Um entardecer no Parque dos Atletas — Rio 2016

Minha experiência como voluntária na Rio 2016

“O exemplo arrasta.”

Ouvi esta frase no meu último dia como voluntária nas Olimpíadas. Era a reunião diária da gerência do Parque dos Atletas, onde fiquei alocada. Quem disse a frase foi a moça que foi minha gerente durante as 3 semanas que dediquei meu tempo e minha energia à ajudar na organização da Rio 2016. Ela disse essa frase durante uma conversa sobre como lidar com o trabalho voluntário, uma relação de trabalho diferente da tradicional a que estamos acostumados.

O Parque dos Atletas foi uma instalação temporária construída para o treinamento dos atletas olímpicos e paralímpicos. O Parque contava com estrutura de padrão olímpico para ginastas, judocas, jogadores de handebol e basquete, lutadores e nadadores. Sim, nadadores, o Parque conta com duas piscinas olímpicas aquecidas. Tudo era excelente, mas as piscinas eram impressionantes. Era comum ouvir um “Uau!” de quem entrava lá pela primeira vez. E sim, o Michael Phelps passou um dia por lá.

O grande público mal sabe da existência deste parque. E eu não podia ter ficado em lugar melhor.

As arenas de competição são um palco para a carreira do atleta. É lá o “momento final” das Olimpíadas e Paralimpíadas. Mas o caminho para chegar até ali passa longe dos holofotes. E, na minha opinião, é muito mais interessante e rico de histórias.

Um dos benefícios de ser voluntária lá no Parque dos Atletas era poder se revezar com os colegas e fugir por alguns momentos do trabalho para espiar algum treino. Os meus favoritos eram os de ginástica.

Eu assisti enquanto um ginasta treinava na barra fixa. Ele girava, girava, soltava da barra, dava um mortal e, para completar o movimento, precisava retomar a barra. Ele repetiu o movimento umas 5 vezes até acertar. Nas primeiras vezes ele caiu.

Eu assisti uma ginasta, refazer todos os movimentos básicos em cima da trave, por diversas vezes. Ela, que provavelmente já domina o aparelho, passou um bom tempo simplesmente repetindo o básico.

Assisti um ginasta russo repetindo o salto sobre o cavalo diversas vezes enquanto o técnico filmava e repassava tudo com ele depois, provavelmente pela milésima vez.

Como público, a gente sabe o quanto estes atletas treinam. Mas temos esta impressão de que chegam às olimpíadas já perfeitos, construídos, terminados. Mas o atleta que fez um movimento perfeito na competição, pode ter caído fazendo o mesmo movimento durante o treino, nos dias anteriores. É uma caminhada constante e a linha de chegada está sempre um pouco além de onde você está.

Estar no Parque dos Atletas me fez sentir parte (pequena) desta caminhada. Eu sorria, cumprimentava, dava informações e instruções sempre pensando que aquele ali era o trabalho daqueles atletas. E todo dia eles chegavam para mais um dia de trabalho. As vezes sorrindo, as vezes mau humorados, as vezes cantando (sério, um time de handball de um país que não vou me lembrar chegava sempre com música tocando na caixinha wireless :). E todos os dias ficava claro a importância destes dias de trabalho sem o aplauso do público, sem a atenção da mídia, sem premiações.

È este o exemplo que me arrasta. O trabalho diário, contínuo na direção de um objetivo. A repetição, determinação, as quedas e os saltos. Nem todos os dias são bons, mas todos são necessários.

Medalhas são legais — muito legais até. Mas elas são apenas um marco, um momento para olhar para trás e perceber o longo caminho que se percorreu. Depois, respirar e olhar para frente, para continuar seguindo. É na jornada onde está o verdadeiro valor. Por isso eu acho que mesmo se o atleta cair durante a competição, ele merece aplausos. Se ele caiu, é por que tentou voar. E, com ou sem aplausos, ele vai levantar para tentar de novo. Para mim, isso faz parte do espírito esportivo.

Ser voluntária das Olimpíadas do Rio, a primeira realizada na América Latina, foi uma experiência única. Também foi cansativa e, por vezes, chata. Mas foi energizante e empolgante. E faz parte da minha jornada em ser parte do mundo em que eu acredito. Eu sempre fui fascinada com as Olimpíadas. A cada 4 anos ela vem para nos lembrar o que nos faz humanos: a nossa capacidade de seguir em frente, de ser hoje, melhor que fomos ontem, a nossa capacidade de superar limites, sejam eles quais forem.

E todo mundo se pega contagiado pelo espírito olímpico. E desta vez, a festa foi pertinho. Foi no Rio, a cidade onde nasci e vivi por tanto tempo. Foi linda, foi divertida, foi emocionante. Mas como toda festa, uma hora acaba. E ficam aqueles dias, um atrás do outro, sem aplausos, sem luzes, sem glamour.

Foram em dias assim que muitos atletas chegaram lá no Parque dos Atletas para mais um dia de trabalho. Foi num dia assim, que eu cheguei para o meu trabalho voluntário. Foram em dias assim que meus colegas voluntários chegavam para trabalhar, vindos de bairros distantes e até de outros estados. Foram por vários dias assim que muitos trabalharam para que os jogos acontecessem. E foi num dia assim, que esta Olimpíada nasceu.

Depois de dar adeus às Olímpiadas e Paralimpíadas é a hora de olhar pra frente e pensar como vamos usar os dias sem festas dos próximos quatro anos. Por que é o que fazemos nestes dias que faz diferença. E como disse muito bem a minha gerente: “o exemplo arrasta.”

Dani Lima trabalha como designer de marcas freelancer e é colaboradora da Abacomm Mobile. 
E pretende contar aos netos como foi fazer parte de uma Olimpíada.

Para conhecer o lado designer visite www.danilima.com.br.

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