MEIO AMBIENTE & DESENVOLVIMENTO

Curitiba: na vanguarda da agricultura urbana?

A Horta Urbana do Rio Bonito é um dos exemplos de agricultura comunitária na capital paranaense [Foto: Henrique Kugler]

Tendência nas grandes capitais do mundo, a agricultura urbana também vem se consolidando como prática deveras comum na capital paranaense. Mas a legislação ainda precisa de ajustes. E o poder público aos poucos se adapta a essa nova realidade — a Secretaria Municipal de Agricultura e Abastecimento de Curitiba (SMAB), por exemplo, já estuda as melhores maneiras de dar fôlego às iniciativas emergentes.

“Muitas experiências de agricultura urbana estão crescendo por toda a cidade”, comenta o secretário municipal de agricultura e abastecimento, Luiz Dâmaso Gusi. Para ele, a prática é uma inteligente estratégia capaz de aprimorar a segurança alimentar e nutricional (SAN) dos curitibanos. “Começa pela terra mas, logo em seguida, a prática da agricultura urbana abre diversas camadas na esfera social: segurança, educação, resgate de saberes e tantas outras vantagens que enriquecem e incentivam o espírito comunitário em nossa cidade”, comenta Gusi.

Foi para discutir esse tema que, na última quinta-feira (21/06/2018), o secretário visitou o Centro Paranaense de Referência em Agroecologia (CPRA). A agricultura urbana, afinal, traz em sua essência uma notável vocação agroecológica.

Do rural ao urbano

Apesar de o CPRA ter sua atuação historicamente associada ao meio rural, nos últimos tempos registra-se uma expansão no perfil dos públicos que buscam novos conhecimentos na instituição. “Nos últimos anos, grupos muito diversos têm-nos procurado: não apenas agricultores familiares, mas também pessoas interessadas no desenvolvimento da agroecologia dentro do contexto urbano”, diz a engenheira agrônoma Simone Richter, do CPRA.

Imenso potencial de cooperação, portanto, emerge nesse diálogo entre SMAB e CPRA. Em âmbito estadual, o CPRA pode compartilhar a expertise desenvolvida ao longo de mais de uma década com ações, tecnologias e boas práticas em agroecologia. Enquanto isso, na esfera municipal, a SMAB empenha-se em tornar Curitiba uma referência em agricultura urbana.

Representantes da SMAB visitam o CPRA [Foto: Henrique Kugler]

Nesse cenário promissor, a SMAB já ensaia os primeiros passos para um plano audacioso: criar, na capital, um novo centro de referência dedicado ao tema. Trata-se do Centro de Referência em Agricultura Urbana e Economia Criativa. Em uma área de quase 10.000 m², o projeto será um polo demonstrativo de tecnologias para diferentes modalidades de cultivos agroecológicos adaptados ao cenário urbano.

“No local será promovido o plantio sustentável de hortifrútis nas mais diversas modalidades de cultivo; o projeto prevê o uso de energias renováveis, como a eólica e captação de água de chuva para a irrigação e também solar, além de composteira própria”, informa a página da prefeitura.

Cenário global

A América Latina é terreno fértil para novas experiências em agriculturas de base ecológica. O novo Centro de Referência em Agricultura Urbana e Economia Criativa poderá racionalizar o ciclo do alimento na capital paranaense. Tal projeto poderá dar à SMAB uma espécie de protagonismo na democratização do acesso aos alimentos orgânicos em nossa região — e isso há de inserir Curitiba no cenário global de ideias inovadoras e alinhadas às demandas econômicas, sociais e ambientais do século 21. Nesse novo paradigma civilizatório, os termos prosperidade econômica, desenvolvimento social, soberania alimentar e agroecologia são indissociáveis.

A agroecologia, vale lembrar, já é tema central na agenda da Organização das Nações Unidas (ONU), como destaca o último Report of the Special Rapporteur on the right to food, publicado em 2017. Ela é, também, uma ferramenta indispensável na busca pelos Objetivos do Desenvolvimento Sustentável (ODS). Dos 17 objetivos elencados pela ONU como prioritários, ao menos 11 estão diretamente vinculados ao fomento de práticas agroecológicas tanto no campo quanto na cidade.

Solo vivo, terra fértil [Foto: Henrique Kugler]

De fato, já é extensiva a literatura acadêmica a demonstrar o potencial da agroecologia em suas diversas vertentes, rurais ou urbanas. Trata-se, afinal, de um conjunto de práticas capazes de subverter um sistema em colapso e promover um ciclo virtuoso de relações harmônicas entre o homem e a terra.

Os artigos Organic agriculture in the twenty-first century e Strategies for feeding the world more sustainably with organic agriculture, publicados na revista Nature; o artigo Toward pesticidovigilance, publicado na Science; o livro Agribusiness and the Neoliberal Food System in Brazil: Frontiers and Fissures of Agro-neoliberalism, publicado pela editora britânica Routledge… São apenas alguns exemplos desse renascimento acadêmico que tem lançado novas luzes sobre antigos saberes na lida com a terra. Sem mencionar, é claro, o já famoso Dossiê da Associação Brasileira de Saúde Coletiva, importante libelo a denunciar as externalidades negativas do modelo convencional de produção agropecuária. Enquanto isso, o recém-lançado relatório da Oxfam, acerca da cadeia do alimento nas principais redes de supermercados do mundo, detalha os desequilíbrios econômicos, sociais e ambientais que caracterizam a logística do alimento no mundo contemporâneo. É também valiosa a leitura do Organic Action Plan for Denmark, plano do governo dinamarquês para uma audaciosa conversão da matriz alimentar do país para o sistema orgânico.

Todas essas publicações reforçam a necessidade de mudanças profundas na maneira como nosso alimento é produzido, valorizado e consumido. Nesse espírito, o diretor-geral da Fundação das Nações Unidas para Alimentação e Agricultura (FAO), José Graziano da Silva, conseguiu resumir séculos de conhecimento agronômico em uma só frase: “O futuro da agricultura não será intensivo em insumos, mas intensivo em conhecimento”.

Henrique Kugler