Filosofia para designers (2/3)

Afinal de contas, o que é design? Qual a diferença entre estética, arte e design? Há interdependências entre elas? São conceitos relativos ou subjetivos?

Almir Henrique Dantas
May 8 · 7 min read

Se você caiu neste post de paraquedas, saiba que ele começa em 'Filosofia para designers (1/3)'. Recomendo então, a leitura do primeiro artigo para poder compreender bem a viagem que estou fazendo pelos universos do design, da filosofia e da tecnologia. ;)


Continuando então nossa viagem, vamos falar um pouco de alguns conceitos como arte e estética, a evolução disto, bem como um pouco de história e, em seguida, relacionar o design com esses aspectos.

Para começar, é importante termos em mente as diferenças entre os conceitos de arte e estética.

Arte: palavra que tem origem no latim “ars” que significa literalmente “técnica”, “habilidade natural ou adquirida” ou “capacidade de fazer alguma coisa”.

Estética: palavra que tem origem no grego “aisthetiké”, que significa “aquele que nota, que percebe”.

Vale destacar aqui também o conceito da palavra criatividade, habilidade de quem cria algo. E "criar", que tem origem do latim "creare", significa inventar, engenhar.

Podemos dizer então que criar é um ato de epifania inerente ao ser humano, ou seja, criar dá a sensação de entendimento ou compreensão da essência de algo. Arte é qualquer obra que se tenha criado a partir de técnicas, sejam elas naturais ou aprendidas. Já estética está relacionada ao que se pode perceber, notar, chamar atenção.

Então a estética, conhecida como a filosofia da arte pode ser considerada relativa pois o que pode chamar atenção pra uns, pode não chamar tanta atenção assim para outros. Já a arte não é relativa, mas sim subjetiva. Se uma obra ou um artefato foi criado a partir de técnicas, então é uma arte, mas pode ser subjetivo porque seu significado pode ser interpretado de várias maneiras.

E o design, onde entra nesse meio?

Segundo FLUSSER (2007), ele dizia que a palavra design entrou no meio de uma separação da cultura, que os modernistas e burgueses fizeram entre o mundo das artes e o mundo da técnica das máquinas, dividindo assim, em dois ramos estranhos entre si: por um lado, o ramo científico, quantificável, “duro”, e por outro o ramo estético, qualificador, “brando”.

A palavra design então, entrou nessa brecha como uma espécie de ponte entre esses dois mundos, expressando a conexão interna entre técnica e arte e por isso design significa para ele, aproximadamente:

"aquele lugar em que arte e técnica (e, consequentemente, pensamentos, valorativo e científico) caminham juntas, com pesos equivalentes, tornando possível uma nova forma de CULTURA."


A palavra design é de origem latina e contém em si o termo “signum”, que significa o mesmo que a palavra alemã “Zeichen” (“signo”, “desenho”). E tanto Signum como Zeichen têm origem comum. Etimologicamente, a palavra design significa então algo como de-signar.

Em inglês, a palavra design funciona tanto como substantivo, como também como verbo. Como substantivo, significa, entre outras coisas, “propósito”, “plano”, “intenção”, “meta”, “esquema maligno” “conspiração”, “forma”, “estrutura básica, e todos esses e outros significados estão relacionados a “astúcia” e a “fraude”. Na situação do verbo — to design — significa, entre outras coisas, “tramar algo”, “simular”, “projetar”,”esquematizar”.

Pera, calma… design como “esquema maligno”? “Conspiração”? “Fraude”? “Tramar algo”? Como assim design como algo mau? É verdade esse "bilete"?

Pois bem, isso me lembrou uma bomba sobre um dos maiores filósofos da nossa história:

Você sabia que Platão era contra a arte? =O

Tá, calma, não é bem assim. Mas sim, "a objeção fundamental de Platão contra a arte e, por consequência, a técnica, reside no fato de que elas ‘traem’ e ‘desfiguram’ as formas (ideias) intuídas teoricamente quando as ‘encarnam’ na matéria. Para ele, artistas e técnicos são impostores e traidores das ideias, pois seduzem maliciosamente os homens a contemplar ideias deformadas."

A palavra design ocorre, então, em um contexto de astúcias e fraudes, onde “o designer é, portanto, um conspirador malicioso que se dedica a engendrar armadilhas.”

Não só o design, mas outros termos também entram nesse contexto, como por exemplo, as palavras “mecânica” e “máquina”. "Do grego, 'mechos', seria um mecanismo que tem por objeto enganar, uma armadilha, como por exemplo o cavalo de Troia. Uma 'máquina' é portanto um dispositivo de enganação, como por exemplo a alavanca, que engana a gravidade. Fazendo da 'mecânica' então, uma estratégia que disfarça os corpos pesados."

