entrevista: duo chipa

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#chupamangazine
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7 min readDec 9, 2022

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Fotos: Alicia Morbach

Em agosto de 2022, fizemos essa entrevista com Audria Lucas e Cleozinhu, da banda de rock caipira Duo Chipa. A ideia era que entrasse na próxima edição do Chupa Manga Zine (em novo formato!), mas, como sequer conseguimos começar a mexer na publicação, fica aqui a nossa conversa na íntegra — antes que eles já tenham lançado mais uma dúzia de discos e estejam ganhando Grammys por aí. Dê o play e vamos nessa!

Falem um pouco sobre vocês, de onde são, como se conheceram, quando formaram o duo, e por quê?

[Audria]︎ Conheci o Cleo em 2019 através de uma amiga de Campo Grande, Lyd, que estava aqui em São Paulo na época, e contava que queria atravessar a fronteira do Mato Grosso do Sul com o Paraguai, de bicicleta. Esse assunto nos uniu e, assim, nós três ficamos muito amigos. Sempre tive interesse em aprofundar estudos da cultura regional do MS e do PY, convivi desde a infância com violeiros e cantoneiros do interior e sempre admirei as duplas que passavam pelas mesas de sobás (comida típica do MS) da Feira Central cantando e vendendo os seus CDs. Até que, um dia, Cleo e eu ligamos por vídeo e ele me propôs: VOCÊ QUER FAZER UMA BANDA DE ROCK CAIPIRA? Ele me contou toda a ideia e eu embalei levantando o astral pra cima: COM CERTEZA!

Foi assim que o duo se formou no primeiro ano pandêmico (2019). Nesse tempo, eu estava morando na casa do Edson van Gogh (da banda Jonnata Doll e os Garotos Solventes), eu passava muito tempo ajudando nas gravações do projeto solo dele e, consequentemente, aprendendo a gravar. Até que comecei a fazer o meu álbum visual solo, Segredo Autotélico, e também as primeiras músicas da Duo Chipa: “Lara” e “Dona Célia’’. É até engraçado porque essas duas letras eu já havia escrito em janeiro de 2018. Eu cantei um acapela sem metrônomo no gravador do celular e mandei pro Cleo, ele simplesmente colocou uma guitarra em cima e usamos o mesmo áudio da voz, assim criou-se “Lara”, fizemos a bateria eletrônica na mão posteriormente.

Nunca paramos de gravar. Enquanto isso, Cleo e Lyd também fizeram um álbum juntos, nunca publicado. Viajamos, eu e Cleo, para Campo Grande para dar vazão a todo esse processo e ensaiar as músicas que tínhamos prontas.

Logo em seguida, extremamos on-line no Festival Volume Morto, apenas eu e Cleo. Dividimos o streaming com a Lucinha Turnbull, Sophia Chablau, Lascaux, Banda Fisiológica, (…)

Lembro que foi divertido transformar o canto da sala em palco, passei o dia estudando como transmitir o som em linha para o Instagram, usando uma interface de áudio e uma Tascam MiniStudio-Porta 07. Usei o OBS e o Yellow Duck, um programa que entra na conta do Insta de forma externa, me senti hackeando a mim mesma. O resultado foi um show impecável (dentro do possível), iluminação verde, retorno nos fones de ouvido — tanto é que minha família só ouvia nossas vozes e o trastejado da guitarra na sala, tinham que acessar o Instagram ao vivo para ter a experiência completa. Estávamos entregues ao vídeo.

Quando começaram a gravar, como é esse processo?

[Cleo] Eu comecei a gravar por conta própria em 2016, com outros projetos, inclusive já tinha entrado em contato com uma Tascam 4-track, de fita cassete. Apesar disso, sinto que comecei a produzir e mixar razoavelmente bem lá pra 2019, com nosso primeiro disco: Toada Audaciosa. Compramos uma placa de áudio decente, e um tempo depois também conseguimos uma Tascam. Desde então, todos os discos da Duo Chipa têm sido gravados e mixados por nós mesmos, mesclando processos analógicos e digitais.

O som de vocês tem toda uma mistura de moda de viola, punk, samples das Shaggs, drum machine — falem um pouco sobre essas influências, e o trabalho que têm feito de também digitalizar discos antigos no Youtube?

[Cleo] Nossas influências vêm de diversos lugares, mas a essência da Duo Chipa é a música caipira do sudeste e centro-oeste brasileiros. Em nosso terceiro disco, Causos de Matuta, juntamos universos musicais muito distintos, mas tendo como centro a música caipira. Como você mesmo disse, a maneira como produzimos também foi bastante experimental: misturamos samples, guitarras e vozes, instrumentos midi, drum machines, rolou até autotune (rsrs). Dentre esses samples, teve recorte de The Shaggs, Conde Só Brega, Helena Meirelles, Ovelha, Titãs, El Kinto, Paulo Diniz, um orgãozinho gravado nos anos 80 pelo meu avô em fita cassete e um sample da própria Duo Chipa tocado ao contrário.

Sobre a segunda parte da pergunta, a gente curte muito ouvir discos e fitas cassete. Só as velharia mesmo, coisa de sebo, achados da família, etc. Tem muito conhecimento aí, e nada mais anarquista do que disponibilizar online pra qualquer um ouvir né? (rsrs) A gente só está seguindo o legado dessas grandes páginas do YouTube, como por exemplo a do Luciano Hortêncio… Só pérola.

