CD Recomenda #4: Criação imperfeita

Cosmo, Vida e o código oculto da natureza

Se você acompanha o Ciência Descomplicada, sabe que aqui a gente é fã do Marcelo Gleiser, e este foi o primeiro livro dele que eu li.

No livro, Gleiser é claro e direto em sua explicação das teorias atuais, desde a Física até a Biologia. Além disso, ele também fornece uma perspectiva filosófica perspicaz, apresentando dois temas sérios: o primeiro é que não há um grande design ou propósito para o universo. E o segundo é que a ciência tem suas próprias limitações. Pra mim a frase mais forte do livro é:

“Só sabemos o que podemos medir”.

Por milênios, a humanidade procurou um Santo Graal intelectual — uma teoria unificadora para explicar as origens do Universo e nosso lugar nele. Pitágoras, Aristoteles, Galileu, Newton, Einstein e muitos outros tentaram explicar o Universo, muitas vezes utilizando os termos “harmonia” e “simetria”. A intenção destes pesquisadores era unificar todas as teorias, para encontrar uma explicação para tudo. Para eles, o mundo é, de alguma forma, perfeitamente simétrico. Qualquer coisa que não se encaixa nesta simetria perfeita deve de alguma forma estar errada.

Apesar do esforço das mentes geniais citadas, a “Teoria de tudo” até hoje não foi encontrada. Procurar uma teoria de tudo baseado em elegância, beleza e simetria é uma tarefa árdua, e há uma boa razão para isso.

Gleiser nos leva de volta aos momentos iniciais do Universo-bebê e mostra como a imperfeição (onde um desequilíbrio produziu mais matéria do que a anti-matéria ) permitiu o nascimento do Universo. Ele argumenta que há evidências que sugerem que a existência da matéria e a presença da vida na Terra são possíveis somente em virtude da assimetria. A imperfeição é a força motriz por trás da existência do Universo. Eu daria um passo adiante afirmando que não só o Universo é assimétrico, mas também é não-linear e caótico. Citando o próprio autor:

“Perfeição é uma ideia, é um conceito, que não tem nada a ver com a realidade. Da mesma forma, o infinito é um conceito que você pode se apegar com sua mente, mas nunca vai entender na realidade. São ideias que criamos para tentar dar sentido as coisas.”

O livro é organizado em 56 capítulos curtos em cinco seções principais, seguido de um epílogo. Algumas outras análises deste livro dizem que não há nada de novo a ser encontrado nesses capítulos. Discordo. Embora seja verdade que o autor não oferece uma teoria radicalmente nova e que explique tudo, ele faz um bom trabalho de banir o mito de que a Ciência está chegando perto de chegar a essa teoria.

Apesar do Paradoxo de Fermi, eu também concordo com Gleiser de que a probabilidade de vida inteligente emergir em qualquer lugar é extremamente pequena. Por isso, a espécie humana é muito especial, então devemos fazer um esforço maior para cuidar uns dos outros e do nosso planeta. Para mim, este é um dos pontos mais importantes que ele coloca no livro.

Nos capítulos finais, Marcelo Gleiser encoraja os leitores, sejam cientistas ou leigos, a abandonar a visão de que o Universo é o produto de um “grande projeto” ou possui algum “propósito”. Em vez disso, devemos aceitar que o próprio universo e nós somos apenas produtos de desequilíbrios fortuitos no funcionamento da natureza.

Este é uma excelente livro para quem tem e também para quem não tem formação científica. Gleiser tem um estilo claro que é simples, mas não simplista. O que o livro ensina é que a matemática é uma descrição da natureza, mas não uma descrição literal, algo que muitos matemáticos e físicos estão aprendendo. “Criação imperfeita” oferece uma perspectiva nova sobre a vida em um cosmos em evolução, que com certeza mudará a sua maneira de se ver e pensar sobre o nosso lugar no Universo.


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