Cena Sobre Cena #4 Salvador — BA

Texto por Cairo Melo

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Sempre vi Salvador como um lugar artístico/transitório por natureza, aqui eu sinto uma valorização, em termos de sociedade, do fazer, do criar, do expôr ideias, afinal “baiano não nasce, estreia”.

Independente de estereótipos ou ditames populares a áurea da Bahia é favorável à criação artística.

Sou de Pernambuco. Vim morar na Bahia há 15 anos.

Quando me mudei, início de 2003, logo percebi o quanto esse lugar é realmente acolhedor e em como ha arte e vida fluindo de todos os lugares.

Aqui descobri o rock, mesmo ouvindo axé e pagode todos os dias. Aqui fiz amigos que vieram a ser as pessoas mais talentosas que conheço. Aqui aprendi a não desistir dos sonhos.


Acho que exatamente desse espírito onírico e idealizador é que vem a força da música alternativa baiana, que continua firme, forte e cada vez mais ampla.


Comecei a frequentar a cena rock de Salvador na época da ascensão do emo nacionalmente, 2005 por ai, tínhamos shows nacionais todo final de semana, nesse ano aconteceu inclusive o lendário show do Placebo, que moldou o público e toda uma visão de rock alternativo por aqui. Também havia muito espaço para novas bandas aparecerem. Que coincidentemente foi também o crescimento de Pitty como uma cantora de renome nacional.

Fiz parte de algumas bandas punks e hardcore nessa época. Era divertido e mesmo sem tocar direito nossos instrumentos, tinham sempre pessoas assistindo os shows.

Em 2009, o emo ja tinha esfriado e a cena alternativa soteropolitana era aquecida com festinhas indie-eletrônicas, além da Vivendo do Ócio, já firme como maior banda baiana em atividade, já morando em São Paulo e fazendo shows esporádicos na terrinha.

Neste ano, junto com alguns amigos, criamos a NHL Produções, no intuito de produzir e trabalhar com um pouco mais de profissionalismo na música independente.

A cena vivia um boom indie, junto com o acontecimento nacional que foi o Fora do Eixo, e ali aconteceram as minhas primeiras experiências como produtor.


Festivais pipocando, bandas maravilhosas surgindo Brasil a fora. Essa foi a primeira vez que eu lembro de sentir a força da música alternativa nacional como um todo, bandas do norte, do nordeste e de todo o Brasil, circulando por todo país.


Aqui, ainda no fim da década passada, tínhamos ótimas bandas surgindo e se firmando, como a Maglore, a Velotroz (antiga banda de Giovani Cidreira), Charlie Chaplin, Weise, entre outras… Voltamos a ter shows periódicos com grandes bandas nacionais.

Giovani Cidreira no Dubliners Irish Pub. Uma das grandes revelações da música brasileira nos últimos tempos veio dessa efervescente cena de bandas baianas.

Em 2010 rolou a primeira edição do Festival Coquetel Molotov, originário de Recife-PE, aqui em Salvador.

Pra encabeçar o festival, eles trouxeram nada menos que Dinosaur Jr. Foi o show da minha vida e posso dizer que instigou a produção soteropolitana, aflorou os ânimos e não só por ser um show internacional imperdível, como por ser em um festival de outro estado que cresceu o bastante para se tornar interestadual.

2011 eles repetiram a dose e a segunda edição do Festival Coquetel Molotov em Salvador teve a banda HEALTH, que abriu nossos olhos para o eletrônico intrincado. Abriu o precedente para se usar mais música eletrônica do que os instrumentos, mostrou a importância do hype e da auto produção.

Em 2012, após surgimento de ótimas bandas, como Teenage Buzz, Os Jónsons, e com o fortalecimento da música alternativa produzida no interior do estado, com bandas como The Pivos (Camaçari), Novelta (Feira de Santana), Inventura (Alagoinhas) se apresentando frequentemente na capital, a cena baiana podia-se dizer, permanecia firme.

Maglore já havia se mudado para São Paulo e já alcançava um boa notoriedade, junto com a Vivendo do Ócio, que é certamente uma das bandas mais bem sucedidas do rock baiano dos últimos anos.

