A hora dos gatos

Aqui as famílias vão dormir cedo. Os carros param de passar na rua, as luzes se apagam e dá-se boa noite. Não sei a hora certa, mas tem uma hora que a vida vai diminuindo devagar e então cessa de uma vez só.

Algumas horas depois, meu telefone toca e tenho que ir buscá-la. Cada movimento parece um escândalo de sons. O telefone, as chaves, os passos na escada, a luz da cozinha, o portão se abrindo, o motor do carro e a música no rádio. Mas é tão reconfortante. Parece que o que acontece ali comigo é a única coisa acontecendo no mundo todo. Qualquer música tocando é a trilha sonora de toda a cidade e tudo que se move é o meu carro. Sou eu, a rua deserta, as luzes, o céu…

E mais alguma coisa. Tem um par de olhos que brilham debaixo de um carro estacionado na rua.

Com a surpresa, sinto uma pontada no peito. Não sei porque olhei ali, para o carro fora do meu caminho, para o gato que está absolutamente imóvel e com seu olhos voltados pra mim.

O carro passa, a música muda, o gato fica.

Até o próximo gato, na próxima quadra, antes de virar na avenida do cemitério. Com um elegante pulo, ele sobe de uma vez no muro e entra no quintal em que não foi convidado.

Mais um. No meio da rua, ele para seu gingado e vira olhos brilhantes para mim, refletindo os faróis. Mais dois dormem em cima de um muro. O terceiro atravessa a rua correndo.

Por todo o lado, pequenos olhos refletem meus faróis e param seus afazeres para me ver passar.

Chego na saída do metro e espero por ela. Do primeiro andar, um gato balança seu rabo pra fora da janela. Quando percebe meu olhar, me encara de volta. Somos eu, a rua deserta, as luzes, minhas músicas e o gato. Ele pisca primeiro.

Sorrio para ele com gratidão. Afinal, fui aceita no mundo misterioso dos gatos e pude compartilhar a hora deles. O gato levanta o nariz pra mim e, com uma elegância só sua, vira o corpo como se fosse entrar pela parede ao seu lado. Eu pisco dessa vez e ele sumiu.

Ela bate na porta e destravo o carro. Com um beijo e um boa noite, conta sobre o seu dia, somando sua voz à música da rádio.

“E você já jantou?”, pergunto com um sorriso.

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