Eu não sou uma pessoa de poucas palavras

Então por que sempre ouço isso?

Andresa Scucuglia
Aug 11, 2018 · 6 min read

Às vezes, poucas palavras são o suficiente para dizer tudo. Assim como o silêncio pode dizer muito. Meu negócio, desde muito cedo, sempre foram as palavras. Senti lá nos meus primeiros anos que existia uma forte ligação entre nós.

No meu caso, as palavras transitam por aqui: cérebro, dedos, papel ou computador. Nunca consegui ser boa oradora, mas na minha mente os mais complexos discursos, as mais afiadas respostas, as mais brilhantes teorias, o mais enovelado turbilhão de palavras, cheio de conexões, sempre está presente.

Muito presente.

É tão presente que, embora habituada a ouvir desde criança, às vezes quando alguém fala "nossa, como você é quieta!" ou comenta "ela é uma pessoa de poucas palavras", olho de novo para ver se é sério… "Quieta, eu? Poucas palavras? Mas e essa torrente de palavras que tá fluindo??". Aí eu percebo que realmente falar, eu falo pouco.

Eu fiz faculdade de Jornalismo. Outro choque para quem descobre, pois jornalista é profissão associada a um perfil de pessoas bem mais falantes do que eu. Realmente eu tentei passar o mais ao largo possível do tele e do radiojornalismo na faculdade. Meu lance sempre foi escrever, de preferência para revistas, algo mais elaborado, pesquisado, mais extenso.

Acabei enveredando para o mundo corporativo, nunca atuei como jornalista profissionalmente. No Banco do Brasil, trabalhei muitos anos na área de Comunicação e o padrão não foi diferente: adorava produzir conteúdo, era muito boa nisso, mas não gostava de apresentações e eventos. Nessa trajetória, cheguei a ouvir que não tinha perfil para a área (de uma só pessoa, na verdade). De modo geral, sempre tive reconhecidas as minhas virtudes profissionais pelas pessoas para as quais trabalhei.

recentemente (principalmente por causa do sucesso desta TED talk da Susan Cain) eu tomei conhecimento que o que acontece comigo é uma característica inerente aos introvertidos. Tem a ver com a forma como o nosso cérebro processa as informações, por um caminho mais longo do que nos extrovertidos. A representação abaixo é exatamente como me sinto com frequência:

Ilustrações: Liz Fosslien e Mollie West, em Quiet Revolution

Mas a verdade é que não sou uma pessoa de poucas palavras. Sou o extremo oposto disso.

Pessoas quietas possuem a mente mais barulhenta — Stephen King

De acordo com o estudo publicado no livro The Introvert Advantage — How Quiet People Can Thrive in an Extrovert World de Marti Olsen Laney, após um estímulo, ao mesmo tempo em que processa essa informação, o cérebro cuidadosamente analisa/considera memórias de longo prazo, pensamentos e sentimentos:

Ilustrações: Liz Fosslien e Mollie West, em Quiet Revolution

Cada "estímulo" gera uma reação em cadeia e isso favorece a criatividade e a imaginação. Não por acaso, nos identificamos tanto com personagens como Bobby Generic ou Calvin, e muitos outros que fazem longas conexões entre assuntos e complexas teorias sobre temas comuns.

Calvin (de Bill Waterson): "Onde estão os carros voadores? Onde estão as colônias lunares? Onde estão os robôs pessoais e as botas de gravidade zero, hein? Você chama isso de nova década?! Você chama isso de futuro?? Rá!"

É apenas mais uma característica humana. Na prática, não somos as pessoas que sempre falam em reuniões ou em rodas informais. Mas temos plena atenção em quem está falando, e na cabeça um "discurso sensacional", mas que por vezes fica pronto só depois que o momento já passou. Aí ficamos com toda essa inquietude represada, ansiando para que vire um fluxo contínuo de palavras com sentido. No meu caso, canalizo essa necessidade escrevendo.

Eu também escrevo histórias na cabeça mesmo. É uma espécie de organização do pensamento. Os primeiros parágrafos desse texto, por exemplo, eu escrevi palavra por palavra ontem à noite na cama, antes de pegar no sono.

Embora tenha dito que sempre tive minhas virtudes reconhecidas pela maioria das pessoas no trabalho, dos poucos feedbacks que já tive na minha carreira, todos eles (100% mesmo) destacaram um item para eu tentar melhorar: "falta marketing pessoal, você é ótima, mas aparece pouco".

