Justo, saudável e conveniente: como funciona o comércio de cestas orgânicas?

I Encontro Regional de Cestas Solidárias [Foto: Henrique Kugler]

Imagine que você tomou uma importante decisão: a partir de agora, pelo bem de sua própria saúde, você passará a consumir apenas produtos orgânicos. Onde comprar? As feiras orgânicas costumam ser boas alternativas. Em Curitiba, por exemplo, já existem quase 20 feiras semanais de alimentos agroecológicos. O que poucas pessoas sabem, porém, é que há uma outra estratégia muito promissora: adquirir cestas semanais de produtos orgânicos por meio de parceria direta com uma família de agricultores da região.

Essas cestas são entregues em locais estratégicos da cidade — pontos de fácil acesso aos consumidores de uma determinada região. Pode ser uma empresa, uma escola, uma academia… Além de saudável e conveniente, essa estratégia de aquisição faz com que os preços dos produtos orgânicos fiquem bem mais em conta.

“Hoje, na Região Metropolitana de Curitiba e nos Campos Gerais, já são mais de 450 cestas orgânicas comercializadas semanalmente”, conta o agrônomo Manuel Delafoulhouze, do Centro Paranaense de Referência em Agroecologia (CPRA). “Essa prática já acontece em 12 municípios e tem movimentado, anualmente, cerca de R$ 500 mil”, contabiliza Delafoulhouze. Ele destaca que essa cifra simboliza uma dinâmica muito promissora. Trata-se, afinal, de um valor que é repassado diretamente dos consumidores aos produtores — sem intermediários. Essa é uma das estratégias que os especialistas chamam de ‘circuitos curtos de comercialização’.

Cestas Solidárias

Pensando no potencial dessa ideia, o CPRA tem apostado no projeto Cestas Solidárias, desenvolvido em parceria com o Laboratório de Mecanização Agrícola da Universidade Estadual de Ponta Grossa (Lama/UEPG) e com a Rede Ecovida de Agroecologia.

A iniciativa tem o objetivo de ampliar o comércio de cestas orgânicas no Paraná. Acredita-se que, ao aproximar agricultores e consumidores, um ciclo virtuoso poderá ser consolidado — por meio de ações que visam garantir a qualidade dos alimentos, o preço justo e uma relação cada vez mais solidária entre quem vive no campo e quem vive na cidade.

Na última semana, aliás, a Universidade Estadual de Ponta Grossa (UEPG) foi sede de um evento pioneiro nesse segmento: o I Encontro Regional de Cestas Solidárias. A proposta do encontro foi reunir produtores rurais e consumidores em um mesmo espaço de discussão — de modo que pudessem, juntos, debater estratégias para continuar a desenvolver essa prática tão promissora que é o comércio de cestas orgânicas.

Mais de 50 pessoas participaram do evento. Agricultores, consumidores, estudantes, pesquisadores… O encontro também contou com a presença da Associação de Consumidores de Produtos Orgânicos do Paraná (ACOPA).

Agricultores e consumidores de produtos orgânicos discutem estratégias de comercialização em Ponta Grossa [Fotos: Henrique Kugler]

Do agricultor para o consumidor

“Minha experiência com a venda de cestas tem sido extremamente positiva”, comenta a agricultora Rosilene Aparecida dos Santos, de Campo Largo (PR). “Atualmente, vendo cerca de 140 cestas de verduras orgânicas a cada semana”, comemora. É um número animador — considerando que, no caso dela, cada cesta custa em média de R$ 15 a R$ 20. Izabel Cavali Coelho, uma de suas clientes e parceiras, já criou até um sistema digital para facilitar o gerenciamento da produção e das entregas. A grande maioria das cestas que Rosilene comercializa são entregues para funcionários da Companhia Paranaense de Energia (Copel) e do Instituto de Tecnologia do Paraná (Tecpar).

Diversos grupos de agricultores já trilham o mesmo caminho. Valdivino Cróski e Marilde da Silva Valério, do assentamento Guanabara, em Imbaú (PR), já entregam cerca de 70 cestas toda semana. “Procuramos sempre oferecer no mínimo dez produtos diferentes a cada entrega”, conta a dupla de agricultores, que comercializa cada uma pelo valor de R$ 20 a R$ 25.

