Os gigantes apresentam suas armas

Daniel Pereira Engenheiro da Computação e Consultor em Sistemas Embarcados

Há espaço para todos, mas, por questão de sobrevivência, redução de custo ou estratégia, há um processo natural de acomodação, da mesma forma que ocorreu na indústria de hardware, software, jogos eletrônicos etc. em décadas passadas.

Nos últimos meses, tivemos a oportunidade de observar os primeiros resultados das alianças que ocorreram no ecossistema de Internet das Coisas, ou simplesmente IoT. O que vimos foi uma consolidação necessária devido ao imenso universo de competidores, plataformas que se sobrepõem, protocolos e frameworks que proveem as mesmas funções. Essa união ocorreu na forma de aquisições e fusões em todas as camadas das soluções de IoT, desde hardware, infraestrutura, segurança, a Cloud, analytics e serviços, visando elevar competitividade, aperfeiçoar as soluções e expandir a atuação das gigantes. O que estamos vendo sair do forno são as versões integradas das plataformas fim a fim derivadas dessa consolidação.

Começando pelo hardware, a Intel, gigante de semicondutores, apresentou uma segunda iteração de sua plataforma de IoT, que, de Intel mesmo, tem apenas os processadores da linha Quark e as placas Galileo e Edison. O tema segurança, bastante em evidência, é preenchido pela expertise da McAfee, adquirida pela Intel em 2011. A Wind River, adquirida em 2009, famosa pelo seu sistema operacional (OS) VxWorks presente em quase todas as espaçonaves da Nasa, incluindo a Curiosity, preenche toda a lacuna de software da plataforma, desde o pequeno OS Rocket projetado para os dispositivos mais restritos, passando por outro OS, o Pulsar, baseado em Linux, para os gateways e dispositivos mais robustos, e finalmente chegando a soluções de Cloud.

Já a ARM, após uma série de aquisições, apresentou a segunda versão aberta (16.03) do seu mbed OS. Em pouco mais de um ano, do anúncio até o release, o mbed OS é suportado por uma grande variedade de fabricantes de hardware proporcional à quantidade de empresas que licenciam os processadores ARM. Enquanto outras empresas direcionam seus esforços para uma quantidade limitada de opções de hardware, o objetivo da ARM é claramente escala e pulverização. Destaque para as soluções de segurança mbed TLS, tecnologia da Offspark, empresa holandesa adquirida em 2015.

Na área de infraestrutura, algo que não pode ser negligenciado, quando consideradas as previsões de escala de bilhões de dispositivos conectados, é o fato de as empresas que já são gigantes em seus setores, como Cisco, Ericsson, Nokia, Alcatel-Lucent, Huawei e ZTE, contentarem-se em assinar acordos bilionários de colaboração quando não conseguem licença para fusões. A parceria entre Cisco e Ericsson permite que cada uma comercialize até US$ 1 bilhão em produtos e serviços da outra por ano. Este é um primeiro passo para uma fusão, caso o cenário de regulação melhore. A fusão foi a saída da Nokia e Alcatel-Lucent para se estruturarem frente ao avanço das chinesas Huawei e ZTE. Uma proposta de US$16,6 bilhões, que partiu da Nokia, criou a segunda maior empresa de serviços em telecom do mundo e, agora consolidada em janeiro de 2016, pode gerar economia da ordem de US$ 1 bilhão por ano às empresas.

Hardware e infraestrutura não são nem um pouco relevantes quando consideramos o universo atual de desenvolvedores de software que produzem soluções, apps e serviços baseados ou não em smartphones. Eles estão de olho nas plataformas de desenvolvimento da Apple, Google, Microsoft e Samsung.

A Apple largou na frente com o lançamento do HomeKit em 2014. Essa plataforma permite que os atuais desenvolvedores de acessórios para iPhones, iPods e iPads estendam suas soluções para o ambiente doméstico. Foi um caminho fácil e bem pavimentado, por isso já há dezenas de produtos no mercado. O processo de certificação desses novos produtos segue basicamente os mesmos requisitos do já conhecido MFi (Made for iPhone), que garante qualidade, confiabilidade e interoperabilidade.