Em 2014, a cena começava a cansar do rock mais clássico, as festinhas-eletrônicas tinham evoluído pra raves e a música não tinha muito mais de rock.

Eu, junto com Matheus Patriarcha, reconstituímos a NHL Produções, criamos a Revista NIHIL — que seria o zine artístico da produtora — e conceituamos e começamos a produzir o projeto solo de Matheus, MAPA, em que lançaríamos o primeiro trabalho, o K7 “e eu nada”.

Esse seria o ponto marcante para uma boa leva de projetos solos que viriam a surgir baseados na premissa do tocar por cima do beat, movimento que apelidamos de Invisible Drums.


Em 2015 começou a ocorrer um fenômeno interessante: as bandas da capital foram explorar o interior e as do interior, explorar outros interiores e a capital.


Surgiram bandas como Limbo (Alagoinhas), Rivermann (Camaçari), Bilic (Lauro de Freitas) e os shows passaram a ser mais comuns e mais diversificados. Porém ainda havia pouco show de bandas nacionais acontecendo regularmente em Salvador.

Na capital surgiram bandas como HAO (que misturava o funk dos red hot chilli peppers com um sax, tocado pelo cantor da banda), e começou a se firmar o movimento Invisible Drums, com o surgimento de vários projetos solos, como Aurata (indie chillout), Hashima (Vaporwave), Tsunami (Lo-fi Punk), MAPA (Lo-fi), Giovani Cidreira (Nova MPB)…

Com o lançamento contínuo do zine Revista NIHIL, começamos a produzir por conta própria um evento chamado Tarde Vazia, matinê que circulava por vários locais, onde lançávamos a edição corrente da publicação e chamávamos bandas atuais que vinham fazendo barulho na cena para os eventos que aconteciam nos lugares mais inusitados.

Rolou num depósito de bebidas, numa ONG e numa vila de casinhas… Tocaram bandas e projetos como Vandal (rap), Barrunfo do Samba, MAPA, HAO, Van der Vous, The Pivos… Ainda neste ano, a convite do Dubliners Irish Pub, começamos a realizar o NHL Festival, mas ainda comtemplando apenas as bandas baianas.


Nesse ponto, começamos a ouvir falar da movimentação que tomava conta do país com bandas independentes metendo o pé na estrada, sem esperar convite, mas fazendo seu próprio caminho, tocando nos inúmeros pequenos festivais que vinham surgindo e crescendo de norte a sul.


Em Salvador as boas bandas/projetos não paravam de surgir, muitas reveladas ao público no Festival, como foi o caso dos projetos de Invisible Drums SOFT PORN (indie eletrônico) e Ubuntu (Musica Brasileira Eletrônica) e também a banda Ivan Motosserra, isso apenas no primeiro ano de realização do Festival (que não tem uma cronologia muito bem definida).

Começamos a conversar com artistas de outros estados principalmente para entrevistas no zine Revista NIHIL. Isso nos fez criar maior laço com bandas longinquas, como é o caso da Catavento, que conhecemos em 2014 e também da primeira banda que traríamos para Salvador, a também sulista Frabin.

Catavento, Van der Vous e My Magical Glowing Lens em Salvador — 2016.

2016 foi um ano de ouro na história da música alternativa baiana e da NHL Produções. Pela cidade continuavam a surgir ótimas novidades, fomentadas pelos shows regulares do NHL Festival, pelo crescimento do Rap e também por um projeto maravilhoso idealizado e realizado pelo maior produtor que o rock baiano já viu, Rogério Big Bros, atuante desde a década de 90, que criou o Quanto Vale o Show, projeto que acontece toda terça-feira e trás duas bandas, geralmente novas, que tocam pra o público que escolhe o quanto quer pagar naquele evento.

