Cientistas que você deveria conhecer — Edmond Halley
um curioso, que ajudou em um ponto marcante na história da Ciência

Neste mês, vamos falar sobre (mais um!) astrônomo famoso. Eu sei….parece que a gente só fala de astrônomos aqui né? Mas as histórias destes caras são importantes e muita gente conhece até o nome, mas não tem ideia de quem a pessoa foi. Esse é o caso de hoje.
Você já deve ter escutado o nome deste cientista algumas vezes, provavelmente como o “dono” do cometa Halley. A ironia é que uma das poucas coisas que Halley não fez foi descobrir o cometa. Edmond Halley (8/11/1656–25/01/1742) era um astrônomo, geofísico, matemático, meteorologista e físico inglês.
Halley nasceu em Haggerston, no leste de Londres. Seu pai, Edmond Halley Sr. era um rico produtor de sabão em Londres. Quando criança, Halley se interessava muito por matemática e astronomia. Como toda criança, era curioso e foi um dos primeiros a ler com precisão as mensagens escritas nas estrelas. A parte boa da história é que seu pai alimentou essa curiosidade, comprando instrumentos científicos e até “paitrocinando” expedições.
O início precoce
Enquanto estudava no Queen’s College de Oxford, Halley foi apresentado a John Flamsteed, o Astrônomo Real. Influenciado pelo projeto de Flamsteed para compilar um catálogo de estrelas do Hemisfério Norte, Halley se propôs fazer o mesmo para o Hemisfério Sul. Com a grana do pai, ele deixou Oxford aos 20 anos e velejou até Santa Helena, na costa oeste da África. Só que ninguém avisou que o clima por lá era péssimo… foram necessários 12 meses para fazer um mapa completo.
Enquanto estava por lá, ele observou o trânsito de Mercúrio e percebeu que um trânsito semelhante de Vênus poderia ser usado para calcular o tamanho do Sistema Solar (lembre-se disso!). Em 1679, Halley publicou os resultados de suas observações, o “Catalogus Stellarum Australium”, que incluiu detalhes de 341 estrelas do hemisfério sul. O mapa de Halley foi um sucesso, já que agora mercadores e exploradores podiam navegar pelas estrelas visíveis.

Halley recebeu seu diploma em Oxford e foi eleito como membro da Royal Society de Londres aos 22 anos. Em 1686, Halley publicou a segunda parte dos resultados de sua viagem até Santa Helena, um tratado e um mapa sobre os ventos e as monções. Os símbolos que ele usou para representar os ventos prevalentes ainda são utilizados nas representações da maioria dos mapas meteorológicos modernos, incluindo aquele do jornal que você assiste.
Uma amizade marcante
Sem saber, Halley ajudou na revolução no pensamento científico. Em sua curiosidade, ele estava interessado na força que mantinha tudo por perto, que viria a ser conhecida como gravidade. As leis de Kepler sobre o movimento planetário aguçaram de vez a curiosidade de Halley. Johannes Kepler havia mostrado 80 anos antes que as órbitas dos planetas não são círculos perfeitos, e que quanto mais próximo do Sol, mais rápida a translação do planeta. Haveria uma força invisível? Como funcionava?
Após tentar e incentivar outros pesquisadores a descobrir a tal força, Halley decidiu apelar. Em agosto de 1684, ele foi a Cambridge para discutir o assunto com um famoso professor de matemática. Este professor era meio estranho, vivia isolado, estudando filósofos antigos, geometria, idiomas e pensando sobre o Universo. Era um místico apaixonado, tentou até a alquimia e o exilir da vida. Além disso, era obcecado em encontrar mensagens ocultas na Bíblia. Este era Isaac Newton.
Ao questionar as leis de Kepler, Halley ouviu de Newton:
“Todos os objetos no Universo atraem todos os outros objetos com uma força direcionada ao longo da linha que passa pelos centros dos dois objetos, e que é proporcional ao produto das suas massas e inversamente proporcional ao quadrado da separação entre os dois objetos. Fiz os cálculos faz 5 anos.”
Como um bom cientista, Halley ficou animado, mas foi cético. Pediu para ver os cálculos, mas Newton não conseguiu encontrar e prometeu refazê-los e enviar mais tarde. Halley recebeu em casa um breve tratado intitulado: “Sobre o movimento dos corpos em uma órbita”. Ao ver que estava frente a uma verdadeira revolução, Halley retornou a Cambridge para organizar a publicação com Newton. Assim nasceu o “Philosophiæ Naturalis Principia Mathematica” em 1687.

