Trabalhos em Laboratório

Digite o seu nome: Da caligrafia aos caracteres do teclado.


Há dois dias atrás eu estava com uma professora dentro do nosso laboratório de tecnologias educacionais aqui na escola onde trabalho. A tarefa era relativamente simples: fazer com que os alunos do 1º ano do Ensino Fundamental digitassem seus nomes em uma página do Microsoft Word 2007.

Eu acho essa tarefa bem interessante como contato primário para alguns alunos. E considerando a atual geração de usuários (cada vez mais novos) do mundo digital, reparei que a maioria sabia reconhecer um ícone de jogo no navegador da Web ou na estação de trabalho aonde estava sentado. Havia ainda um outro obstáculo: as crianças aprenderam a escrever de forma cursiva em sala de aula. Ao se deparar com o teclado, elas encontraram um mundo de informação visual, repleto de caracteres diferentes. Se fôssemos nos concentrar apenas nas letras do teclado, eu diria que aí já surgia uma dificuldade, uma vez que as letras do teclado são de imprensa (as famosas letras de forma). Foi um custo fazer algumas delas reconhecerem certas diferenças.

Quer ver uma das situações? Um dos alunos tinha, no meio de seu sobrenome, a letra “d”. Se olharmos a forma cursiva desse caractere compararmos à forma de imprensa no teclado, veremos que este periférico de entrada de dados mostra a letra “D”, maiúscula, completamente estranha ao formato desenhado pelo aluno em sala de aula.

Isso não quer dizer que a professora esteja errada. Ao contrário. Essa é a graça do desafio — o mesmo que me levou a escrever esse blog.

A professora tinha pouco mais de cinquenta minutos de aula com eles. Alguns acabaram rapidamente a atividade. Eu me deparei, ainda, com uma aluna que chorava no meio da atividade.

Era a segunda vez que eles estavam em meu laboratório e eu me recordava dessa menina. Ela nunca havia estabelecido um contato direto com tecnologias de informação. Ela chorava pelo simples fato de, numa sala com dezoito alunos gritando e pedindo ajuda para identificar caracteres no teclado, não saber utilizar teclas como as direcionais, “delete” e “backspace”. O nome dela estava uma bagunça. Eu rapidamente cheguei até aquela pessoinha tão indefesa diante do mundo de caracteres que a engolira e sentei ao lado dela. Eu perguntei: “o que houve”?

Ela enxugou as lágrimas, e sem reclamar ou chorar novamente, disse:

- Olha onde foi parar meu nome do meio…

Eu ri. Ela também. Aí eu ensinei a usar o backspace. “Então, mocinha (eu a chamei pelo nome, mas aqui vou evitar sempre postar nomes de alunos, para evitar problemas jurídicos ou qualquer constrangimento), quando você precisar juntar o que você separou com o Espaço (ela já sabia usar esta tecla), você aperta essa setinha para trás aqui. O que parece essa setinha?”

- Voltar? — Ela perguntou.

- Isso mesmo! Agora aperta e vamos ver onde seu nome do meio vai parar…

E assim foi. O que seria uma atividade para escrever o próprio nome tornou-se uma saga pelo reconhecimento dos caracteres. Como usar o “til”, circunflexo, trema… O teclado tornou-se o novo videogame de quem queria aprender mais e absorvia rapidamente o conteúdo. Eles tinham pressa. Nós queríamos o objetivo da atividade cumprido.

E se não for esse o real objetivo da alfabetização no mundo digital? Escrever manualmente tem se tornado uma realidade distante a medida que o tempo passa e a inclusão digital engloba cada vez mais crianças. Não posso afirmar que esta será uma realidade de 100% de usuários no país. Contudo, essa ideia de incluir cada vez mais pessoas no mundo digital nos leva a uma questão social e política: Aqueles que não tem um computador, o que farão daqui pra frente? Não digo isso com base em cibervícios. Falo de uma cultura que está cada vez mais imersa em tecnologia e é extremamente consumidora. Ela avalia você pelas suas posses e se atualiza sem perguntar quem pode acompanhar todo a evolução do processo. Lembro dos celulares “tijorolas” que eram moda no início do século — será que esses celulares sem sinal e frequência atualizados funcionariam? Eles se tornaram obsoletos e obrigaram o consumidor a mudar de tecnologia. E quem não pode acompanhar fica para trás, largado no anonimato e no esquecimento daqueles que não suportam as mudanças repentinas.

As crianças acompanham esse processo mais rápido que nós, das gerações anteriores. No entanto, elas sofrem com o fator da educação, que não se atualiza junto da tecnologia. Jovens até hoje aprendem com os escravos da pedagogia da transmissão, do “cuspe e giz” do século passado, que apenas repetia o conhecimento sem acrescentar algo de novo. Cartilhas e manuais.

Será que isso ainda funciona? Eu ainda me pergunto sobre como contextualizar o conhecimento e mesclá-lo a novas tecnologias…