Erika Campos
Apr 16 · 8 min read

Se você entrou no Google por estes dias, deve ter visto este logotipo na sua página inicial. A intenção da gigante de tecnologia é homenagear os 100 anos da Bauhaus. Você já deve ter ouvido falar desta escola de design alemã que dominou a arte europeia ao longo das décadas de 1920 e 1930, atraindo e inspirando artistas de todas as origens. [1] Mas o que nós, que nascemos depois desta época e bem longe da Europa, sabemos sobre este marco no Design? Como o movimento surgido na Bauhaus refletiu na história do design que conhecemos hoje?

Prédio da Bauhaus em Dessau, Alemanha | © Tillmann Franzen and VG Bild-Kunst, Bonn 2018

Incentivar a formação de comunidade através da arte: era esse, nem mais nem menos, o objetivo da Bauhaus. E não sem modéstia: a Bauhaus sonhava em servir ao “novo ser humano” com sua arte aplicada. [2]

Fundada em 1919 pelo arquiteto Walter Gropius, na cidade de Weimar, na Alemanha a escola juntava várias disciplinas que se complementavam. Artes até então consideradas “inferiores” como cerâmica, tecelagem e marcenaria interligavam-se à arquitetura, artesanato, escultura, pintura e desenho industrial. Por isto mesmo, a escola reuniu uma série de artistas de talentos distintos, das mais diferentes áreas.

A Bauhaus, encarnou o ideal e o projeto de unir engenheiros, arquitetos, pintores, artesãos, designers e artistas industriais, pesquisando e construindo protótipos a serem produzidos em escala industrial, atendendo, por um lado as necessidades da sociedade alemã, por outro o ideal comunitário de levar a arte moderna a todos os níveis sociais criando assim o artista-artesão. [3]

A função é fundamental

A Bauhaus revolucionou o design moderno ao buscar formas e linhas mais simples, definidas pela função do objeto [1]. A recomendação era que os objetos criados fossem desenhados tendo como meta serem produzidos rapidamente e com baixo custo.

"O bom design deveria ser, de novo, acessível na Alemanha, um país cuja economia encontrava-se dizimada após a Primeira Guerra Mundial" [2].

Muito do que vemos hoje, como o visual "clean" dos produtos da Apple e as cidades planejadas como Brasília, mostram influências do design da Bauhaus. Esta influência é evidenciada na obra de Oscar Niemayer, que sempre privilegiou as formas geométricas e a cor branca, características bem presentes no movimento.

Brasília — Distrito Federal | Crédito: Bruno Pinheiro (Setur DF)

Algumas características do movimento nascido na Bauhaus:

  • Artes e técnicas industriais integradas;
  • Uso de novos materiais pré-fabricados;
  • Simplificação dos volumes, geometrização das formas e predomínio de linhas retas;
  • Paredes lisas e, geralmente, brancas, abolindo a decoração;
  • Coberturas planas, transformadas em terraços;
  • Amplas janelas, em fita, ou fachadas de vidro;
  • Abolição de paredes internas (como nos lofts).

As diversas fases da Bauhaus

A História da Bauhaus passou por três importantes fases, cada uma marcada por diretores com diferentes ênfases e interesses:

A Primeira fase, com Gropius no comando, foi de 1919 até 1927. Após a primeira guerra, ele uniu a Escola de Artes Aplicadas à Academia de Belas-Artes da Saxônia, fundando então a Bauhaus. Sua proposta inovadora desafiava várias tradições e seu período à frente da escola ficou conhecido como “anárquico expressionista” [1]. Um dos seus principais legados, a fábrica Fagus (1911) em Alfeld an der Leine, na Alemanha, é hoje considerada patrimônio mundial da Unesco.

Fábrica Facus, patrimônio Mundial da Unesco | Crédito: fagus-werk.com/

Também foram construídas durante a direção de Gropius o famoso prédio da Bauhaus (1925) em Dessau, onde as pesquisas formais e tendências construtivistas se mostram presentes na economia na utilização do solo e construção; no uso de diferentes materiais como vidro, madeira, metais; no recurso da tecnologia, e na idéia de que a forma da arte nasce de um método, ou problema, definido previamente. Forma e função juntas. Pensamento que serviu de base para a criação do processo de design usado e ensinado, ainda hoje, nas faculdades ao redor do mundo.

Neste período peças diversas foram produzidas em larga escala, como as cadeiras e mesas de aço tubular criadas por Marcel Breuer (1902–1981) e Ludwig Mies van der Rohe (1886–1969) e produzidas pela Standard Möbel de Berlim e pela Thonet.

Cadeira Wassily — Marcel Breuer (1925) — Bauhaus

A segunda fase teve início no ano de 1928, quando Gropius deixou a direção da instituição, sendo substituído pelo arquiteto suíço Hannes Meyer. A nova direção trouxe uma ênfase mais social em relação ao design, que se traduziu na criação de um mobiliário de madeira — mais barato, simples e desmontável — e de grande variedade de papéis de parede.

