h.d.mabuse
Nov 20, 2017 · 7 min read
Foto: linajerves

Antes de começar essa narrativa, peço paciência para quem a lê (provavelmente designer, e do meio de User Experience) para deixar clara a natureza desse texto: não se trata de um artigo jornalístico que pretende relatar metodicamente e de forma estruturada o que aconteceu durante o evento, creio que para isso os veículos de comunicação específicos e um apanhado cuidadoso das postagens nas redes sociais serão bem mais eficazes. O texto que segue representa uma reflexão limitada e subjetiva, baseada largamente em anotações feitas durante o evento (old school, em caderninho de pesquisa de campo) acompanhada de algumas fotos.

Se o adjetivo limitada está presente (sabendo que usualmente carrega uma conotação negativa) entra sobretudo por representar o recorte (por questões pessoais) da presença exclusivamente no dia 09/11. Por outro lado acredito que a subjetividade compensa positivamente essa balança, por trazer uma observação na “escala humana” desse que foi o maior ISA até hoje.

Isso posto, vamos às reflexões propriamente ditas.

Foto: interactionsouthamerica

Quando falo que foi o maior ISA até hoje quero reforçar a frase com alguns números: foram 1.500 inscritos, 5 palcos com palestras simultâneas (com uma tecnologia que funcionou muito bem, utilizando fones normalmente usados para tradução simultânea só que transmitindo cada palco, evitando assim caos sonoro e vazamento de som entre palestrantes), mais de 150 falas da comunidade, entre artigos acadêmicos e talks da indústria, além dos palestrantes principais e workshops.

Os palcos estavam divididos em ilhas temáticas: Humanas, Negócios, Comunicação e Tecnologia. Considerando que em um único dia aconteceram mais de 150 falas, um problema inicial já se impunha: como garantir a boa experiência da curadoria do que se deseja assistir? Num evento desse porte acredito que para o participante metódico só tinha duas possibilidades: ou você se associava à um palco e via o que acontecia nele, adotando assim a grade de apresentações do evento, ou no dia anterior consultava a programação e já chegava com a lista do que queria ver, programado com relação aos horários. Felizmente o aplicativo do evento, disponível já alguns dias antes da abertura do ISA, tinha bons recursos de divulgação, seleção e acompanhamento das palestras e, mesmo com os atrasos que atrapalharam a lista programada no App durante a manhã, foi ferramenta fundamental para o maratonista das palestras do dia 09.

A minha decisão de adotar o primeiro dia do evento mostrou-se bastante acertada, ao agrupar todas as apresentações vindas da comunidade (artigos científicos e casos da indústria) representou um retrato bem interessante da produção acadêmica e profissional da área.

Pontos que acho importante ressaltar:

Presença massiva da indústria

Se havia a impressão nas edições anteriores de uma predominância do público estudante no evento, dessa vez, somado aos estudantes presentes, você via muitas empresas de todos os portes: de pequenos grupos de startups, até muitos participantes exibindo as camisas das empresas que bancaram sua presença no evento. O que isso significa? Um sinal de maturidade do ISA, uma consolidação do IxDA como uma comunidade profissional reconhecida pelas empresas do setor.

Maior conteúdo da área de humanas

Comunicação analógica entre humanos — foto: @nelsonrpa

Num setor de mercado onde a tecnologia ocupa sempre o palco principal (mais sobre isso logo a frente), as reflexões fruto dos diálogos entre as áreas de humanas e as novas tecnologias tiverem uma presença marcante, seja a cultura pop presente nas análises quase arqueológicas de Luana Moura na fala “Como a ficção científica pode ajudar no design de novas interações e serviços”, ou a abordagem da psicologia de Odair Faléco em “UX e o Inconsciente”. O CESAR também estava presente nesse quesito com uma fala minha sobre “Como criar novas conexões” num cruzamento de filosofia e antropologia, mediados por uma abordagem pragmática.

Maior variedade de temas

Se em outras edições houve uma predominância de projetos ou pesquisas relacionadas aos sistemas computacionais e suas tecnologias e interações, nessa edição vimos uma maior variedade de temas: UX como estratégia direta para inovação, Interfaces conversacionais, modelos de negócios alternativos, Design de Serviço, engajamento das pessoas seja na escala do prédio, ou da cidade, design de testes complexos, visual analytics, robôs (seja em software com o robô escritor de Zeh Fernandes ou como companheiro robótico afetivo, como o MARS), além dos sempre presentes processos e experimentos em pesquisa, métodos de ideação e avaliações com usuários.