Outra palavra nesse contexto é “técnica”. "Em grego, 'techné' significa 'arte' e está relacionada com 'tekton' ('carpinteiro'). A ideia fundamental é a de que a madeira é um material amorfo que recebe do artista, o técnico, uma forma, ou melhor em que o artista provoca o aparecimento da forma."


Vamos então para uma das principais questões discutidas no design:

Design é forma ou função?

Esta frase do célebre Steve Jobs talvez seja uma das que mais representa o conceito do design contemporâneo.

Vamos fazer uma análise histórica da relação forma x função.

Para nos ajudar nesta análise, encontramos na nossa viagem o filósofo Sócrates (mestre de Platão, aquele que tinha controversas com artistas — nada pessoal.)…

Sócrates, então nos explica…

"Nada pode ser belo a não ser para o propósito para o qual é belo que seja usado, ou seja, aquele propósito para o qual é bem adaptado. Caso seja aplicada a outro propósito que não o seu, a coisa deixa de ser bela." — Polêmico, podemos discutir isso nos comentários, mas — entenda, para CARDOSO (2013), ele não dizia que alguma coisa é bela porque é adequada ao seu propósito, pois isso seria o mesmo que dizer que a boa forma é aquela sugerida pela função do objeto.

Note, portanto que “a ênfase da frase recai sobre o uso, e não sobre a forma. Isso é muito significativo, pois desloca a discussão dos objetos para as pessoas.”

Humm, interessante…

Continuando nossa viagem pra entender melhor a relação forma x função, viemos parar na Alemanha (berço dos estudos em design com a Bauhaus) para analisar o termo “Zweckmässigkeit”. — Eita que nome complicado não é? — Este é o termo em alemão para adequação dos objetos ao seu propósito. E esta era a meta dos profissionais já nas indústrias entre 1850 e 1930, alguns inclusive já apelidados de “designers” que dedicaram seus esforços à imensa tarefa de conformar a estrutura e aparência dos artefatos de modo que ficassem mais atraentes e eficientes.

Também foi no final da década de 1930, que a máxima do arquiteto americano Louis Sullivan se popularizou: “a forma segue a função”. E essa tornou-se a base estética de todo o princípio da famosa escola Bauhaus, escola alemã de maior influência no design moderno.


Portanto, como vimos, design é uma ponte entre arte e técnica, que algo estético é aquilo que pode ser notado, percebido, e que, como Sócrates dizia: “nada pode ser belo a não ser para o propósito para o qual é belo que seja usado”, então você concorda com Steve Jobs de que “Design é função, não forma”?

Bom, eu não acho que ele esteja errado, apenas meio certo. Cheguei a conclusão de que Design não somente é forma, pois isto seria apenas arte em termos de estética, como também não é só função, pois isto ignora a forma, e por consequência a arte, a técnica e a estética.

Design é portanto:

Forma + Função + Propósito.

Talvez Jobs até tenha colocado "função" como propósito. Mas ele assim, deu margem a erros, pois pode haver outras interpretações, como "função" em termos de funcionalidades, características e aspectos físicos de um artefato, o que sabemos que hoje em dia é comum na construção de um produto digital.

Em síntese então, design é uma CULTURA que, por meio de técnicas (e métodos) as pessoas planejam e projetam experiências, artefatos, produtos, serviços, processos e metodologias, levando em consideração os aspectos das suas formas, das suas funções e fundamentalmente do seu propósito.


Só para terminar… então, qual é a diferença entre arte e design, afinal de contas?

Tanto a arte como o design, tem por objetivo dar forma a algo que desperte e estimule o interesse da consciência de um ou mais espectadores, além de causar algum efeito, impactando quem observa.

Pois bem, a diferença entre arte e design está na preocupação da interpretação da "obra". O artista não está, necessariamente, preocupado se o espectador irá entender o que ele quis transmitir com sua obra, pois podem haver várias interpretações diferentes para ela, dependendo das diferentes perspectivas dos espectadores. Já o designer se preocupa, o tempo todo, se o seu público irá entender a mensagem por trás do seu design. Ou seja, a arte pode ser subjetiva, o design jamais.


Bem, imagino que você deve estar um pouco cansado(a) não é? Vamos dar uma pausa para recuperar o gás e continuar na parte 3 onde vamos ver um pouco mais sobre o papel do designer nessa responsabilidade de transmitir valores através de experiências ou artefatos.

Nessa nossa viagem passamos pelos mundos do design e da filosofia da arte. Agora, convido você para embarcar numa próxima aventura, com um destino ainda mais longe e mais interessante: um mundo codificado.

Então, como podemos decodificá-lo para entender? Vamos descobrir através dos valores, das culturas, do que é material e imaterial, coisas e não-coisas e muito mais…

A viagem é longa, mas pode ser empolgante. Vamos seguir em frente?

Are you ready?

Parte 3 >>

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Almir Henrique Dantas

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