Mas nem tudo foi fácil…foram dois anos e meio até a publicação. Halley correu para a Royal Society, suplicando para que o “Principia” fosse publicado. Porém, a publicação de outro livro, “A história dos peixes”, não foi assim um sucesso de vendas. A Royal Society havia gasto todo o seu orçamento anual neste livro. A situação estava tão precária que Halley era pago com cópias do livro.
Sem o esforço de Halley, a obra prima de Newton não seria publicada. Halley editou e assumiu os custos da publicação do “Principia”. Os dois primeiros volumes faziam menção à parte matemática, enquanto o terceiro volume estabeleceu as leis da gravidade, explicando o movimento da Terra, da lua e de todos os planetas.
A pesquisa não pode parar…
Depois da publicação do “Principia”, Halley partiu em 3 expedições para resolver problemas de navegação para a Marinha Britânica. No meio do caminho, ele fez o primeiro mapa do campo magnético da Terra. Além disso, fez melhorias no sino de mergulho, e iniciou em empreendimento comercial de salvamento.
Em 1693, Halley apresentou uma análise da idade da natalidade, mortalidade e a área das cidades de Paris e Londres. Este artigo permitiu ao governo britânico vender seguros de vida a um preço apropriado com base na idade do comprador. O trabalho de Halley influenciou fortemente o desenvolvimento da ciência atuarial. Ele também construiu a primeira “tabela de vida”, um evento importante na história da demografia. Foi um dos inventores da estatística populacional.
Ah sim, teve o cometa…
Na história humana, seja ela asteca, anglo-saxã, hindu ou qualquer outra que você imaginar, cometas eram uma mensagem de desastre (do grego dis astro ou “estrela má”).
Halley começou a reunir os registros e testemunhos históricos de observações de cometas. Os chineses começaram os registros de cometas em 1.400 a.c.. Halley também pesquisou os registros de Niceforo Gregoras, um astrônomo e monge bizantino, além de todas as observações na Europa entre 1472 e 1698. Pequeno detalhe: não havia computador, nem Excel. Halley teve que calcular tudo “no braço”, além de aplicar as leis de Kepler e Newton. Aplicando a teoria da gravidade, a qual ele ajudou a publicar, chegou à conclusão de que alguns cometas ficam “presos” ao Sol em orbitas elípticas, como os planetas.

Em 1705, Halley publicou o “Astronomia Cometicae”, no qual afirmou que os cometas avistados em 1456, 1531, 1607 e 1682 eram, na verdade, o mesmo. Um cometa que voltava a cada 67 anos. E ainda previu que esse cometa retornaria em 1758. Halley não viveu para testemunhar o evento, mas acertou “em cheio”, e assim o tal cometa passou a ser conhecido como “Cometa Halley”. Halley poderia ser considerado um “profeta”, mas nenhum místico foi tão preciso (e acertou!) como ele.
Lembra do trânsito de Vênus?
Lá no início do texto eu destaquei que Halley, ainda quando jovem, sugeriu uma medida de alta precisão da distância entre a Terra e o Sol: cronometrar o trânsito de Vênus. Robert Cook, 27 anos após a morte de Halley, conseguiu cronometrar o trânsito de Vênus e, com base nisso, calculou que o Sol está a 150 milhões de km da terra.
Halley foi o primeiro a perceber que as estrelas não eram fixas no céu. Ele pegou o trabalho de astrônomos gregos sobre as estrelas mais brilhantes e comparou com observações que ele mesmo fez, 1.800 anos depois. As estrelas não estão “fixas”, mas para observar o movimento seria necessário muito tempo. Esta conclusão só foi possível devido ao trabalho de pesquisa histórica de Halley. Ele notou que Arcturus e Sirius tiveram mudanças significativas.
As lições de um curioso
Halley trabalhou até o dia de sua morte, aos 85 anos, mas isso não foi um sacrifício. Sua vida foi marcada pela curiosidade, que o moveu em diversas expedições e viagens, explorando diferentes áreas da Ciência. Mesmo sem participar dos cálculos, Halley foi essencial para a teoria da gravidade e foi um pioneiro em muitas áreas.
Halley levava a sério o lema da Royal Society de Londres:
“Nullius in verba”
Ou, se você preferir uma tradução “livre”:
“Veja por si mesmo”
A visita mais recente do cometa Halley foi em 1986. Ele voltará no dia 28 de julho 2061. Onde você estará para observar e lembrar da história de Halley?
Confira todos os cientistas que você deveria conhecer neste link!