A Nest, adquirida pela Google no início de 2014, foi o abre-alas desta empresa em termos de soluções e protocolos no escopo de IoT. Com a Nest, o Google ganhou de presente um conjunto de protocolos para dispositivos restritos: Thread. Desenhado especificamente para a IoT, vem rapidamente ganhando adesão de vários fabricantes e soluções inclusive do ecossistema ARM. É proprietário e requer uma filiação paga de US$ 2.500 apenas para ter acesso à especificação, mas os primeiros produtos com o label Thread, após passarem por extensos testes de certificação para garantir interoperabilidade, devem chegar ao mercado este ano. Além de Thread, o Google também apresentou em outubro de 2015 uma plataforma baseada em Android composta pelo OS Brillo e o conjunto de protocolos chamado de Weave. Essa plataforma tem o objetivo de armar o ecossistema Android com o mesmo arsenal que o iOS possui com o Apple HomeKit.

A Microsoft, que tradicionalmente tem dificuldade de responder às mudanças de mercado na velocidade necessária, vem se posicionando com certo protagonismo no cenário de IoT. O Windows 10 IoT Core foi a primeira surpresa: lançado oficialmente em agosto de 2015, possui um porte para a plataforma baseada em ARM mais popular do mundo, a Raspberry Pi 2, e também para uma placa com processador x86 Intel Atom. Neste cenário, os devices possuem fácil acesso ao já tradicional serviço de Cloud da Microsoft, o Microsoft Azure.

Além disso, a Microsoft é bastante ativa e interessada na padronização de uma plataforma para desenvolvimento de aplicações. Seu maior suporte é para a plataforma AllJoyn da AllSeen Alliance, a plataforma aberta mais popular de IoT, capitaneada pela Qualcomm e que agrega empresas de consumo como Sony, Philips, LS, Panasonic, ASUS e Honeywell, além de outros 180 fabricantes. A Intel, também interessada nessa padronização, contribui mais ativamente com a Open Interconnect Consortium

(OIC) e sua plataforma IoTivity, que, no final de 2015, anunciou a aquisição de parte do UPnP Forum (Universal Plug and Play), fundado justamente pela Microsoft e pela Intel para conexão de dispositivos de maneira transparente.

Por fim, a maior parte dos dados coletados dos dispositivos é enviada para algum serviço de armazenamento em Cloud, onde são filtrados, combinados e processados (analytics), gerando novas informações. Esse processamento ocorre tradicionalmente na própria Cloud, dada a capacidade de processamento e memória dessa infraestrutura. Para as soluções de IoT, há uma tendência de que parte do processamento seja realizado já no device ou nos dispositivos próximos ao device (gateways), o que é conhecido pelo termo de Fog computing. Neste caso, a Microsoft, novamente surpresa, juntamente com a Cisco, capitaneou a criação do OpenFog Consortium, também integrado pela Princeton University e as empresas ARM, Dell e Intel. Todas essas empresas já proveem serviços de cloud e analytics estruturados, e agora visam trazer para a Fog sua expertise para soluções corporativas sensíveis a tempo.

Todos concordam que o mercado de IoT é realmente colossal: chegará à ordem de trilhões de dólares em menos de 10 anos, conforme apontam estudos do instituto McKinsey (2015). Há espaço para todos, mas, conforme apresentado, por questão de sobrevivência, redução de custo ou estratégia, há um processo natural de acomodação, da mesma forma que ocorreu na indústria de hardware, software, jogos eletrônicos etc. em décadas passadas. É importante observar esse movimento para identificarmos as tendências em cada um dos domínios de IoT, como Cidades Inteligentes, Carros Conectados, Indústria e Automação Residencial.

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