Conselho de Exu

Já era final de consulta em uma noite agitada no terreiro. Pitando seu charuto, o Exu observava a consulente, esperando pela próxima pergunta.

“Seu Exu”, perguntou a mulher, parecendo um pouco insegura, “eu queria saber sobre a minha vizinha…”

O guia ficou em silêncio e ela prosseguiu:

“Eu percebo que ela e a família dela não gostam da minha. O que eu faço?”

“Vocês brigam?”, indagou o Exu.

“Não”, respondeu a mulher.

“Já tiveram algum tipo de problema?”, insistiu ele, olhando a consulente nos olhos.

“Não, nada”, respondeu ela. “Apenas realmente não nos falamos, às vezes percebo um olhar torto. Sei que eles não gostam da gente. Eu na verdade não consigo entender os motivos.”

O Exu deu mais uma pitada no charuto e disse:

“Olha mulher, os motivos pode ser que venham de longe, de outras vidas. E o ideal, o que seria bom, de fato, é que vocês se entendessem. Que ficassem de bem. Afinal é pra isso que se vem nesse mundo, pra limpar as merdas já feitas”.

Depois de uma pausa, ele prosseguiu:

“Mas pelo que você está dizendo, esse acordo hoje não é possível. E sendo assim, vou lhe dar um conselho: é melhor odiar de longe do que brigar de perto”.

A consulente parecia surpresa com a sugestão, e o guia, percebendo, insistiu:

“Bom, bom, eu sei que não é. O certo seria mesmo vocês se entenderem, deixarem esses sentimentos de lado. Mas já que não é possível nesse momento vocês se amarem, pelo menos se respeitem. Que pelo menos fique cada um na sua e que se, se tiver que se odiar, que se odeiem de longe e em silêncio. É menos dor de cabeça para todo mundo”.

E a consulente, concordando, se despediu, ainda um pouco surpresa com a sinceridade do guia, mas convencida a pelo menos não criar mais problemas.


Além do “Causos”, também sou autor do livro “Toquinho: O Malandro Mirim”, sobre o trabalho de Exu Mirim na Umbanda. Ele já está disponível para venda aqui: http://bit.ly/2fQMWe4

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