Na Região Metropolitana de Curitiba e nos Campos Gerais, já são mais de 450 cestas orgânicas comercializadas semanalmente [Foto: Manuel Delafoulhouze]

Outro modelo de parceria que tem se desenvolvido muito no Brasil e no mundo é o CSA — sigla em inglês que significa Community-supported Agriculture ou, em tradução livre, Comunidade Sustentando a Agricultura (ou ainda, em tradução literal, simplesmente Agricultura Sustentada pela Comunidade). É um modelo de trabalho conjunto entre produtores e consumidores de alimentos orgânicos. A lógica é simples: grupos de consumidores comprometem-se a financiar, em geral pelo período de um ano, os custos de produção de uma determinada fazenda, sítio, propriedade. Em contrapartida, o agricultor terá a segurança financeira necessária para se dedicar livremente à sua produção anual — e entregará os alimentos em locais estratégicos da cidade, onde os financiadores poderão apanhá-los semanalmente. Já existem mais de 20 grupos de CSA no Brasil.

Mercados institucionais

Agora imagine se, na empresa onde você trabalha, houvesse um grupo organizado de consumidores de produtos orgânicos? Essa realidade já existe. Um exemplo notável é a Copel — em várias unidades da empresa, funcionários recebem semanalmente uma cesta de produtos oriundos diretamente da propriedade de Rosilene. Trata-se de um programa institucional que a empresa batizou de Consumator, um trocadilho entre as palavras ‘consumidor’ e ‘ator’. “O consumo organizado de cestas orgânicas já acontece há sete anos em nossa instituição; temos grupos de funcionários em Curitiba, Ponta Grossa e Maringá”, conta Alexandre Húngaro da Silva, sociólogo da Copel. Apenas em Curitiba, são cinco locais de entrega. “E a Copel tem interesse em ampliar esse programa: cogita-se replicar o modelo também em Cascavel e Londrina”, adianta o sociólogo.

De acordo com Silva, a própria Secretaria da Agricultura e Abastecimento (SEAB) deveria implementar ações no sentido de estimular cada vez mais essa prática. “Servidores estaduais, por terem uma renda estável, acabam constituindo um público fidelizado para os produtos orgânicos”, comenta. “Mas não devemos pensar apenas nas vantagens sociais, ambientais logísticas proporcionadas pelas cestas orgânicas.” Outro fator crucial destacado por Silva é a própria qualidade desses alimentos — que, por serem livres de agrotóxicos, beneficiam direta e indiretamente as políticas de saúde pública. “Sem contar, é claro, nos benefícios nutricionais que acompanham o hábito de consumir orgânicos”, acrescenta o sociólogo da Copel. “Quem dá preferência a esse tipo de produto acaba naturalmente adquirindo uma maior consciência alimentar e, como consequência, buscando um estilo de vida mais saudável.”

Também em Curitiba, a sede da Secretaria de Ciência, Tecnologia e Ensino Superior (SETI) planeja implementar, em parceria com o CPRA, um projeto semelhante — para também oferecer a seus funcionários a oportunidade de adquirir cestas de alimentos orgânicos entregues diretamente pelos agricultores da região. “Seremos a primeira secretaria estadual a fazer parte desse projeto, e gostaríamos muito de incentivar as demais secretarias a seguirem a mesma tendência”, comenta o administrador Luiz César Kawano, da SETI, responsável pela Unidade Gestora do Fundo Paraná.

A Sanepar é outra companhia que vem se interessando por esse tipo de iniciativa — já existe, na sede da empresa, uma feira orgânica para os funcionários, todas as sextas-feiras pela manhã.

Entrega de cestas de produtos orgânicos [Fotos: Manuel Delafoulhouze]

Logística facilitada

As possibilidades para os grupos de cestas solidárias, porém, transcendem os mercados institucionais. Tal prática também pode ser replicada em outros contextos como, por exemplo, instituições de ensino. Muitos pais vão, diariamente, buscar seus filhos nos pátios ou portões das escolas. Por que não aproveitar a carona e apanhar, no mesmo local, uma cesta orgânica entregue por um agricultor parceiro?

