Asterix e os asteróides: uma história de coincidências

e o que a Lua tem a ver com isso

Vercingetorix se entregado para César (Lionel Noel Royer)

Você já deve ter ouvido falar na história de Asterix e os gauleses, um cartoon criado pelos franceses Albert Uderzo e René Goscinny em 1959. A história é baseada na saga real de Vercingetorix, um general gaulês que liderou a revolta contra Roma. O general Júlio César teve que deslocar 4 legiões durante 6 anos para derrotar os bravos gauleses e seu inteligente líder. A pintura acima reflete o sentimento de César, ao ver que mesmo na hora de se entregar Vercingetorix ainda desafiava o imperador, chegando em seu cavalo e vestido para a batalha. Os próprios relatos de César engrandeciam os feitos de um dos seus maiores e mais inesperados inimigos.

Apesar de Vercingetorix não ter medo de nada, o seu alter-ego animado, Abracurcix (o chefe dos gauleses), tinha um medo: que o céu caísse sobre sua cabeça. Se você acha besteira, melhor pensar mais um pouco…mais precisamente, os gauleses tinham medo de asteróides, e eles estão por aí, rondando a Terra e podem nos acertar a qualquer momento. Pergunte aos dinossauros.

Aqui precisamos fazer uma distinção importante entre cometas, meteoros, meteoritos e asteróides. Os cometas são bolas de gelo que passam longe da Terra, enquanto os meteoros (conhecidos popularmente como “estrela-cadente”) são basicamente pequenas rochas que caem sempre no nosso planeta, mas nunca atingem o chão (tanto é que a tradução do grego é “suspenso no ar”). Já um asteróide é uma grande rocha. Quando algum destes corpos atinge a superfície da terra, o que sobra é chamado de meteorito. Os asteróides que chegam na Terra geralmente são corpos rochosos oriundos de uma área situada entre Marte e Júpiter. São basicamente fragmentos de rocha que não se agregaram durante a formação dos planetas. Posteriormente, a gravidade de Júpiter não permitiu que eles se fundissem em um novo planeta. Quando ocorre alguma pequena variação gravitacional, estes corpos podem “escapar”. Alguns, por mero acaso, entram na trajetória da Terra. O impacto de um deles a 65 milhões de anos foi responsável pela extinção dos dinossauros, além de cerca de 70% das espécies vivas na época.

Se você gosta de probabilidades, aí vai a sua chance de morrer num impacto de asteróide, comparado a outras formas:

Acidente de carro: 1 em 100
Homicídio: 1 em 300
Incêndio: 1 em 800
Impacto de asteróide: 1 em 20.000
Um raio cair sobre a sua cabeça: 1 em 80.000

Convenhamos, é uma chance pequena, mas ainda é maior do que ganhar na Mega-Sena. É claro que Hollywood abusa dos asteróides. Alguns filmes ficaram famosos, como “Armageddon” (que de bom só tem a trilha sonora) e “Impacto Profundo”. Em todos os filmes nos quais um asteróide atinge a Terra, o impacto ocorre em pontos turísticos, como a Torre Eiffel, o Big-Ben ou o Cristo Redentor. Pensando bem, seria muito mais provável que um asteróide atingisse o oceano, já que 70% da superfície da Terra é coberta por água.

Quando algum destes corpos entra em rota de colisão não dá pra fazer muita coisa, não adianta nem chamar o Bruce Willis (Imagem: pixabay.com)

Também não precisa ficar paranóico. Há pessoas que “monitoram o céu” em busca de asteróides e segundo eles, é muito fácil exagerar na ameaça do impacto. A concepção popular dos asteróides é que eles são ameaçadores e vão nos matar. Pode até ser que sim…mas a probabilidade é baixa. Como você já deve imaginar, asteróides grandes são mais fáceis de identificar, mas há menos deles. Os principais (e mais ameaçadores) estão catalogados e são monitorados…mas nada impede de um pequeno atingir a Terra e fazer um pequeno estrago. Além disso, estes pequenos são difíceis de encontrar e podem até chegar de surpresa.

Quer um exemplo? Um asteróide explodiu sobre Chelyabinsk, Rússia (porque, se for pra não atingir o oceano, tem que ser na Rússia…), em 2013. A rocha tinha apenas 20 metros de diâmetro, mas 1500 pessoas ficaram feridas. Ninguém viu esse asteróide chegar. Há uma grande discussão sobre quanto dinheiro gastar para tentar descobrir os pequenos asteróides com potencial para nos atingir. É mais ou menos como calcular o preço de um seguro: você multiplica o risco de impacto pelo custo do dano. Segundo Martin Rees, da Universidade de Cambridge, vale a pena gastar U$ 1 bilhão anualmente. A NASA gasta U$ 40 milhões por ano, cerca de 20 vezes menos.

Para você ficar mais tranquilo, temos um “escudo” natural: a Lua. Nosso satélite nos ajuda a manter os asteróides e o lixo espacial longe da órbita terrestre. Por ironia do destino, a Lua se formou depois da colisão de um asteróide gigantesco que ejetou parte da Terra. Este “resto” de Terra que ficou flutuando no espaço se tornou a Lua. Além disso, depois da colisão a Terra se deslocou 23 graus e hoje temos as estações do ano.

A lua, nos salvando de um pedaço de lixo espacial. E aí? Ficou mais tranquilo ou o medo aumentou? (crédito: NASA)

A história de Asterix é tão marcante que um satélite francês lançado em 1965 foi nomeado em sua homenagem. Por sua relação curiosa com o céu, dois asteróides foram nomeados em homenagem ao desenho, o Asterix (asteróide 29401) e Obelix (asteróide 29402). Curiosamente, a palavra Asterix deriva do grego “pequena estrela”.

Asterix e Obelix: de personagens a asteróides

Pra finalizar, aqui vai um pensamento um pouco perturbador: porque será que não encontramos ainda nenhuma outra civilização no Universo? Afinal, se ele é tão grande, é muito provável encontrar aliens por aí (Paradoxo de Fermi). Uma das respostas para esta pergunta é que talvez nenhuma civilização tenha sobrevivido a um impacto de um asteróide. Durma com essa. Melhor começar a prestar mais atenção no céu.