Como veio a formação em banda para shows?

[Audria] Passado o perrengue da quarentena, iniciamos os shows presenciais. Fomos sentindo que faltava um baixo para consolidar o som, então ensaiamos com o Monch, e assim foi o nosso segundo/primeiro show. Rafael Omar chegou depois para integrar a batalha da bateria humana vs. eletrônica. Participamos com ele numa residência em Bonito-MS, no começo da dupla, então achamos que tinha tudo a ver. Chegamos a fazer um show presencial em Campo Grande-MS, mas sentimos falta dos outros elementos na noitada, por isso seguimos marcando presença como quarteto. Acho que a formação em duo continua só na beira de bar, tomando cachaça e tereré e jogando sinuca, nosso passatempo predileto.

Todos os integrantes da banda têm projetos paralelos com outros nomes, podem falar um pouco sobre eles?

[Cleo] Atualmente eu também toco meu projeto autoral, com o pseudônimo cleozinhu. Esse projeto tem uma cara mais cloudwave… aquela estética estourada, cosmopolita e até mesmo desrespeitosa kkkk lá eu tô tentando assimilar o Hyperpop, Emo, Funk, guitarrinhas, tudo isso entre remixes, mashups e canções autorais. Você pode encontrar tudo aqui: https://soundcloud.com/cleozinhu

O álbum mais recente foi em parceria com a Audria (akaStefani) e o Rafael Omar (omar), chamado Manobra Feroz Vol. 1.

A respeito de projetos anteriores, também trabalhei com a dupla “Cleo e Gago”, junto com o querido Gago Ferreira, e também a banda de indie, slowcore, chamada “maleta”, junto da Mari Ra e Thales Castanheira. Tudo isso você encontra no bandcamp e youtube do Estúdio Duo Chipa.

[Audria] Como comentei anteriormente, tenho um álbum visual solo, Segredo Autotélico, lançado com o pseudônimo Audri.a Lucas. Digo que é um exorcismo emocional de teclados, piano e midi, experimentações vocais sem apelo à técnica, algo super intimista. Gosto de usar vários nomes para trabalhos diferentes porque assumo personas distintas. Acredito que cada projeto tem partes como integrantes, assunto, estilo, material e ferramentas, e tudo isso informa um conceito. Vindo da performance, gosto de manter esses conceitos coesos conforme meus projetos mudam. Por isso, já usei o nome ASLS e Aslys na pintura, Audria Lucas no projeto La Video és Sueno que tenho com a Rita Barros e Julie Dias (YouTube), hoje uso Stefani (akaStefani) no hip hop, assim vou usando partes do meu nome próprio de várias formas. Atualmente me preparo para lançar o meu segundo álbum solo com cantorias de viola, mas ainda não sei qual nome usar rsrsrs.

O que pensam sobre a “cena” independente/underground em SP e no MS?

[Cleo] A relação entre MS e SP é antiga, inúmeros artistas do Mato Grosso do Sul acabam vindo para a capital paulistana, seja pra morar ou trabalhar esporadicamente. Infelizmente, o contrário não acontece com tanta frequência. Um dos nossos objetivos principais seria descentralizar esse cenário e conseguir integrar cada vez mais o circuito independente da capital com os interiores paulista e sul-matogrossense, mas precisaríamos de muito mais gente envolvida para essa ideia tomar uma forma maior.

O último disco de vocês (Causos de Matuta) foi lançado por selos do RS, como apareceu essa conexão? Já tocaram por lá?

[Cleo] Causos de Matuta foi lançado pela Tal & Tal Records e Honey Bomb Records, nós nos conhecemos oficialmente pela internet. Quando fizemos a primeira reunião, a identificação foi certa. Por isso firmamos essa parceria e acredito que estamos nos ajudando mutuamente, tanto nos quesitos burocráticos de registro de ISRC e assessoria de imprensa, até mesmo em troca de ideias e referências. Ainda não fizemos turnê pelo sul, apesar de já termos ensaiado algumas coisas. Em breve com certeza vai rolar…

Quais os próximos planos da Duo Chipa?

[Audria] Nosso próximo passo é a gravação do nosso 4° álbum. Ele é, na minha opinião, o cerne do que chamamos Rock Caipira, porque passamos mais tempo trabalhando e maturando a junção desses dois estilos nessas composições. São, inclusive, os hits que mais tocamos no palco: “Biruta ou Zureta”, que escrevi com Resquin (essa até já gravamos com o Otávio (Lesma) em um Fostex M80, gravador de fita), “Romântica”, “Figurinha do Zapp”, “Linda Projeção” e “Corote” (do compositor campograndense Boloro). Fora essas, temos mais 5 canções inéditas para entrar neste disco. Para produzi-lo, estamos inclinados a fazer um financiamento coletivo, porque embora tenhamos uma facilidade e prazer de gravar em casa, este álbum requer um cuidado que alcance outra sonoridade, diferente do lo-fi caseiro. Queremos uma produtora que dê conta de sua potência e que acredite nele tanto quanto nós mesmos.

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Siga a Duo Chipa no Instagram, a banda toca nos dias 10 (Estúdio Depois do Fim do Mundo) e 16 (Associação Cultural Cecília) de dezembro em São Paulo.

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