Ser ou não ser, UX da questão

Já faz algum tempo que me inquieta o momento de passagem de conhecimento entre a pesquisa e a ideação. Neste momento precisamos envolver pessoas que não foram a campo e estimular a cocriação mantendo relação com o contexto investigado.

No ISA17, realizado em Florianópolis, apresentei um artigo sobre um projeto de criação de canais de comunicação utilizando o Design de Serviço. Durante a apresentação, contei sobre como conseguimos organizar e transmitir as informações de forma efetiva e objetiva para os colaboradores de uma empresa do ramo de Cosméticos entre as etapas de pesquisa e ideação. Lá resolvemos a questão com o que chamamos de “Quadro CSI”, uma dinâmica que trocava o tradicional PPT por uma construção conjunta de conteúdo com os participantes do workshop de ideação. Todos os participantes construíram as conexões entre os “suspeitos” desvendando as “pistas” que levavam às relações lógicas entre as informações obtidas durante as pesquisas. O resultado foi muito bom, a conexão entre ideias e achados de pesquisa foi notável, tudo que era pensado tinha conexão com o contexto e insights apresentados.

Com o sucesso dessa atividade, comecei a pensar em outras técnicas que pudessem ser aplicadas, especialmente em workshops de ideação e cocriação, para potencializar esse momento tão delicado de passagem de conhecimento.

Desde então, uma das técnicas que venho “namorando” é a utilização de dramatização ou encenação como uma forma de fixação dos achados das pesquisas. Inicialmente pensei em utilizar esse recurso para os facilitadores apresentarem os resultados aos participantes. Porém, descartei rapidamente pelo simples fato de que o que mais me atrai na dinâmica não é o efeito que a encenação causa nos espectadores, mas sim o que ela gera em quem atua. Uma breve pesquisa sobre o tema me instigou ainda mais ao descobrir como é rico o processo criativo na atuação, com atenção especial para a etapa de preparação de elenco. Me instigou muito o "Barracão" técnica de imersão criada pelo diretor Luiz Fernando Carvalho, um processo de geração de profunda empatia entre ator e personagem. Ali vi que poderia aproveitar algo disso no contexto de design. Para quem tiver maior interesse sobre o processo criativo e de preparação de elenco, recomento fortemente a seguinte leitura:

COLLAÇO, Fernando Martins. Luiz Fernando Carvalho e o processo criativo na televisão: a minissérie Capitu e o estilo do diretor.
http://repositorio.unicamp.br/handle/REPOSIP/284547

Preparação de atores na Rede Globo (Foto: Leandro Pagliaro)
A matéria-prima neste treinamento é a sensibilidade individual e coletiva, que é equilibrada para que a mesma coragem criativa permita a transformação do ator em co-criador. Assim ele pode, de fato, viver — e não apenas interpretar — as emoções e memórias dos personagens. (https://gshow.globo.com)

Depois de ler mais sobre o assunto, o próximo passo era esperar a melhor oportunidade para colocar em prática as ideias que estavam fervilhando na cabeça, mas eu sabia que não seria fácil, pois não é todo dia que encontramos clientes engajados e dispostos a experimentar algo diferente dentro do processo de design. Esperei o momento de propor isso para algum cliente, já prevendo a resistência, seja por inibição, falta de crédito na técnica e outras desculpas…Depois de muito aguardar a situação ideal, tive a felicidade de colocar em prática num ambiente propício para semear e cultivar novas ideias: o CESAR Summer Job. O Summer Job é um programa de desenvolvimento de alunos universitários que têm oportunidade de vivenciar experiências profissionais reais antes de entrar ao mercado de trabalho.

Durante o desafio de uma das turmas do programa, da qual fui o mentor de design, rolou uma sessão de ideação e discretamente aproveitei o momento para propor um laboratório. Sugeri a dramatização como uma, dentre as várias técnicas existentes, para a transição entre o momento de inspiração e a etapa de ideação do workshop de cocriação. Para a minha máxima surpresa, o desafio foi aceito.

Challenge accepted!

Ana, Débora, Guilherme e Heloísa, os alunos do Summer Job, resolveram pedir para que os participantes do workshop fizessem uma encenação para contar a história do problema pelos seus pontos de vista. A dinâmica funcionou, e muito bem, mas não sem antes passar por momentos de tensão. Quando a atividade foi anunciada o pânico se instalou na sala, teve gente que lembrou que tinha esquecido de uma importante reunião, teve os que perguntaram se o resultado da encenação seria importante para o resto da dinâmica, teve de tudo um pouco, mas a Ana Karine, que estava conduzindo se manteve firme na sugestão e, aos poucos, os participantes foram aceitando o desafio de sair de suas zonas de conforto.

A proposta foi bem simples. Partindo de um problema que envolvia ‘medição de pressão’ foram apresentadas algumas personas e suas jornadas e, a partir disso, divididos em trios, os participantes teriam 5 minutos para rabiscar uma historinha que incluísse algumas dessas personas e, após isso, deveriam encarnar os papeis e dramatizar as encenações aos demais participantes. Ao final das “performances” todos os presentes perceberam o valor que a encenação trouxe como resultado para a ideação. Os pontos positivos dessa iniciativa foram evidentes:

  • Antes de tudo proporcionou rápido entrosamento e colaboração dentro dos grupos. A simples tarefa de escolha do personagem a ser representado gerou uma troca de percepções que fez todos se entenderem muito melhor;
  • Ajudou a fixar os achados da pesquisa que tinham sido apresentados pelo grupo no início do workshop. Esse aprendizado foi potencializado nos dois grandes momentos do processo de encenação: primeiro com o envolvimento na preparação do storyboard o grupo discutiu os pontos de cada persona, procurou exemplos, e encaixou tudo dentro de um contexto que fazia sentido; e durante a encenação desse roteiro cada participante vestiu a pele de uma persona, gerando empatia com aquela representação de usuário, ajudando a entender seus problemas e motivações.
  • Por fim e também importante a dramatização funcionou como um estopim para a próxima etapa do workshop que foi o brainstorm e geração de alternativas para solução do problema proposto.

Continuo procurando (e aceitando sugestões) de métodos utilizados em outras áreas para enriquecer o processo de design, mas saio com o sentimento de que dramatização proporcionou uma transição muito mais suave e efetiva entre a inspiração e a transpiração. Da pesquisa para a ideação sem escalas!

Agradecimento mais do que especial aos astros convidados: Alessandro, Carlos, Fabrício, Lucila, Regiane e Vítor!

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