
Crítica | Bingo: O Rei das Manhãs
Longa inspirado na vida de Arlindo Barreto, o Bozo, mostra como o ator se tornou o palhaço mais amado do Brasil.
Por: Bruno Tavares
“Olá criançada, o Bingo chegou. Trazendo alegria para você, a vovó e o vovô…”
Abram alas espectadores, pois ao som dessa melodia vem entrando em cena a história do maior programa infantil dos anos 1980. Bingo: o Rei das Manhãs revisita as peripécias de Arlindo Barreto, o Bozo, e nos mostra os bastidores da TV na década de ouro.
Devido a direitos autorais, todos os nomes que figuram essa história foram levemente modificados. Dessa forma, Bozo tornou-se Bingo e Arlindo virou Armando. No longa, acompanhamos Armando Mendes (Wladimir Brichta), um ator de certo sucesso no mundo da pornochanchada que decide ampliar seus horizontes. Em suas tentativas de mudança, o personagem foi menosprezado pela Rede Mundial (aka Globo) e encontrou na TVP (aka SBT) a oportunidade de interpretar o palhaço Bingo.

Após fazer sucesso nos EUA, o formato do programa de auditório do palhaço tornou-se um produto de exportação. Entretanto, “O Brasil não é para principiantes”, como afirma Armando, e a fórmula gringa não fez sucesso por aqui. O jeito foi ir além do script e mostrar na prática que o melhor desse país é mesmo o brasileiro. Por meio de esquetes escrachadas e com um senso de humor único, Bingo ganhou as manhãs do país.
Nessa trilha de sucesso, dois personagens demonstram-se importantes. A primeira é a mãe de Armando, Marta de Windsor, (na vida real, Márcia), interpretada por Ana Lúcia Torre. Na produção é possível ver claramente que ela é a grande incentivadora do filho. Mesmo sendo uma artista em decadência, Marta sonha em ver o nome dos Mendes de volta ao estrelato. O segundo é Gabriel (Cauã Martins), filho de Armando e sua fonte de inspiração para o relacionamento com as crianças. Entretanto nem tudo são flores. Com o sucesso subindo à cabeça, Bingo mergulha com tudo no mundo das drogas e da bebida, colocando em risco sua relação com o filho e o trabalho construído ao lado de Lúcia (Leandra Leal), diretora do programa.

Com essa baita história nas mãos, o diretor Daniel Rezende, editor de filmes como Cidade de Deus, Diários de Motocicleta e Tropa de Elite, reproduziu de maneira fiel os bastidores da TV brasileira dos anos 80. Todos os elementos estão ali: a disputa entre as emissoras, o ego dos produtores e principalmente o nosense que imperava na época e tornava os programas genuinamente engraçados. Colaboram para o clima saudosista a trilha sonora impecável e os detalhes da mixagem de som, que incluem aquele barulhinho inconfundível da televisão de tubo ao ser ligada e desligada.
Em se tratando de atuações, o destaque vai para Brichta que constrói um personagem com camadas e se revela progressivamente impactante. Além disso, contamos com a engrandecedora presença de Domingos Montagner, que ensina os rudimentos da profissão de palhaço a Bingo. Vê-lo atuando em um papel que viveu na vida real, quando trabalhou no circo, foi de aquecer o coração.
Roteiro Biográfico
Entretanto, a produção também tem pontos falhos. O roteiro, por exemplo, não apresenta grandes novidades. Uma vez que é um filme basicamente biográfico, o texto narra os fatos históricos sem inovações e pesa a mão nas frases de efeito. Porém, ganha pontos por deixar os personagens à vontade para transitarem entre o humor genuíno e o drama, sem parecer piegas.

Mesmo com 1h53 de duração, Bingo: o Rei das Manhãs passa rápido e se mostra como um respiro para o cinema brasileiro, que se debate há anos entre clichês e fórmulas prontas. Os palavrões e cenas de nudez, características que podem ser consideradas obrigatórias nas grandes produções nacionais, estão presentes no longa, mas não de maneira gratuita. É possível ver que cada ação está ali por um motivo e todos estes elementos juntos colaboram para construção do personagem de Armando.
Parafraseando uma frase de Dona Marta no filme: “assim como as mariposas precisam de sol e os Mendes da luz do palco, Bingo: o Rei da Manhã precisa ser visto nas telonas, para perpetuar o sucesso já feito nas telinhas”. Vale a pena conferir.