Eu agradeço sinceramente por esses feedbacks, todos concedidos com muito respeito e para o meu crescimento. Há alguns anos não atuo diretamente com Comunicação no BB, mas ela permeia tudo. Então tentei ao longo do tempo várias formas para buscar "aparecer mais" sem parecer forçado, mas nunca se tornou algo natural.

Muitas vezes me questionei, a despeito de todos os feedbacks, será que essa transformação é realmente necessária?, será que é assim que todos os profissionais precisam ser?, não tem espaço para ser como eu sou, naturalmente?

Imagem: VisualHunt.com

Por tentar desmistificar o antagonismo "introvertidos x extrovertidos" é que trabalhos como da Susan Cain, Marti Olsen, Liz Fosslien e Mollie West ganharam notoriedade nos últimos anos. A ideia é que a complementariedade dos perfis é mais do que bem-vinda, é necessária nas organizações e na sociedade. Neste vídeo, Susan apresenta sua visão edificante sobre a relação de equilíbrio entre introvertidos e extrovertidos no mundo.

No meu caso, escolhi os quatro pilares em que posso me destacar de forma muito mais natural. Ter essa consciência, com base em auto-conhecimento, é fundamental para fortalecer potencialidades e reduzir fraquezas.

  1. Empatia: uma das vantagens de falar pouco é concentrar-se em ouvir e observar mais, o que facilita muito o exercício da empatia, ou seja, colocar-se no lugar do outro e respeitá-lo na forma como ele é. Parece tarefa simples, mas o simples fato de ser um bom ouvinte já é um diferencial. Estou falando daquele que presta atenção — escuta, não apenas ouve — não só ao que é dito, mas ao contexto da fala como um todo. A empatia e a audição ativa são instrumentos poderosos nas relações humanas.
  2. Assertividade: também pode ser um ponto forte de quem fala pouco, mas quando fala vai direto ao ponto, é objetivo e consistente. Para mim, é muito difícil manter uma conversa baseada apenas no lugar-comum, repetindo o que todo mundo já disse, "só para falar alguma coisa". A concisão precisa ser praticada: quando você tem muitas informações é um desafio reduzi-las a um "pacote pequeno". A assertividade é possível e a objetividade é uma característica valorizada, principalmente no ambiente profissional.
  3. Maestria: trilhar continuamente o caminho do aprendizado e da prática naquilo em que você é bom, para ter conteúdo consistente e acima da média. O conhecimento precisa ser incontestável para que o marketing seja uma consequência natural do trabalho, sem necessidade de planejar como fazer propaganda dele. É mais interessante me aprimorar naquilo em que eu já sou boa, do que focar no desenvolvimento de habilidades em que tenho muita dificuldade.
  4. Identidade: parece ser o item mais simples, mas envolve uma das coisas que quase sempre demoramos muito tempo para conseguir: a coragem de ser quem somos. É necessário se conhecer, se reconhecer, refazer planos, desconstruir crenças antigas, se reprogramar. Às vezes leva uma vida inteira para nos permitirmos ser quem somos diante de todos, por medo de admitir que não se enquadra em velhos padrões, ou nos padrões tidos como ideais. Envolve remexer muita coisa aqui dentro, mas tem que ser feito. Quanto antes, melhor.

Esses são os quatro pilares que servem para mim, sem pretensão nenhuma de ditar fórmulas aqui. Minimamente esses pontos sustentam o meu desenvolvimento, os meus propósitos, possibilitam relações construtivas na vida e no trabalho e me permitem oferecer um alto nível de colaboração ao meu empregador.

A partir desse re-conhecimento, ouvir 'como você é quieta' ficou bem menos frequente e, no meu íntimo, bem menos relevante.

Ilustração: Yorhán Araújo.

Tem uma história parecida? Deixe um comentário aqui no final. Adoraria trocar ideias sobre isso.


E para quem se interessar, mais ilustrações de Liz Fosslien e Mollie West e muitos outros conteúdos sobre o tema "Introvertidos" estão disponíveis no site Quiet Revolution, uma iniciativa de Susan Cain.

Celeiro de Palavras

fonte abundante de palavras

Andresa Scucuglia

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Música, filmes, livros, inovação, a vida, o universo e tudo mais. Sou jornalista e trabalho no Banco do Brasil.

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