Bom gosto ou mau gosto? Sempre haverão controvérsias… — foto: www.pexels.com

O Mito do bom gosto

Eu trabalho com design há 17 anos. Passei por diversas áreas e hoje me dedico ao design de marcas. E, em todo este tempo, eu ouvi diversas vezes: “Você tem bom gosto!”. Sei que as pessoas que me disseram isso tinham a intenção de me elogiar mas eu sinto dizer: eu detesto ouvir isso. Não se preocupem, não guardo nenhum rancor mas decidi que era hora de falar do “mito do bom gosto”.

Acredita-se, de forma popular, que para ser um criador — em qualquer área — é necessário “bom gosto”. Mas, no meu entender, esse “bom gosto” é um mito. O que é considerado bom gosto hoje, pode virar mau gosto amanhã. Sem falar que o bom gosto para mim pode ser clássico e tradicional e para você pode ser moderno e minimalista. Ou seja, “bom gosto” é pessoal e, por isso mesmo, intransferível. Então, como criar algo relevante para um público amplo tendo como parâmetro o “bom gosto”, se ele é tão variável e pessoal?

No entanto, como toda crença popular, este mito também tem seu fundo de verdade. O “bom gosto”, que tantas vezes me atribuíram, vem do conhecimento e estudo de tendências estéticas e da sua aplicação de forma coerente a cada caso, a cada empresa e cliente. Ou seja, nada mais do que o conhecimento da minha área de atuação.

Mas se não vamos mais falar em bom gosto, o que define um bom design? Ou, mais especificamente — já que esta é minha área — o que define um bom logotipo?

A primeira coisa a se entender, é que design é um processo, uma forma de projetar coisas. E esse processo costuma ser regido por um conjunto de regras simples. Designers de diferentes áreas, trabalhando com diferentes suportes, todos tem sua versão destas regras. Elas não são absolutas e diferentes designers podem ter diferentes visões, podendo acrescentar ou excluir alguns princípios do conjunto. A lista abaixo é a minha visão e o conjunto de regras que eu considero na hora de criar uma marca para meus clientes.

Um logotipo deve ser memorável

Uma imagem memorável é aquela que conseguimos desenhar de memória. E nos lembramos mais facilmente de algo que é sintético, simples. É muito mais fácil lembrar do símbolo da Nike — um resumo iconográfico da ação, do “just do it” — (lembrou?) do que do escudo da seleção brasileira (você pode até ter se lembrado, mas lembrou de todos os detalhes certinhos? Não vale olhar no google!).

Muitas pessoas associam a simplicidade à algo fácil, rápido de fazer. Mas na verdade, complicar é muito mais fácil que simplificar. O simples é o que sobra depois que toda a informação que não é relevante foi retirada. E como decidir o que é o mais relevante? Como chegar à essência do signficado da sua marca? Esse é o trabalho do designer de marcas. Briefing, referências, pesquisas, rascunho.. Tudo isso é para encontrar a parte mais relevante da mensagem que você quer passar. E então transformar isso em uma imagem para as pessoas se lembrarem.

Deve ter significado

O logotipo precisa ter um significado profundamente ligado aos valores da empresa. Isso não quer dizer literal. A LG não tem uma TV no logo e a apple não tem um celular. O significado está mais ligado ao que as pessoas irão sentir com a marca ao vê-la. O seu público precisa olhar para o seu logotipo e se identificar, sentir uma conexão com a sua empresa. E esse significado precisa ressoar em toda a comunicação. Se o significado for forte e verdadeiro, o logotipo pode dar início à um relacionamento positivo entre seu público e sua empresa.

Deve ser legível

Um bom logotipo é legível sob as mais variadas circustâncias. De maneira geral um logotipo deve suportar variações de tamanho — pense que muitas vezes seu público irá ver o logotipo num cartão de visita, no verso de uma embalagem ou numa rede social, sempre pequeno. E mesmo assim, ele deve se manter memorável. Mas se ele precisar ser reproduzido grande, numa fachada ou num veículo, deve funcionar também.

O logotipo deve prever aplicações sobre cores claras e escuras — como o logotipo funciona impresso sobre branco? E sobre preto? Além disso, quando necessário, o logotipo deve poder ser reproduzido com somente uma cor — e ainda assim se manter reconhecível. A simplicidade e o significado ajudam muito na hora de passar o logotipo pelo teste da legibilidade.

Deve ser adaptável

O logotipo deve ter versões que permitam que seja aplicado em diferentes espaços: versão horizontal, versão vertical… Há um símbolo que pode ser usado sozinho? O que acontece com detalhes do desenho quando o logotipo é aplicado pequeno? Além disso, em quais mídias ele será divulgado? Impresso, TV, mídias sociais? Cada uma destas mídias é consumida de forma diferente, cada uma delas oferece possibilidades diferentes e seu logo deve ser capaz de se adaptar a todas elas.

Deve ser distinto

Ser distinto significa “se diferenciar do resto”. Quando colocado ao lado de outras marcas, o seu logotipo deve manter sua relevância e mostrar sua personalidade. Não quer dizer que, se todos os seus concorrentes usarem azul, você deve correr e usar amarelo. Mas seu logotipo deve ser distinto dos seus concorrentes, parceiros e fornecedores pois ele representa a sua empresa. E ela é única. Outras empresas podem vender o mesmo produto ou prestar o mesmo serviço, mas o fazem de forma diferente, com pessoas diferentes. Aquilo que é único na sua empresa deve transparecer no logotipo. Esqueça modismos, esqueça o que os outros estão fazendo e coloque foco naquilo que torna a sua empresa especial.

E, embora a aderência a estes princípios não garanta um bom design, certamente um bom design será aderente a alguns (ou todos) estes princípios. Mas lembre-se que regras podem ser quebradas. Só é importante conhecê-las e entendê-las para quebrá-las no momento certo.

Então, não vamos mais usar o “bom gosto” como parâmetro para o que é um bom logotipo, combinado? Até por que, como se diz por aí, “gosto não se discute”. Mas quando se trata de design, quanto mais falarmos sobre nossas idéias, melhor!

Dani Lima é designer de marcas freelancer, colaboradora na Abacomm Mobile e tem esse defeito de se irritar com coisas bobas como ouvir que “tem bom gosto”.

Para conhecer os logotipos e identidades visuais que ela já criou visite www.danilima.com.br

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