o sol ganhando forças. Aos poucos.
E foi aos poucos que sentiu seu humor levantar, de mal a melhor.

