A Grande História #1: introdução

Nova série sobre a vida, o Universo e tudo mais…

Se você nunca leu…leia!

Hoje é o dia de estréia de uma nova série aqui no Ciência Descomplicada: A Grande História.

A ideia aqui é contar a história de TUDO. Isso mesmo que você leu: literalmente TUDO em nosso universo! Algo que o grande Douglas Adams definiu como:

“A vida, o Universo e tudo mais…”

Assim, com esta série de posts mensais nós iremos contar um pouco sobre a história do Universo, das estrelas, dos planetas, dos organismos vivos… e até de nós mesmos! Estes posts estarão vinculados com muitas, muitas disciplinas diferentes.

Agora você deve estar se perguntando:

“Tá, e porque eu devo aprender sobre a História do Universo?”

O primeiro motivo é que a Grande História nos fornece uma linha do tempo onde podemos ver todos os estudos realizados em todas as possíveis disciplinas. Assim nós podemos ver as conexões e encaixar estas peças como um grande quebra-cabeças (e põe GRANDE nisso…).

Maior, bem maior que esse…

A Grande História abrange a totalidade de todo conhecimento humano até hoje. Isso vai formar uma história que pode abraçar o conhecimento de qualquer disciplina, em qualquer período do tempo, sobre qualquer assunto.

Em segundo lugar, aprender a História do Universo e o papel que desempenhamos pode ser uma experiência transformadora. Você verá que todo indivíduo, seja humano ou não, é formado de matéria e energia que estão por aí desde o início do espaço-tempo, há 13,8 bilhões de anos. Esta matéria e energia apenas mudaram de forma.

Hein?! Como assim?!

Toda a vida na Terra foi gerada a partir de um grande ancestral comum universal. Veremos que a nossa espécie entrou nesta História há muito pouco tempo, e como pessoas de diferentes países, religiões e classes sociais estão tão intimamente ligadas (muito mais do que elas próprias imaginam… ou gostariam!).

Em terceiro lugar, aprender a Grande História encoraja a conexão entre diferentes disciplinas em uma escala sem precedentes. Normalmente há o que se chama de “duas culturas”. Uma que investiga fenômenos naturais e outra que investiga a sociedade e os processos individuais da humanidade. Muitas vezes estas duas culturas estão em campus diferentes das Universidades ou em prateleiras bem distantes da biblioteca. Mas, por incrível que possa parecer, elas possuem muita coisa em comum.

A Ciência é, em muitos aspectos, histórica! Toda vez que você olha para o céu à noite você está, essencialmente, olhando para o passado, vendo a luz das estrelas que brilharam milhares (e algumas milhões) de anos atrás. Os cientistas pesquisam no céu evidências para escrever a história da expansão do Universo. Da mesma forma, olhando para documentos da idade Média e desenterrando artefatos pode-se escrever sobre a história humana. Tanto no caso da Astronomia quanto das Ciências Sociais temos teóricos tentando interpretar eventos.

Olhe pra cima e você verá a história!

Em quarto lugar, transformar a História do Universo neste grande quebra-cabeças nos dá a habilidade de pensar criticamente.

Temos que tomar cuidado com todas as afirmações que aparecem todos os dias. Como saber se são verdadeiras ou não? Algumas vezes temos acesso a provas concretas, outras vezes temos que confiar na lógica. Tem vezes que não temos acesso a provas, nem uma compreensão muito grande no assunto. Para resolver isso temos que recorrer à opinião de especialistas, mas ainda assim, muitas vezes (mais do que você imagina…) temos que usar nossos instintos. Todas estas abordagens são úteis e devem trabalhar em conjunto, em um equilíbrio delicado. O mais importante é sempre nos atualizar com novos conhecimentos, novas teorias e experimentos.

O último motivo é de que devemos nos preocupar com a História.

Na Roma antiga, Cícero disse:

“Não saber o que aconteceu antes de você é permanecer pra sempre uma criança.”

A História enriquece nossas perspectivas e nos permite viver várias vidas em apenas uma. Cícero estava falando da História poucos séculos antes dele, mas aqui nós vamos voltar um pouquinho mais…

Normalmente, o ponto de partida das aulas de História é a invenção da escrita, e é fácil de entender o motivo. É a partir deste momento que as informações de o que aconteceu com a humanidade ficaram registradas. Assim, é fácil de enxergar uma linha de início.

