Pense grande, comece pequeno, ande rápido

Felipe Navarro Alves Engenheiro da Computação

Sairão na frente aqueles que antes de tentarem abraçar o mundo inteiro com uma nova tecnologia, olharem para dentro das nossas casas, das nossas empresas e das nossas cidades e desbravarem todos os pequenos problemas a serem solucionados.

Ao longo dos últimos 10 anos estamos vivendo uma explosão tecnológica como nunca se viu antes. Não dizemos isto em função do surgimento dos smartphones, tablets e demais dispositivos que antes eram apenas vistos em filmes de ficção científica. De fato, a humanidade já presenciou feitos tecnológicos muito maiores, como o envio de pessoas ao espaço utilizando processadores mais simples do que os presentes nos videogames atuais. O que nos motiva a afirmar que os últimos 10 anos foram ímpares na história da tecnologia é a mudança na figura do próprio inovador.

No passado, as maiores inovações eram feitas por grandes gênios em suas garagens ou megalaboratórios. Steve Wozniak, Steve Jobs, Bill Gates, todos eram “pontos fora da curva” capazes de criar microcomputadores com interface gráfica na época em que máquinas de escrever ainda eram utilizadas. De forma mais enfática, a criação de um simples jogo de Pong exigia um profissional versado em linguagens de baixo nível como Assembly e em projeto de hardware digital. Hoje em dia, crianças de 10 anos desenvolvem jogos 3D multiplataforma e criam robôs na sala de aula. Ou seja, temos milhares de inovadores com as mais diversas formações criando tecnologias ao redor do mundo, e a todo momento. Basta abrir o Kickstarter para comprovar a veracidade deste fato. O maior site de financiamento coletivo do mundo informa em sua apresentação que desde o lançamento da empresa, em abril de 2009, 11 milhões de pessoas contribuíram para 104.864 projetos que arrecadaram US$ 2,3 bilhões. Em 2014, a plataforma teve 22.252 projetos independentes custeados com sucesso, somando um total de US$ 529 milhões. Desses, a tecnologia disparou em primeiro lugar na arrecadação em dinheiro: US$ 125 milhões (fonte: Tecmundo, jan/2015).

Neste mundo cheio de inovadores surgiu o conceito de Internet das Coisas, motivado pela ideia de criar dispositivos inteligentes que se comunicassem entre si e resolvessem problemas tão grandes como o monitoramento de indústrias ou tão pequenos quanto saber quando a água do seu bebedouro vai acabar, ou quando a caixa d’água está vazia.

O fato interessante é que muitos desses problemas aparentemente insignificantes escondem grandes oportunidades de negócio. Vamos analisar, por exemplo, as boias de caixa d’água, dispositivos presentes na grande maioria dos lares brasileiros que controlam o acionamento e o desligamento das bombas de água.

As boias utilizadas hoje em dia apresentam diversos problemas de confiabilidade, usabilidade e segurança. Por exemplo, em muitas delas, o contato que liga e desliga a bomba se encontra no interior do flutuador, de forma que na ocorrência de uma falha na vedação toda a caixa d’água fica eletrificada, representando um perigo para as pessoas que realizam sua manutenção e para os próprios consumidores da água. Além disso, não é raro uma boia deixar de chavear a bomba no momento certo, o que pode ocorrer em três situações. No primeiro caso, a cisterna está sem água e a boia não desliga a bomba, deixando a mesma rodando em vazio. Esta situação pode diminuir bastante a vida útil da bomba. No segundo caso, a caixa d’água está cheia e a boia não desativa o fluxo de água, o que pode provocar vazamentos que causam diversos danos às residências, como infiltrações nas paredes, por exemplo, e o desperdício de água.

Por fim, pode ocorrer o caso em que a caixa d’água está vazia e a boia não ativa a bomba, o que causa transtornos pela falta de disponibilidade de água. Outro grande problema é a ausência de monitoramento da qualidade da água, visto que é comum o usuário esquecer que deve limpar periodicamente a caixa, causando um grande perigo para o morador e a sua família.

Observe: Todos esses problemas podem ser resolvidos de forma bem simples, utilizando componentes de prateleira como Arduinos, relés e sensores simples. Basta minimizar os componentes eletromecânicos das boias e isolar totalmente a parte da alta tensão da água. No CESAR, temos duas abordagens em teste: sensores ultrassônicos para medir o nível de água e sensores resistivos para detectar o contato com líquido. Desta forma, esperamos conseguir monitorar o status da caixa d’água de forma mais confiável, assim como evitar o uso de componentes ligados à rede elétrica dispostos em flutuadores. Mas este é apenas um lado do problema. Utilizando o conceito de Internet das Coisas, podemos incorporar um sensor de turbidez simples (com emissores e receptores infravermelho) que vai avisar o morador, pelo seu celular, quando ele deve limpar a caixa d’água. Extrapolando ainda mais o problema e unindo Internet das Coisas com Big Data, podemos incorporar mais sensores de qualidade da água e criar um mapa da situação dos poços e lençóis freáticos de uma cidade inteira, para garantir monitoramento preciso.

Com este exemplo, mostramos apenas que soluções simples para problemas simples, quando unidas ao conceito de Internet das Coisas, podem resolver grandes problemas e gerar grandes oportunidades de negócio. Empresas famosas como a Nest Labs, que revolucionou o mercado de termostatos com Internet das Coisas e machine learning, surgiram de problemas muito simples.

Os inovadores atuais são a personificação do velho mantra Pense grande, comece pequeno e ande rápido, de forma que sairão na frente aqueles que antes de tentarem abraçar o mundo inteiro com uma nova tecnologia, olharem para dentro das nossas casas, das nossas empresas e das nossas cidades e desbravarem todos os pequenos problemas a serem solucionados. Mãos à obra!

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