Igualdade, colaboração e de preferência em sinergia com o trabalho

Rodrigo Perazzo
Jan 24 · 7 min read
#PraCegoVer Quatro pessoas sentadas numa sala sem se ver usando óculos de realidade virtual durante uma tour em um museu. Foto por Lucrezia Carnelos em Unsplash.

Quando escrevi ano passado sobre comunidades (com foco nas de software), argumentando sobre como atualmente nossos acordos inter-pessoais são “artificiais” e que não são capazes de nos oferecer o que tanto buscamos para nossas vidas pessoais e profissionais, um amigo fez o seguinte comentário: “Temos que atualizar essa definição aí!”.

Na hora fiquei intrigado, mas não dei muita atenção àquele pensamento. Foi só meses depois, em novembro, após uma palestra de silvio meira no Dia CESAR (nossa confraternização anual), que voltei a pensar no assunto com outra ótica.

#PraCegoVer Da esquerda para direita, estão Silvio Meira em pé palestrando e um intérprete de Libras, acima slides sendo apresentados em várias telas numa estrutura de cubo.

Uma das linhas da conversa, como boa parte dos tópicos abordados por ele, foi sobre o futuro. Do que foi dito na palestra, gostaria de citar uma frase, não porque parece paradoxal e ao mesmo tempo trivial as vezes, mas porque nos devolve de certa forma o poder sobre o que acontece aqui e agora:

“O menor caminho até o futuro é indo lá buscar ele.”

As tecnologias, os produtos, os negócios e todos os futuros possíveis estão lá esperando que decidamos, em conjunto, quais tornar realidade. Robôs, IA, comandos de voz e reconhecimento facial já estão parcialmente no presente porque um bocado de gente investiu tempo e dinheiro para buscá-los. Não acredita? Dá uma olhada nesse e nos outros posts do Tiago Barros, Engenheiro Chefe de Internet das Coisas (IoT) lá no CESAR, sobre o que rolou na Consumer Electronics Show 2019 — CES, maior feira de eletrônicos do mundo.

Só que é comum pensarmos no futuro limitado aos filmes de ficção cientifica ou às tecnologias que “magicamente” resolverão nossos problemas. Por que não pensamos nas relações do futuro? Não há dúvida que software afeta e afetará nossas relações, a começar pela política [1]. Se assim é, é salutar discutir os tipos de relações — e as comunidades que se formarão através delas — que queremos amanhã.

O que queremos das comunidades do futuro?

Mais especificamente, o que será que queremos das comunidades de prática (ex: grupos de estudos, meetups) que surgem na nossa empresa, cidade, profissão e/ou mercado?

.Igualdade de condições: através de um ambiente não hierárquico, inclusivo e acessível

Diferente da descrição no livro do Zygmunt Bauman [2] que diz que buscamos um “círculo aconchegante” (quase que descrevendo um colo de mãe), digo que precisamos é de igualdade de condições: para expor idéias, para participar das atividades e discussões em torno delas, para usá-las.

No seu artigo de introdução à comunidades de prática [3], Wenger-Trayner citam que “as mesmas características que tornam as comunidades de prática adequadas para administrar o conhecimento […] também são características que as tornam um desafio para as organizações hierárquicas tradicionais”. É preciso um ambiente não hierárquico para nos sentirmos confortáveis para expor o que pensamos.

Eventos como o TDC que possuem o compromisso com a diversidade, oferecendo espaços e programas dedicados à promovê-la, estão alinhados com esse próposito. Mas temos muito o que melhorar, a começar ter que explicar essas necessidades, pois é um indicativo de que nossos hábitos coletivos ainda não as incluem por padrão. Abaixo um relato (da Ana Cuentro) sobre como é ter deficiência auditiva e querer participar de palestras e workshops:

.Troca de experiências, inclusive entre áreas

Estamos passando por uma mudança de era, onde tudo é complexo e gente por aí afora sofre de ansiedade com o tanto de coisa acontecendo ao mesmo tempo (conhecida como FoMO“Fear of missing out” — e também afeta o trabalho [4]). Se não dá para entender tudo sozinhos, o jeito é compartilhar o que sabemos e aprender com o que outros sabem. Pois quanto mais complexos os problemas, mais criativos precisamos ser.

Criatividade foi citada pelo LinkedIn [5] como a habilidade (ou soft skill) mais demandada para 2019. Gosto da substituição que o Murilo Gun faz da palavra Criatividade por Combinatividade, ou seja, para sermos criativos precisamos combinar mais idéias, aumentar nossos repertórios de inputs para gerar “novas” soluções que façam sentido no nosso contexto, muitas vezes super específico.