A invenção da escrita é com certeza um dos passos mais importantes da humanidade, mas não necessariamente deve ser o ponto inicial da História. Aqui vou começar a História onde ele realmente começou (ou a gente pelo menos acha que foi lá…):

O início do Universo.

Começa naquele pontinho, no centro à esquerda…

E onde vamos acabar? Bom, vamos acabar daqui a alguns trilhões de anos, quando o Universo morre. Desculpe dizer, mas todos vamos morrer um dia, incluindo o Universo.

Nesta série não vou focar em detalhes de perguntas. Ou seja, não serão feitos “zooms” em partes específicas. A idéia é apresentar todo o caminho que foi traçado pelo Universo, e para isso precisamos ter uma visão mais global do processo. Há muitas perguntas que só podem exploradas olhando “de longe”, sem focar em eventos muito específicos.

É como olhar pra um quadro grande. Quando você olha muito perto pode focar nos detalhes, mas não consegue saber qual pintura está olhando. Vendo de longe você perde os detalhes, mas consegue entender melhor a obra.

Os mais atentos sabem que pintor é esse…mais qual obra? Olhando tão de perto fica complicado…

Dependendo da pergunta, as respostas só podem ser obtidas quando olhamos de longe. Esse é o objetivo desta série.

“A noite estrelada”, de van Gogh. É esse o quadro em detalhe ali em cima…

A intenção aqui é mostrar que há muitas, muitas conexões poderosas entre as disciplinas, conexões que você pode não ter visto antes. Cosmologia, Geologia, Biologia, Física, Ciências Sociais, Literatura…enfim, tudo. Esse é o nosso caminho.

Se segura aí que estamos começando!

Vamos nos basear em 4 conceitos principais que vão ser sempre lembrados no fim de cada texto:

Uma das leis fundamentais da Física é a Segunda lei da Termodinâmica, que nos diz que a tendência geral do Universo é criar coisas mais simples. Então, como é possível fazer as coisas mais complexas?

Como sabemos, o Universo não é organizado perfeitamente e sempre haverá ligeiras diferenças, conhecidos como gradientes. Isso significa que a energia irá fluir. São estes fluxos de energia que permitem a construção de coisas complexas onde as condições são ideais. Assim, a energia é o nosso primeiro conceito crucial. Esta energia tem que vir de certos ingredientes…vamos ver quais são eles em cada passo desta série.

A segunda é a ideia de emergir. Este é um tipo de idéia filosófica, mas é também uma ideia científica. Isso significa que por vezes, onde as condições são boas, pedaços, peças e componentes podem montar-se para formar algo novo, algo com novas qualidades. Houve um tempo quando não havia vida no Universo. Em seguida, houve um tempo em que havia vida. A vida parece ter novas qualidades. Então, quando essas coisas novas aparecem, elas parecem ser mágica, mas não são. São só novas propriedades emergindo.

A terceira ideia fundamental é a de condições ideais, ou como os americanos gostam de falar, condições “Cachinhos Dourados”. Se você não conhece a História de Cachinhos Dourados, veja o vídeo abaixo (lembrando que desenhos inocentes sempre ilustram muito bem propriedades científicas…):

O mingau era ou muito quente ou muito frio, até que finalmente, ela encontrou uma tigela de mingau que era a boa! Assim, condições “Cachinhos Dourados” são condições que são boas para o surgimento de coisas mais complexas. Podemos nos perguntar sobre a nossa Terra primitiva…quais foram as condições “Cachinhos Dourados” que permitiram o início da vida na Terra?

O quarto conceito crucial é a de limites de complexidade crescente, e nós vamos falar sobre 8 desses limites. São momentos na Grande História quando algo novo emerge, algo novo é criado. Estes 8 limiares irão fornecer uma espécie de esqueleto para a nossa História.

Estes 4 conceitos (energia, emergência, condições “Cachinhos Dourados” e limiares) vão guiar a Grande História. Eu com certeza vou me divertir aqui escrevendo, e espero que você também se divirta lendo e acompanhando.

Até a próxima, onde vamos começar nossa história falando sobre o início do Universo, o Big-Bang.


Adaptado de “Big History” — David Christian & David Baker — Macquarie University