Por dentro da Westvleteren

Saiba como uma pequena cervejaria gerida por monges faz a melhor cerveja do mundo

Os monges trapistas da Abadia de São Sixto de Westvleteren, na Bélgica, não estão no mercado cervejeiro em busca de riqueza ou sucesso — eles produzem apenas o suficiente para a sustentabilidade do mosteiro.

A fama, porém, chegou até à abadia de forma inesperada, em meados dos anos 2000, quando o site de informações cervejeiras, RateBeer, elegeu a sua Quadrupel 12 a melhor cerveja do mundo.

O diretor executivo do site, Joe Tucker, que edita o ranking com base em críticas dos usuários, afirma que não tinha ideia do impacto que o resultado traria para o mosteiro. Além da Quadrupel 12, a cervejaria já havia sido eleita a melhor do mundo na lista anual de 2002, mas ninguém deu muita bola para esse reconhecimento na época.

“Em um dia, 20 pessoas estavam bebendo a cerveja no bar da abadia. No outro, uma imensa fila de carros se formou, esperando para comprar a Quadrupel 12”, disse Tucker ao site Business Insider. Teve até canal de TV belga dando cobertura ao fenômeno, com direito a briga por cerveja e tudo!

Então, de repente, o rótulo que ninguém tinha ouvido falar disparou em popularidade. Tucker recebeu um telefonema de Westvleteren logo depois; os monges não estavam felizes... Graças à lista do RateBeer, o público ficou sedento por mais cerveja “e a abadia não quis aumentar a produção”, disse Tucker. “Cerveja é geralmente um negócio, há um mercado para isso, mas os monges não a vêem assim”.

Um pequeno negócio
Dos 11 mosteiros trapistas que produzem cerveja, a Westvleteren é o que produz em menor volume: pouco menos de 4.000 barris, ou 126.000 galões, por ano. O maior, Chimay, produz cerca de 3,2 milhões de galões por ano.

Os monges de São Sixto começaram a produzir cerveja por volta de 1839, com vendas abertas ao público somente a partir de 1931. Charles “Chuck” Cook, escritor e fotógrafo especialista em cervejas belgas, explicou à Business Insider que a receita mudou muito pouco desde então.

A abadia fabrica cerca de 70 dias por ano, começando às 9 da manhã e terminando às 5 da madrugada. Cinco monges trabalham na cervejaria e mais cinco pessoas trabalham nos dias de envasamento.

Cook é um dos poucos leigos que tem acesso à cervejaria e já está bastante familiarizado com o processo. Ele participou da brassagem das três cervejas — as #8 e as #12, tanto as Dark Ales e a Blond com ABV de 5,8%. O aprendiz também tentou produzir uma variedade que tinha sido envelhecida desde 1969…

Cook acha que a Quadrupel 12 é o melhor do mundo? “Existem muitas Dark Ales na Bélgica, como a Rochefort 10 e a St. Bernardus Abt. São inúmeras cervejas escuras e fortes com ABV de 10, 11, 12%... mas, no caso da Westvleteren, quando você compara o sabor, o fato de ser realmente elaborada por monges e o ‘fator de escassez’, isso faz toda a diferença”, explica Cook.

O “fator escassez”
“Fator de escassez”: este é o motor da “Westvleteren-mania”. Além de produzir o menor volume entre as trapistas, conseguir a cerveja em si é não é uma tarefa nada fácil.

Os rótulos estão disponíveis no In De Vrede Café, localizado perto dos muros da abadia (chopp ou grade com seis garrafas, com um limite de duas grades por pessoa) ou no “drive-thru” (com um limite de um pedido por carro, que deve ser reservado com, pelo menos, 60 dias de antecedência por telefone).

Encontrar a abadia também não é nada fácil. O melhor e mais prático jeito de se chegar lá é alugar um carro e dirigir por cerca de uma hora e meia, partindo de Bruxelas. Caso contrário, você terá que pegar um ônibus, depois outro e depois mais outro… em um pesadelo que pode durar horas.

Uma vez lá, porém, é como chegar a algum lugar mítico e lindo. A cerveja é realmente fenomenal: escura, com sabor de passas, um pouco de carvalho e muito forte, com 11% de ABV. Ela é complexa, aquece o corpo… é absolutamente deliciosa.

O “mercado cinza”
A grade da Westvleteren 12 com 6 garrafas é vendida por 40 euros, o que é bem barato considerando que trata-se da melhor cerveja do mundo. Mas, novamente, os monges não estão de olho no lucro.

No entanto, o fato da cerveja estar disponível apenas no mosteiro fez surgir um “mercado cinza” onde pessoas tentam revender as garrafas por 50 dólares ou mais. Os monjes de São Sixto não aprovam a prática e o próprio Joe Tucker, fica de olho para que isso não aconteça no RateBeer.

Então, por que a abadia não aumenta a produção? “Isso pode fazer com que a cerveja perca seu apelo, especialmente se for divulgada mais amplamente”, afirma Cook, acrescentando que, mesmo se tomasse essa decisão, a Westvleteren “continuaria sendo uma ótima cerveja, com grande reputação”.

E a abadia é taxativa na questão da comercialização. “Não somos cervejeiros, somos monges. Nós fazemos cerveja para podermos ser monges”, diz uma declaração no site oficial. Aumentar a produção, exceto como um meio para subsistência, vai contra as crenças da ordem religiosa.

“Eles vendem para viver”
Em 2015, a Westvleteren 12 apareceu novamente na lista das melhores cervejas do mundo, segundo o RateBeer. Dessa vez, não houve o fator surpresa, embora os monges ainda estejam impressionados com a exposição. De todas as cervejarias do mundo — e de todas as cervejas feitas por todas as cervejarias do mundo — imagine ser avaliada como a melhor?! É um título importantíssimo que, para a maioria dos cervejeiros é só um sonho. Ainda assim, os monges são humildes. Eles não se propuseram a fazer a melhor cerveja do mundo, mas a fizeram….

É difícil dizer se a abadia orgulha-se do título, embora o irmão Godfried, que é responsável pela cervejaria, disse uma vez à Reuters: “É bom saber que nossos clientes apreciam o que fazemos”.

“Eles vendem para viver, eles não vivem para vender”, afirma Cook, acrescentando que “não é algo que você não se orgulharia de fazer…”.