Tudo isso combina também com quem diz que estamos na “Era da Colaboração” [6] ou da “Inteligência Coletiva” [7]. Certamente não à toa, o evento feito pelos designers do CESAR para estimular o diálogo entre diferentes áreas e discutir idéias transformadoras se chama Colabora.

.Aprendizado no fluxo do trabalho

Só que ir à eventos para ver palestras, e não guiá-las, me lembra muito sala de aula do século 20. Horas sentado, pausa para coffee-break, mais horas sentado e poucos minutos e oportunidades de discussão, nem de perto profundas. Além disso, parte dos conteúdos não estarão conectados com os problemas de agora e pode até ser que deem novos inputs, mas sua empresa ou você pagariam caro para passar o dia inteiro num evento de uma outra área? (Seria o OpenSpace uma alternativa? [8])

Precisamos de conhecimento granularizado, específico e on-demand para sermos produtivos. No entretenimento, esse futuro já chegou. Minha filha nem 2 anos fez e já percebeu que para assistir desenhos prefere o celular à TV, pois é onde ela consegue “escolher” o próximo. Mas diferente de lá, no trabalho a idéia é passar menos tempo consumindo conteúdo e não mais:

“É claro que as pessoas querem a oportunidade de navegar e encontrar o conteúdo de que gostam […] Mas […] não temos tempo para navegar durante todo o dia), e as aplicações de aprendizado mais urgentes e consequentes são dicas, recomendações, sugestões e ferramentas que nos ajudem a melhorar em nossos trabalhos.” — Josh Bersin [9]

Esse aprendizado é também mencionado como Performance-Adjacent Learning e, de acordo com a diretora de conteúdo da O’Reilly [10], as chaves para ferramentas desse tipo serem bem sucedidas são: acesso sem atrito; pesquisa eficiente; variadade de conteúdo que permita o usuário encontrar uma resposta rápida — facilmente resolver um problema ou criar uma ideia — e, em seguida, retornar imediatamente ao fluxo de trabalho. Se muitas das comunidades de prática se concentram no trabalho, qual seria o paralelo dessas características nelas?

Case CESAR

O trabalho aqui no CESAR é específico, variado, dinâmico, complexo e, muitas vezes, confidencial. Podemos nos envolver desde a concepção até a construção de soluções na cadeia de inovação com Tecnologias da Informação e Comunicação (TICs), como mostra a figura abaixo, e não necessariamente em todas as fases com todos clientes.

#PraCegoVer Diagrama da cadeia de inovação com TICs dividido em 2 fases: concepção e construção. Da esquerda para direita 4 blocos: Estudos e Pesquisas, Prototipação e Validação, Desenvolvimento e Comercialização. Os 3 primeiros com envolvimento do CESAR e o último apenas do cliente.

Hoje somos ~500 colaboradores distribuídos em 4 cidades do Brasil e, aqui na sede em Recife, em 3 prédios (incluindo o da CESAR School). Não sei se você consegue imaginar, ou se acontece na sua empresa, mas é um desafio fazer o conhecimento fluir entre as pessoas e projetos. Escutei várias vezes, de entrevistadores, que precisamos buscar contratar quem sabe aprender, mas provavelmente devêssemos incluir na lista de competências registrar e compartilhar conhecimento.

Dessa necessidade, comunidades de práticas se formam a todo momento, principalmente via canais no Slack, como: #arquitetura, #cloud-computing e tantos outros que nem dá pra listar. As duas mais bem estabelecidas talvez sejam a dos designers, como comentado, e a de testes [11] que desde 2014 cria momentos de colaboração, participa de eventos e até identidade visual fizeram! (#inveja 😄)

#PraCegoVer A imagem mostra 6 personagens que representam pessoas preocupadas com a qualidade de software. Cada um deles tem uma personalidade e habilidates específicas, como ser antenado em achar defeitos ou um grande entusiasta de testes automáticos. Os personagens têm a forma de animais humanizados.

Final do ano passado, numa discussão sobre como compartilhar ainda mais conhecimento e diminuir barreiras (hierárquicas, geográficas, de formatos e entre áreas) chegamos ao seguinte mote:

“Qual foi o abacaxi que você descascou recentemente?”

O “abacaxi” pode ter sido técnico, comportamental, do time, do cliente, nem ter sido “descascado” ainda ou tudo isso junto. Daí surgiu o #pineapple. Se você é do CESAR vai lá no canal do Slack, conta tua história, vamos juntos fazer com que ela chegue à quem precisa, no fluxo do trabalho, nosso e dela.

Referências

CESAR Update

Fique por dentro da percepção de colaboradores do CESAR ao participarem de eventos e iniciativas do mercado relacionados a design, educação, inovação e tecnologia.

Rodrigo Perazzo

Written by

Dad & Husband. SW / Android / Arduino / IoT Engineer @inovacao_cesar. In pursuit of good habits for life.

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