O labirinto que virou do avesso

ou — uma breve história de Goiânia

Setor Sul de Goiânia. Ilustração: Natália Garcia

Examine com calma essa trama labiríntica de ruas. Foi assim que o urbanista Armando de Godoy projetou o bairro do setor Sul, em Goiânia, em 1935. Avenidas que saem de um centro comum, como um asterisco, conectadas por vielas menores que desembocam em becos sem saída. Os becos terminam em uma espécie de rotatória, que no urbanismo francês se chama cul de sac (fundo de saco). Nas áreas amareladas que revestem as ruas estão os lotes de casas. A lógica de Godoy para a vida nessa cidade era simples: casas com garagens nos fundos, de onde o proprietário sairia e chegaria do trabalho de carro, e o portão da frente voltado para o jardim verde, por onde as pessoas andariam a pé.

Só que esse sistema labiríntico desenhado por Godoy foi virado pelo avesso. Literalmente. As casas foram construídas nesses lotes de costas para os jardins e de frente para as ruas.

Início da ocupação de Setor Sul, na década de 50. Acervo de Goiânia

E hoje o que vemos ao passear pelos jardins do Setor Sul é um caminho abandonado e murado. A frente virou o fundo.

Setor Sul de Goiânia em 2015. Foto: Natália Garcia
A vida na cidade não é uma ciência exata, então os motivos que moldaram a ocupação desse bairro de maneira oposta à concebida em seu projeto não cabem numa equação. Mas há pelo menos duas razões possíveis para que o Setor Sul tenha se virado pelo avesso.

1. As ideias urbanísticas que inspiraram o projeto do Setor Sul foram transformadas pela invenção do carro.

No projeto de Goiânia, Godoy trouxe para o Brasil as ideias do pensador inglês Ebenezer Howard, que, em 1902, escreveu um tratado sobre a vida na cidade e influenciou o mundo. “Garden Cities of To-morrow”, algo como ‘cidades jardim de amanhã’, era uma tentativa de organizar as cidades inglesas que cresciam desenfreadamente, impulsionadas pela Revolução Industrial. Howard assistiu à migração de milhares de pessoas do campo para a cidade, atraídas pelos empregos nas indústrias, e viu bairros operários se formarem em condições absolutamente insalubres em torno das fábricas.

Onde as pessoas irão viver no futuro?

Essa era a pergunta que norteava Howard em seu ensaio, e ele enxergava duas respostas existentes no mundo real: o campo ou a cidade. Mas é preciso posicionar essa realidade que ele enxergava no tempo. No começo do século 20, Howard via um campo esvaziado de oportunidades e valor econômico e uma cidade inchada pelas fábricas que atraíram as pessoas em velocidade exponencial. Nesse contexto, ele acreditava que as duas alternativas, campo e cidade, eram ruins. Foi aí que propôs um caminho do meio entre o mundo urbano e o rural: a cidade-jardim. Um lugar onde as pessoas poderiam morar rodeadas de verde, água e ar puros, mantendo a qualidade de vida do campo, mas próximas o bastante da indústria, que ficava na cidade. A cidade-jardim seria um território rural margeando zonas urbanas, um subúrbio.

Ocorre que 12 anos depois da publicação das ideias de Howard na Inglaterra, uma invenção tecnológica que nasceu nos Estados Unidos mudou essencialmente a nossa maneira de existir em cidades: a linha de montagem. Criada em 1914 pelo empresário Henry Ford, ela permitiu a produção de carros em larga escala e condicionou todas as cidades do mundo à sua presença. Demorou poucas décadas para que cidade boa virasse sinônimo de pavimentação para carros.

Com isso, as ideias de Howard foram aglutinadas à existência do carro. Quando se popularizou mundo agora, a cidade-jardim já o trazia como personagem central da vida no subúrbio. Daí que o plano de Godoy para o Setor Sul acabou sendo desconsiderado pelos compradores dos primeiros lotes, que escolheram construir suas casas de frente para o cinza e de costas para o verde. Afinal, se o carro era o personagem central da vida na cidade, era natural que as casas se posicionassem de frente para a rua.

2. O projeto político que colocou Goiânia em prática não priorizava seu plano urbanístico.

Goiânia foi uma das poucas cidades planejadas do Brasil e seu projeto era parte de uma estratégia política conhecida como Marcha para o Oeste, do então presidente Getúlio Vargas. O plano era mudar a capital federal para o centro-oeste, e Goiânia seria a base para a futura construção de Brasília. A empreitada foi financiada pelo então governador do Goiás, Pedro Ludovico, que apostou em Goiânia como uma fonte de poder político. E econômico.

cartaz de inauguração de Goiânia

Nesse cartaz de lançamento da capital do Goyaz (que ainda era grafado com y e z), Goiânia aparece muito mais como um investimento imobiliário vantajoso do que como um projeto de cidade. "Enriqueça 4 vezes mais adquirindo lotes na nova capital" é mais um convite para lucrar com a criação de uma cidade do que para viver nela. Ludovico queria trazer o centro de poder do país para o estado que governava e, de quebra, atrair o capital imobiliário para perto de si. Essa estratégia política que praticamente desconsiderava o concentro de cidade-jardim foi combinada à importância do carro na vida urbana. E essa combinação pode ter sido o que consolidou o Setor Sul às avessas — ao menos ela foi parte importante desse processo.


Décadas depois, o Setor Sul passou por mais uma mudança de lógica.

Em meados de 2010, artistas plásticos goianos decidiram usar os muros de Setor Sul como telas e transformaram os jardins abandonados em verdadeiras galerias de arte a céu aberto. Aquele território que fora ocioso e abandonado agora convida a passeios agradáveis. O cinza teve seu protagonismo reduzido diante do espectro mais colorido que tomou conta desse pedaço da cidade.

fotos: Natália Garcia

Inspirados por essa transformação, a arquiteta Carol Farias e o comunicador André Gonçalves organizaram no Setor Sul as primeiras Jane's Walk de Goiânia, caminhadas de investigação urbana inspiradas no trabalho da jornalista americana Jane Jacobs — que, por sua vez, foi a crítica mais contundente do urbanismo mundial ao modelo de suburbanização protagonizado pelo carro que influenciou essa e tantas outras cidades.

Sócrates disse que cidades são feitas de pedras e pessoas. Pedras, aqui, significam tanto a atuação política das pessoas — na Grécia antiga, eram instrumento de votação em fóruns populares — quanto a configuração do espaço onde vivem as pessoas. A lição urbanística do labirinto goiano que virou do avesso é que a interação entre pedras e pessoas numa cidade nunca está dada. Cidades são organismos vivos, em constante transformação. Ou, como diz Henry Lefebvre, "numa cidade, presente passado e possível são indissociáveis".

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