Esse modelo de cooperação já acontece nos colégios Maria da Luz Fruquim, Shirlene e Manoel Borges de Macedo, que ficam no município de Rio Branco do Sul (PR). Mais de 40 famílias participam da troca de cestas.

Pais, professores e alunos do Colégio Agrícola Newton Freire Maia, em Pinhais (PR), também já sinalizaram interesse em estabelecer parcerias dentro desses mesmos princípios. Além de ser uma experiência pedagógica, a prática simboliza um novo tipo de relação social que é a colaboração direta entre consumidores e agricultores.

Um caminho possível

“Valorizar o trabalho do agricultor que cultiva alimentos agroecológicos não significa necessariamente pagar mais caro por isso”, comenta Delafoulhouze. “Significa construir conjuntamente uma relação solidária e humana, na qual podemos conversar abertamente sobre qualidade, preço justo, e mesmo questões logísticas.” Esse diálogo; o comprometimento mensal do consumidor parceiro; e a não-escolha individual das verduras são o que Delafoulhouze chama de “maneiras não monetárias” de se valorizar o trabalho de quem produz. “Estamos falando de um processo de conscientização tanto para os produtores rurais quanto para os consumidores, pois a mudança de paradigma é para ambos”, afirma o agrônomo do CPRA.

"Valorizar o trabalho do agricultor que cultiva alimentos agroecológicos não significa necessariamente pagar mais caro por isso" [Foto: Henrique Kugler]

Segundo o engenheiro agrônomo Ivo Melão, presidente da ACOPA, o evento realizado em Ponta Grossa cumpriu seus objetivos de promover e fortalecer os canais alternativos de comercialização de produtos orgânicos oriundos da agricultura familiar — por meio da aproximação entre agricultores e consumidores. “As experiências têm mostrado, sob vários aspectos, que os circuitos curtos de comercialização podem ser um caminho vantajoso para os diferentes atores envolvidos no processo”, diz Melão, que também é coordenador da área de Socioeconomia e Comercialização do CPRA. “Diversificar a oferta e o consumo de produtos alimentares; estabelecer um canal de confiança nessas relações; preços justos e solidários”, são apenas alguns dos pontos positivos que, segundo Melão, esse tipo de abordagem pode proporcionar.

“Aliás, encontrar novas estratégias de comercialização é um dos maiores desafios da agricultura familiar no Brasil”, contextualiza o engenheiro agrônomo Carlos Hugo Rocha, da UEPG, que também participou do I Encontro Regional de Cestas Solidárias. “Essas iniciativas deveriam ser replicadas às dezenas, às centenas, aos milhares”, opina. Em sua avaliação, experiências desse tipo podem tornar as propriedades familiares cada vez mais rentáveis.

Agroecologia e agricultura familiar

“Precisamos viabilizar a pequena propriedade e todos os efeitos positivos que ela proporciona”, diz Rocha, referindo-se à preservação ambiental, à diversificação da paisagem, ao desenvolvimento rural e, é claro, à produção de alimentos livres de agroquímicos e insumos perniciosos aos ecossistemas.

“No Brasil, infelizmente, as políticas públicas não favorecem a agricultura familiar na mesma medida em que favorecem o agronegócio”, critica Rocha. “Para plantar soja, temos dinheiro fácil; mas para agricultores que desejam cultivar produtos agroecológicos os caminhos são bem mais difíceis.”

Ele diz que, em países mais desenvolvidos do ponto de vista agrário, políticas públicas são desenhadas de modo a fortalecer a agricultura familiar. “Países como França, Holanda e Reino Unido já aprenderam uma importante lição: é a pequena propriedade que proporciona alimentos de qualidade e, portanto, mais saúde para a população”, diz Rocha. “Nessas nações, tal conhecimento já se transformou em políticas públicas consolidadas para fortalecer e valorizar os pequenos agricultores.” É esse o caminho que, segundo ele, precisamos trilhar no Brasil.

Henrique Kugler