Maior preocupação com acessibilidade

Houve um aumento considerável das falas que traziam projetos, pesquisas e preocupações na inclusão de vários públicos atendidos pelas tecnologias assistivas, ressaltando “Desenvolvimento acessível com design inclusivo: uma parceria com foco social” apresentado pelo time de design do projeto CIn-Samsung UFPE.

Mas considerando que podemos ainda melhorar o que já está bom, segue uma pequena lista de pontos que ainda gostaria de ver nos próximos eventos:

Mais pessoas não-designers apresentando trabalhos

Uma simples observação fenomênica apontava para padrões que se repetiam bastante nas pessoas: barbas de lenhador, tatuagens, alargadores na orelha. Códigos que denunciam a origem da imensa maioria dos participantes, vindos das diversas áreas do design. Havia também a presença de programadores, mas acho que o próximo passo mesmo é atrair o público que represente nas suas empresas, a inserção do design, para além da área de P&D. Senti falta de CEOs, Gerentes de Projeto, Gerentes de Negócio. As razões dessa ausência são várias, podem ir de uma falta de visão nas empresas do valor de mandarem para esse evento pessoas que não estão no core do design mas podem trazer novas ideias para seu dia-a-dia, ou pode ser a dificuldade ainda da lógica do design fazer parte dos processos das empresas em todas suas áreas. Quando a cultura de design se dissemina legitimamente na instituição trás reflexões como as de Helga Jinzenji, Victor Ximenes e Andrea Queiroz na apresentação “A vida como ela é: conectando pessoas dentro do CESAR para solução de problemas cotidianos”, um resumo disso está no post de Willlian Grillo: “Designers palestrando no #isafloripa17 muitas empresas tem. Tenho orgulho de trabalhar na empresa que manda a Diretora Administrativa e a Especialista em Processos falar de design.”

Mais clientes reconhecendo a importância de tornar publico o conhecimento construído pelos seus projetos.

Uma das frases que mais ouvi dos vários palestrantes no ISA 2017 foi: “Voces entendem que não posso falar qual foi o cliente”. Esse é um problema que faz parte do dia-a-dia da nossa área de atuação, mas acredito fortemente que pode haver um caminho para dar um retorno para a sociedade do conhecimento construído, essa é inclusive a base do progresso científico. É importante deixar claro que não significa que os produtos finais, ou findings estratégicos par ao cliente serão abertos ao público, mas em vários momentos, aquela opcão por um processo na descoberta que levou ao caminho de sucesso do projeto, é possivelmente valiosa para a sociedade, e pode trazer um capital de reconhecimento da marca que é valioso. É um trabalho de formiguinha, que passa por construir um diálogo com o cliente. Quem expôs bem essa abordagem foi Willian Grillo: na apresentação “Do desafio ao RAT em 16 semanas: Concebendo e validando 3 canais de comunicação com Business Design” já estava confirmada a presença do Alexandre Ferraz, Diretor Comercial e de Marketing da Coferly, ele mesmo abraçou a ideia e só não compareceu porque às vésperas do evento, nasceu o seu filho. :)

Maior foco em Design que atenda necessidades sociais

Foi muito bom ver temas como “Maria, Maria: engajando mulheres na denúncia de assédio sexual no transporte público no Brasil” de Mariana Ozaki, tratando de uma forma pragmática de temas delicados de impacto social, mas é importante a publicação de mais pesquisas e projetos, que tem sido tema de vários Hackathons, seja em políticas públicas, cidades ou engajamento social.

Seleção ativa para aumentar a diversidade

Daí faço a conexão com o último tópico: da mesma forma que falamos constantemente em equipes multidisciplinares em nossos projetos, acredito que precisamos pensar em formas mais ativas para aumentar a diversidade de pesquisas e projetos que representem um conjunto de minorias da sociedade, entre os participantes. Por seguir uma linha muitas vezes técnicas, temos uma certa predominância dos mesmos perfis humanos.Acho que chegou a hora de ouvir falas da pesquisa e produção indígena, afro, trans e de pessoas com deficiência (para citar alguns exemplos).

CESAR Update

Fique por dentro da percepção de colaboradores do CESAR ao participarem de eventos e iniciativas do mercado relacionados a design, educação, inovação e tecnologia.

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