Para Meyer, o processo de construção tinha que levar em conta as necessidades humanas — biológicas, intelectuais, espirituais e físicas. O funcionalismo e o conforto passaram então a ter um grande peso no resultados dos projetos fazendo com que o design industrial tivesse grande destaque.

Seus principais projetos foram Petersschule, em Basel, Suíça (1926), e a sede da Liga das Nações, em Genebra, Suíça (1926–1927), que nunca saíram do papel.

Menos é Mais (Mies van der Rohe)

A terceira e última fase começa quando, diante das pressões do nazismo sobre Meyer, em 1930 a escola passa a ser dirigida pelo arquiteto Mies van der Rohe. O novo diretor, antes fã do estilo neoclássico, passou a ter como foco a simplicidade da Bauhaus e cunhou a frase “menos é mais”. Apesar dos poucos anos como diretor da escola, Van der Rohe, famoso por usar muito vidro e aço em seus arranha-céus, é considerado um dos arquitetos mais importantes do século XX [2].

Entre os destaques da última diretoria da escola estão: Pavilhão alemão para a Exposição Internacional de Barcelona (1929), Promontory Apartments, em Chicago (1951), e Seagram Building, em Nova York (1956–1959).

Pavilhão alemão para a Exposição Internacional de Barcelona | Fotografia de Flickr User: gondolas

A Bauhaus foi oficialmente fechada em 1932 e, após uma tentativa frustrada de recomposição em Berlim, encerrou suas atividades, por determinação dos nazistas, em 1933. [4]

Impactos no Século XX

O corpo docente da Bauhaus foi composto por grandes nomes e causou profundo impacto na arte do século XX. Entre seus professores estavam Walter Gropius, Johannes Itten, Iyonel Feininger, Gehard Marcks, George Muche, Gertrud Grunow, Iothar Schreyer, Adolf Meyer, Oskar Schelemmer László, Moholy-Nagy, Paul Klee, Wassily Kandinsky, Joseph Albers, Marcel Breuer , Herbert Bayer, Hinnerk Scheper, Gunta Stölzl, Joost Schmidt, Hannes Meyer, Ludwig Hilberseimer, Alfred Arndt, Ludwig Mies Van Der Rhor, Lily Reich, Walter Peterhans, além de alunos que tiveram importante papel na estética do século XX, como Willi Baumeister, Fritz Winter e Max Bill, que na década de 50 fundou em Ulm, Alemanha, a Hochschule für Gestaltung (Escola Superior da Forma). [5]

Com o fim da escola, os professores migraram pra outros países, sendo decisivos na difusão das idéias da Bauhaus pelo mundo todo. Boa parte deles se dirigiu para os Estados Unidos — Gropius, Moholy-Nagy, Breuer, Bayer, Van der Rohe e outros . Em 1937/1938 surgiu então a Nova Bauhaus, em Chicago e o Architectes’s Collaborative — TAC, escritório de arquitetura criado por Gropius em 1945, período em que foi professor em Harvard.

A influência da Bauhaus pode hoje ser vista nas casas e prédios ao redor do mundo, em produtos assinados pelos seus artistas ainda hoje admirados, e até mesmo imitados por grandes lojas, muitas vezes sem a devida autorização =( . Quantos de nós já não desejamos ter algum deles em casa?

Cadeira vermelha e azul (1917), de Gerrit Rietveld

Gerrit Rietveld criou a célebre cadeira Vermelho e Azul no ano de 1917 e teve como inspiração a pintura de Mondrian.

Mesas de Breuer

Marcel Breuer, arquiteto e designer húngaro-americano, costumava trabalhar com aço tubular e com estruturas metálicas, não apenas em cadeiras como também em mesas.

Cadeira Barcelona (1929) — Ludwig Mies van der Rohe e Lily Reich.

A cadeira Barcelona foi criada para participar do Pavilhão Alemão da Feira Internacional de Barcelona no ano de 1929.

Abajur Wagenfeld-Leuchte (ou Bauhaus-Leuchte)

O Abajur Wagenfeld-Leuchte, luminária simples e geométrica, segue sendo um ícone da Bauhaus e é composta por uma cúpula de vidro e metal, representando a fase tecnológica da Escola.

A Bauhaus faz 100 anos mais atual que nunca. Estes e tantos outros ícones do design da escola viraram objetos de desejo de quem estuda ou simplesmente gosta de design, arte e arquitetura. Se você tem o seu preferido (ou desejado), fica a vontade pra complementar esta lista nos comentários. Até a próxima! =)

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Erika Campos é mestre em Design de Artefatos Digitais pelo CESARSchool e pós-graduada em Administração de Marketing pela UPE. Com formação em Design pela UFPE e Jornalismo na Unicap, atua como designer de interação senior no CESAR e como professora na graduação em design, no Mestrado em Design e nas pós-graduações da CESAR School. Tem experiência de mais de 15 anos com design de interface e interação para dispositivos móveis, trabalhando com clientes como Motorola, Samsung, Fiat, LG, HP, Unilever, entre outros.

Referências

CESAR Update

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Written by

UI & UX Designer at CESAR. Professor at CESAR School.

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