Imagem por Phil Roeder

Precisamos fazer alguma coisa

Na última semana minha timeline foi floodada de notícias tristes e opiniões polêmicas sobre elas. Não sabia onde colocar energia, nem sobre o que falar. Onde a minha atenção era mais importante? Quem precisava mais da minha voz e do meu espaço de fala?

Hoje tive uma nítida sensação de que está tudo conectado. É o mundo, a natureza, Gaia, Deus, Alá, a inteligência coletiva, a rede, ou o que mais você acreditar, nos dando um recado claro: do jeito que está não dá mais.

Não podemos pensar que esses fatos surgiram do nada.

A ocupação das escolas é reação a uma forma truculenta e autoritária de se fazer política. Do entendimento que eficiência e padronização são a medida, mesmo quando estamos falando de pessoas e aprendizagem.

O crime ambiental em Mariana é o resultado de um modelo de desenvolvimento econômico em crise. Onde atividade econômica e crescimento são fins em si mesmos, ainda que coloquem em risco a vida de todo um ecossistema e, no limite, de nós mesmos.

Os ataques na França e a crise de refugiados de modo geral, são fruto de uma combinação dos dois: uma forma truculenta e autoritária de se fazer política a serviço do crescimento econômico. Enquanto o mundo ocidental (em especial) seguir interferindo violentamente na política de outros países, cedo ou tarde, sentirão — ou sentiremos todos — as consequências.

Junto disso tudo, eu entendo que eu sou parte do quebra-cabeças. Sei que há pessoas dentro de salas bem decoradas, sentadas em poltronas confortáveis, tomando decisões em meu nome, que sustentam essa história de mundo. Mas, se eu não quero seguir com ela, preciso, ainda que com micro-minúsculas-ações, me mexer na direção oposta.

Na busca por respostas, resolvi compilar aqui, um bocado de ações para quem, como eu, sente que precisa se mexer.


Criticar, julgar e odiar menos e não objetificar as pessoas a partir de categorias.

Parece uma ação boba, mas é um primeiro passo importante: odiar os ativistas de sofá, os coxinhas, os esquerdistas, os policiais militares, os muçulmanos, nos faz engessar indivíduos em suas categorias e espalhar mais violência. Talvez a gente precise olhar para cada ação e cada indivíduo, tendo em mente toda a sua complexidade e a cadeia de acontecimentos que nos trouxe ao momento presente.

Isso não significa aceitar as coisas como são ou estar passivo às injustiças. É exatamente o oposto. Existe um conceito budista de “ação irada”, que no meu raso entendimento, parece ser o caminho ideal em situações de crise. Ela é dura ou agressiva em característica, mas é lúcida e movida por compaixão. É o ato de impedir uma negatividade, gritar um “não” ou um “basta” ao que vai gerar dano a todos os envolvidos. É uma ação movida pela vontade genuína de gerar benefício aos outros, e não uma vontade egocêntrica de atenção, vingança ou revide.

Dar voz a quem merece voz.

Talvez a gente precise falar menos sobre nós mesmos e nossas opiniões. Vamos dar voz às vítimas e afetados pelas tragédias. Vamos usar nossos canais para compartilhar textos e vídeos escritos pelos alunos, informações diretas dos habitantes de Minas e Espírito Santo, impressões e sentimentos das pessoas em Paris e Beirute.

Canalizar nossa energia nas soluções.

Soluções podem vir de formas e espaços diversos. Elas na verdade são um emaranhado de ações em um sentido positivo.

  • Em relação à reorganização escolar em São Paulo
  1. Visitar as escolas ocupadas, conversar com as pessoas que estiverem por lá, produzir vídeos e divulgar informações atualizadas sobre a situação. Saiba mais sobre as escolas e atividades por aqui.
  2. Atualizar o mapa colaborativo se souber de uma escola ocupada.
  3. Assinar a moção de apoio aos estudantes.
  4. Oferecer uma aula ou atividade em uma das escolas ocupadas.
  5. Promover debates com a comunidade escolar para ouvir e depurar as reinvindicações dos alunos.
  6. Se informar sobre a reorganização e como ela afeta as escolas da sua região, e produzir conteúdo mais robusto sobre o tema. Sabemos muito pouco sobre o que vai acontecer de fato — exceto o fato de que a decisão foi empurrada de cima para baixo — e os argumentos de um lado e de outro são frágeis e generalizantes.
  7. Para mais possibilidades de ação direta, veja aqui a situação e as necessidades específicas de cada ocupação.
  • Em relação ao crime ambiental em MG
  1. Ajudar financeiramente a prefeitura de Mariana.
  2. Ajudar financeiramente o grupo de pesquisadores independentes que está analisando os impactos do desastre.
  3. Enviar doações de água para Governador Valadares.
  4. Ajudar coletivos locais na compra de donativos para os afetados.
  5. Fazer doações de materiais para as ONGs de apoio à fauna e resgate dos animais afetados.
  6. Assinar a petição pela responsabilização da Samarco.
  7. Se conhecer pessoas da região, se comunicar com elas para produzir notícias atualizadas do que está acontecendo.
  8. Viajar para alguma das cidades para atuar como voluntário.
  9. Se juntar aos grupos que estão pensando conjuntamente em outras formas de ajudar.
  10. É advogado? Ofereça consultoria jurídica para os afetados.
  11. É arquiteto ou designer? Ajude a conceber projetos para reconstrução da cidade.
  12. Trabalha no mercado financeiro? Escreva relatórios para os seus clientes desestimulando a compra de ações da Vale e da Bhp.
  13. É de cidades próximas? Abra sua casa, centro comunitário, escola, para receber as famílias desabrigadas.
  14. Para mais possibilidades de ação direta, veja aqui e aqui.
  • Em relação aos ataques em Paris e Beirute, o estado islâmico, à guerra na Síria, e a questão dos refugiados.
  1. Se informar sobre a política internacional, intervencionismo, a questão do estado islâmico e o apoio americano e europeu aos “terroristas moderados”.
  2. Divulgar informações sobre seus conhecidos para que os outros saibam que eles estão bem e seguros.
  3. Rezar, meditar, mandar energias para todas as pessoas que estão sofrendo. Os franceses e libaneses diretamente atingidos, seus amigos e familiares, mas, também, os refugiados, imigrantes legais e muçulmanos em geral que podem sofrer muito mais com o fechamento de fronteiras e xenofobia.
  4. Abrir sua casa para hospedar refugiados. É possível ajudar a iniciar uma comunidade do Refugees Welcome em sua cidade.
  5. Contratar refugiados em seus negócios, fazer cursos com eles.

Essas são algumas das formas que eu encontrei de me envolver nas soluções, mas há muitas outras possíveis. Se você tiver informações interessantes sobre ações de ajuda, divulgue aqui nos comentários ou me dê um alô, que eu insiro aqui no texto.

Seguimos.