never mind the bolero

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#chupamangazine
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5 min readApr 12, 2020

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Em Ritmo de Seresta (Pitomba/EDUFMA, 2014), o novo livro do antropólogo Bruno Azevêdo, traça um panorama da música brega no Maranhão. Em especial, como o advento do teclado eletrônico pôs fim às bandas de baile e criou um novo estilo, conhecido como seresta, que mantém viva a chama do bolero. O estilo — e seus desdobramentos — , apesar de extremamente popular, permanece estigmatizado e lhe é negado o reconhecimento como importante fator cultural do estado que o bumba meu boi, a dita Música Popular Maranhense e até mesmo o reggae parecem ostentar. Azevêdo mapeia a história musical recente, que, na figura dos seresteiros viu nascer uma nova forma de apresentação dançante no Maranhão, relevante não apenas enquanto manifestação social mas como fenômeno estético. Segundo ele:

O ritmo da seresta, nos anos 1980, era o mesmo em todas as casas, bares e fitas que se encontrasse, aquele pré-definido como beguine nos bancos de ritmo nos teclados e reinterpretado como bolero pelos usuários locais, que alteravam somente o bpm das músicas.

Júlio Nascimento pelas ruas de São Paulo, na capa do disco Em Ritmo de Seresta (1995)

O disco que deu nome ao livro é um caso emblemático não apenas da capacidade mercadológica do estilo, como da própria estratégia calcada no faça você mesmo, capaz de surgir em cenas marginalizadas. Ludibriado pelo produtor, o cantor Júlio Nascimento gravou o disco sem saber, achando que se tratava apenas de um ensaio. Foi um tremendo sucesso. Deu-se assim:

Nascimento, em uma conversa telefônica não gravada em 2008, disse não saber da gravação do disco. Fez um ensaio com Geraldo [Proença, o produtor] que depois o levou para passear e fez umas fotos no centro de São Paulo. Algumas semanas depois, recebeu o álbum prensado em casa e pensou: “agora é o fim da minha carreira”. Geraldo exibia ao cantor placas nas quais pedia que fosse mandado um alô para fulano de tal, feito o anúncio X ou Y e o comentário A ou B, com a intenção de criar o clima de uma apresentação ao vivo, em choperia. Essas chamadas aparecem no disco, que também dá a impressão de que o cantor está alcoolizado, “bebendo aquele uísque”, como ele mesmo anuncia em algumas faixas. A voz de Nascimento foi gravada com um reverb fortíssimo, que preenche ainda mais o espaço e ressalta a ideia de “palco”, há maneirismos vocais como consoantes puxadas, gemidos eróticos e estrofes em inglês macarrônico, os ataques do teclado entram diversas vezes fora do andamento ou em notas “erradas”. A transição entre as faixas é feita pela leve mudança no andamento da batida do teclado ou pela introdução de uma nova harmonia; o teclado não para, salvo por um fade out entre as faixas 07 e 08 (metade do disco), como se pensado para a lógica lado A lado B dos discos de vinil. O repertório é construído por narrativas “de corno” e pela recorrência de personagens já famosas de Nascimento como Leidiane (Leidiane, A volta da Leidiane e A mãe da Leidiane), Dalziza, Dinalva, Luana e Sandra (em canções homônimas), além da referência ao garimpo (Chegada do garimpo e Lembranças do Garimpo), inseridas entre as leidianianas.

Júlio Nascimento explora o nicho do brega conhecido como “música de corno”, aquela cuja letra narra a desventura de um homem enganado pela mulher, que, por conta disso, bebe, sofre e chora. Leidiane narra a história de um homem que vai ao garimpo a trabalho e manda o dinheiro arrecadado para a mulher, que o gasta “com os homens lá no cabaré”. Mas Júlio nunca foi garimpeiro, antes de gravar o primeiro disco nunca tinha pisado num palco que não fosse o da Assembléia de Deus. Inventou a própria biografia para fins líricos, e assim como o jovem Bob Dylan encarnava um andarilho órfão e beatnik, Nascimento forja sua figura experiente e calejada de garimpeiro corno. O disco — conceitual, na acepção mais pura do termo — soa como um registro diabólico paralelo ao dos primeiros bluesmen americanos, regados a uísque barato em quartos de pensão.

Pioneira na gravação de artistas que usavam o teclado de eletrorritmo, a Gema, de Geraldo Proença, foi nos anos 1990 o maior selo de bregas do Brasil em número de discos vendidos e em visibilidade relacionada ao gênero. A figura do produtor aparece, aqui, como alguém que pode perceber e deflagrar um movimento. No caso da música brega/seresta maranhense, além das rádios AM e choperias, o investimento do selo foi fundamental para perceber que aquilo que os músicos entendiam como arranjo temporário já era um produto, com demanda de mercado. O produtor se torna também a figura capaz de afirmar o que é bom e o que é ruim para esse mercado, e mesmo de manipular gostos e necessidades em nome do resultado de seu trabalho. Os primeiros seresteiros gravavam suas apresentações em fitas cassete, que eram usadas como fitas demo ou vendidas nas bancas de pirataria, com baixas tiragens. Punha-se no disco o som com, “a mesma exuberância de um som ao vivo”. A festa popular transposta para o produto fonográfico — mas ainda com a tentativa de fazer soar como um disco de banda, sem a declaração clara de que se tratava de um disco feito com o teclado — , gerou expedientes curiosos. Como nos primeiros discos de Júlio Nascimento, que mostram o mesmo nome nos créditos para baixo, bateria e teclado. Trata-se da figura que opera o teclado emulando baixo e a bateria. O autor continua:

Se o teclado para os seresteiros egressos das bandas de baile era uma forma de se manter no mercado de shows, para esta nova geração era a maneira de fazer música dentro da qual foram formados e para a qual compunham e cujo mercado exploravam. O teclado começa a ser associado não mais somente à seresta, mas à música brega de cantores surgidos nos anos 1990, nordestinos, que despontavam nas rádios AM, casas de festas populares e no mercado fonográfico, daí a ideia de um movimento de música eletrônica. Os artistas tinham uma mídia (o teclado), um tema (o amor), uma posição social semelhante (a do interior, periférico), e uma instância de legitimação (a Gema)

Se para os punks bastavam três acordes de guitarra, para o cantor da seresta bastam dois dedos e o acompanhamento do teclado eletrônico.

Este texto foi publicado originalmente no Chupa Manga Zine nº 1, em agosto de 2015. Saiba mais aqui.

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