Exemplos de bandas surgidas ou crescidas em 2016 em Salvador e na Bahia e que se apresentaram em eventos NHL: Astralplane (Rock brasileiro psicodélico), Cine Iris (Feira de Santana), Rosa Idiota (Post-hardcore), Black Cascade (Black metal atmosférico), Ricardo Elétrico (Emo), Direto do Hospício (antigo grupo de Baco Exu do Blues, Rap), Bagum (instrumental), Beirando o Teto (Rap).

Em 2016, a NHL Produções trouxe 8 artistas independentes de fora do estado para se apresentarem pela primeira vez em Salvador, sendo dois deles em duas ocasiões distintas.

Circularam por aqui: Frabin (SC), Aldan (MG), My Magical Glowing Lens (ES), Bike (SP), Amandinho (PE), Catavento (RS), Papisa (SP), Kalouv (PE), entre outros.

Última passagem do BIKE por Salvador.

Essa movimentação trouxe maior comunicação com a cena nacional que estava fervilhando nesse mesmo ano.


Os shows nacionais de qualidade voltaram a acontecer na nossa cidade, dessa vez como parte de uma grande inciativa dos loucos pós-jovens com banda de todo país que resolveram tomar pra si a responsabilidade e fazer acontecer, circular pelo maior numero de locais e receber em suas cidades o maior numero de bandas dos mais diversos estados que também estejam circulando.


Em janeiro de 2017 três acontecimentos nos fizeram conectar diretamente com a cena musical alternativa do país, que continuava em ebulição com ótimas bandas circulando e crescendo cada vez mais, assim como os pequenos e médios festivais que ocupavam uma lacuna na musica brasileira desde o fim do Fora do Eixo, mas dessa vez um movimento horizontal e que alcançava a todos que participavam.

Iniciamos o ano trazendo mais duas bandas de outros estados, Diablo Angel (PE) e Casco (SE) — banda do Matheus que escreveu o Cena Sobre Cena 2.

Aí, fechamos um show surpresa em cima da hora com a maior banda nacional, Boogarins, num show segunda-feira, pós Festival Coquetel Molotov (que voltou a acontecer em Salvador 6 anos após sua ultima edição) e lotou.

E ainda realizamos nossa primeira turnê, levando as bandas SOFT PORN e Aurata para uma pequena porém poderosa turnê pelo centro-oeste do Brasil.

Durante o ano, podemos ver claramente um maior comprometimento dos envolvidos com a cena local.

Fechamos diversas parcerias com a BigBross Produtora e continuamos realizando o NHL Festival, trouxemos, assim, mais 7 bandas de outros estados para estrear nos palcos soteropolitanos, Capona (AL), Vitor Brauer & Jonathan Tadeu (MG), enema noise (DF), Grupo Porco de Grindcore Interpretativo (MG), Molho Negro (PA), Deaf Kids (RJ) e André Prando (ES).

A cena local ainda ganhou mais alguns projetos de respeito como Flerte Flamingo (Samba, nova mpb), Space Dog (punk rock), Iorigun (Feira de Santana, indie pós-punk), todas reveladas em eventos NHL.

O público vem crescendo gradativamente, porém ainda não é um público fiel e que tem curiosidade para conhecer novas propostas, geralmente certa banda possuiu um público que lhe é fiel e o nosso papel é tentar mostrar pra este público bandas e projetos que eles possam gostar e entao se tornar público de mais de uma banda.

Tivemos algumas baixas em termos de casas de shows nesses últimos anos, apesar do aumento de publico, ainda nao é o suficiente para manter uma casa de shows pagando cada vez mais impostos e taxas e que acaba por concorrer com o mercado informal das ruas, o que não é uma batalha justa.


O sonho tá vivo, existem muito material valioso sendo produzido na Bahia, e agora temos consciência de ser parte de uma cena maior que cresce de dentro pra fora e faz circular bandas de todos os estados brasileiros, por todos os estados brasileiros.


Há festivais acontecendo e crescendo a cada dia que passa e há bandas dispostas a realizarem intercâmbios que fazem a circulação ampliar. Acho que com um pouco mais de afinco e talvez uma maior atenção a divulgação de todos esses projetos e ideias o rumo que a cena pode tomar é enorme e recompensador.

Viva o rock baiano. Sempre.

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