UX Research + Storytelling: transformando dados de pesquisa em histórias.

Giselle Rossi Araujo
Apr 15 · 6 min read

Eis que você vai a campo e faz aquela pesquisa, coletando achados que vão muito além do que imaginava encontrar. Entrevista e observa diferentes atores, em diferentes contextos do seu tema de estudo. Vai e volta pra literatura, conversa com Especialistas e até Usuários Extremos, e em pouco tempo de imersão tem uma imensidão de dados para analisar, interpretar, organizar, compilar e, principalmente, apresentar. Se você é um pesquisador de Design de Experiência e teve a sorte e a felicidade de conduzir uma boa pesquisa com pessoas (usuários, se preferir), sabe do que estou falando. Se ainda não teve essa sorte, mas seus olhinhos brilham quando ouve falar em UX Research, esta reflexão também serve para você.

Existem várias técnicas valiosas que podem ser utilizadas para compilação e apresentação de pesquisa com usuários, que vão muito além de um bom relatório. Na verdade, construção de Personas e Jornadas de Usuário, por si só, independente de estarem dentro de um relatório, já são excelentes exemplos (sabia, né?!). E foi justamente ao construir as personas que representavam os principais grupos de usuários de uma pesquisa desenvolvida por mim, Giulia Zanella, Tayla Gurgel e Jessica Kianne, que percebemos que aqueles formatos já bem conhecidos não eram suficientes para demonstrar a riqueza de detalhes dos nossos achados. Jornada do usuário? Massa, importante, adoro, mas… Ainda faltava algo que reforçasse o compromisso de se fazer Design Centrado em Pessoas. Mesmo um relatório, com uma boa narrativa que apresentasse o processo, a metodologia e os principais achados, parecia insuficiente. Foi quando percebemos que todos esses formatos não ofereciam o que de mais relevante uma pesquisa em profundidade poderia oferecer: a real empatia pelo público estudado.

Resumo sobre a nossa persona para o projeto de robótica afetiva para melhor idade.

Então nos perguntamos: Como conectar o público consumidor de um relatório de achados de pesquisa, ao público estudado? Como permitir que o público consumidor dos dados de uma pesquisa vivencie a empatia praticada na pesquisa?

Foi quando pensamos em testar um storytelling. Não estou falando dos Design Scenarios difundidos por Allan Cooper, mas de um documento único, denso, de 5 minutos de leitura, 100% baseado em dados de pesquisa qualitativa, que traz elementos referentes a Teoria Ator Rede, bem como conceitos de personas primárias, secundárias e usuário extremo.

“Research findings are essentially a story you tell about your users, their lives, and how your product or service may fit in.” — Observing the User Experience — A Practioner’s Guide to User Research

Em resumo, o passo a passo da nossa fase de Entendimento até chegar a elaboração do Storytelling foi:

Por fim, a escolha do Storytelling como conclusão desta fase do projeto nos trouxe os seguintes benefícios:

VISÃO ÚNICA: ao longo desta etapa, obviamente nós quatro precisamos nos dividir em duplas em algumas tarefas e na coleta de dados. Na etapa de compilação começamos a alinhar nosso conhecimento, mas foi através da elaboração do Storytelling que toda a costura foi feita, materializando o consenso dos nossos estudos e conclusões;

REAL EMPATIA: durante a elaboração do documento, conseguimos imergir ainda mais no processo de empatia através das discussões, análise e seleção dos dados coletados;

EMPATIA PARA ALÉM DOS PESQUISADORES: foi como transportar stakeholders (os consumidores da nossa pesquisa) para campo e, da mesma forma, os usuários e seus contexto para dentro do projeto, fazendo com que nossa experiência trouxesse uma mudança de eixo. Ao invés de apresentar as conclusões da etapa de entendimento de forma linear, do ponto de vista do processo, iniciamos a apresentação com a narrativa do ponto de vista da persona, e a partir daí fizemos as conexões com os achados de pesquisa.

Ou seja, para quem gosta de apresentar resultados de pesquisa em workshops que irão culminar em rodadas de tomada de decisão e/ou ideação e co-criação, iniciar o encontro com a leitura de um Storytelling pode ser um impactante warm-up. Você pode ainda contar com o suporte visual simples e manual de passagem de slides de fotos, sincronizados com a leitura.
Claro que, se você tiver tempo e recurso, pode transformar isso num vídeo lindo de fazer chorar.

Concluímos que isso permite transportar rapidamente todos os participantes para o contexto estudado, reforçando a importância do foco no usuário.


Enfim, para quem se interessou pelo case para além do processo, convido a conhecer parte do nosso Storytelling. Clique nos meus highlights e comentários, onde destaco alguns dos elementos citados. Nossa pesquisa foi sobre necessidades e motivações de idosos e seus cuidadores/responsáveis, para estudo de robótica afetiva.

Conheçam o simpático Sr. Antônio! O vovô mais fofinho da região!
Pelo menos era como costumava ser chamado quando ainda passeava pelo bairro com sua rainha e frequentava o famoso encontro diário de idosos da praia de Boa Viagem, o CRI (Clube de Rapazes Inocentes). Mas não vai mais. Falta força na perna. Mora com a filha, o genro e três netos. Aos 92 anos, já viúvo, depois de sofrer um transplante de rins, teve que se juntar a eles. Não teve escolha.

Anda com dificuldade e desânimo. Requer cuidados específicos que têm aumentado ano a ano. Remédios, terapia ocupacional, restrição alimentar, cuidador quando a família não está em casa, atenção e paciência.

Solidão? As vezes até quando a casa está cheia. Todos andam tão ocupados… Mas Ana faz o que pode. Faz muito! Faz com amor e dedicação. Mas não é o bastante. A carga é pesada, o desconhecimento aumenta e a depressão reina. Pra ele e pra ela, que faz parte dos 80% de responsáveis por idosos que sofrem da doença.

“Não gosto de incomodar. Antes, quando estava em minha casa, nossa convivência era ótima. A rotina diminui a paciência, né? Preferia estar na minha casa.”, confessa Sr. Antônio.

O melhor momento do dia? Quando assiste a uma partida de futebol pela televisão com o neto adolescente. Melhor ainda é a resenha final. Torce pra não acabar, só pra não perder a companhia e a prosa. E as vezes lembra do sonho de voltar a ver seu time em campo. Mas logo desiste. Principalmente quando percebe que foge o nome de um ou outro jogador. Então disfarça com o silêncio. Ninguém precisa saber.

Assim como ninguém sabe que, se o gênio da lâmpada mágica lhe concebesse um desejo, Sr. Antônio pediria … os seus pais de volta — os únicos capazes de dar amor e cuidado incondicional.


“Choose activities for your project based on their ability to take you closer to an objective, not because you want to make a particular kind of output.” — Dan Brown, Communicating Web Design.

Você já tentou algo do tipo? Conta pra gente!

Nosso colega Willian Grillo, que está sempre em busca de métodos que enriqueçam o processo de Design, já aplicou Dramatização em workshops de ideação e cocriação, também com o intuito de potencializar a passagem de conhecimento entre as etapas de Entendimento e Ideação. Leia aqui.

Agradecimento especial aos colegas revisores: Gabriela Boeira e Willian Grillo


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Giselle Rossi Araujo

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Designer de Experiências. Vim de BH, fui pra Sampa, estou em Recife, projeto para o mundo.

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