Cientistas que você deveria conhecer — Louis Pasteur

O químico, o revolucionário, o…moralista?

Andre Mazzetto
Nov 9, 2017 · 7 min read

Na nossa série sobre cientistas importantes, estava faltando um químico. Não mais! Neste mês vamos conhecer um pouco mais de um cara que você até já ouviu falar, mas será que conhece toda a história? Louis Pasteur (27/12/1822–28/09/1895) foi um químico francês que realizou algumas das mais valiosas descobertas na história da ciência e da indústria.

Ele provou que os microrganismos causam fermentação, salvando as indústrias de cerveja, vinho e leite da França e criando o famoso processo de pasteurização. Suas descobertas médicas forneceram suporte direto para a “teoria do germe da doença” e nas vacinas contra raiva, antraz e cólera de frango. Embora Pasteur tenha feito experimentos inovadores, sua reputação o associou a diversas controvérsias.

O início simples e rápido

Em 1839, Pasteur entrou no Collège Royal de Besançon para estudar filosofia e obteve o diploma de Bacharel em Letras em 1840. Mais tarde, em 1842, tentou o teste (vulgo vestibular) para a École Normale Supérieure, mas falhou. Em 1843 ele passou no teste e 3 anos depois obteve o grau de licenciado em Ciências. Iniciou suas pesquisas como assistente de laboratório de Antoine Jérôme Balard e, em 1847, apresentou suas duas teses, uma em Química e outra em Física.Pasteur foi nomeado Professor de Química na Universidade de Estrasburgo em 1848 e logo de cara apresentou a sua primeira importante contribuição para a Ciência.

Em um artigo, ele relatou que certos compostos químicos eram capazes de se dividir em um “lado direito” e um “lado esquerdo”, como se um fosse a imagem espelhada do outro. Ele descobriu que o ácido tartárico (formado durante a fermentação da uva) e o ácido racêmico possuíam composições químicas idênticas, além da mesma estrutura, mas propriedade completamente diferentes. Pasteur descobriu que os dois tipos de cristais giraram a luz polarizada ao mesmo grau, mas em direções opostas (um à direita e outro à esquerda). Pasteur elaborou sua teoria da simetria molecular, mostrando que as propriedades biológicas das substâncias químicas dependem não apenas da natureza dos átomos que constituem suas moléculas, mas também da forma como esses átomos estão dispostos no espaço.

Alguns historiadores consideram o trabalho de Pasteur nesta área (esterioquímica) como sua “contribuição mais profunda e mais original para a ciência” e sua “maior descoberta científica”, mas isso era apenas o começo.

O professor inovador e o famoso processo

Em 1854, foi nomeado diretor da nova Faculdade de Ciências da Universidade de Lille. Lá ele iniciou um conceito educacional altamente moderno, instituindo aulas noturnas para muitos jovens trabalhadores da cidade industrial, conduzindo seus estudantes em visitas de grandes fábricas da área e organizando cursos práticos supervisionados. Ele acreditava que a teoria não deveria ficar longe da prática e promoveu esta associação entre a Universidade e a indústria.

Em uma destas visitas, Pasteur recebeu uma pergunta sobre a produção de álcool e açúcar de beterraba. Foi quando começou seus estudos sobre a fermentação. Mais tarde, anunciou que a fermentação era o resultado da atividade de organismos pequenos e que o motivo para uma fermentação falhar é a ausência do tal organismo ou por ele não conseguir crescer adequadamente. A conclusão foi que o crescimento de microrganismos era responsável por estragar bebidas, como cerveja, vinho e leite. Com isso estabelecido, ele inventou um processo no qual líquidos, como o leite, eram aquecidos a uma temperatura entre 60 e 100 °C. Isso mata a maioria das bactérias já presentes dentro dos produtos. Pasteur patenteou o processo, que passou a ser conhecido como pasteurização.

Versão moderna da pasteurização

Seu processo de pasteurização (a destruição de germes prejudiciais pelo calor), possibilitou a produção, preservação e transporte de leite, vinho e cerveja, sem sofrerem deterioração. Isso permitiu que a França pudesse exportar os tais produtos para locais mais distantes. Era o início de uma revolução no comércio mundial.

O moralista

Apesar de parecer um cara “pra frentex”, muitos de seus decretos como diretor da Universidade eram rígidos e autoritários, levando a duas graves revoltas estudantis. Em uma delas, Pasteur decretou que um ensopado de carneiro, que os alunos se detestavam e se recusaram a comer, seria servido e (obrigatoriamente) comido todas as segundas-feiras. Em outra ocasião, ele ameaçou expulsar qualquer aluno que fosse apanhado fumando. Dos 80 estudantes, 73 desistiram do curso.

A Geração Espontânea

Como uma sequência lógica de seu trabalho sobre a fermentação, Pasteur começou a pesquisar sobre a geração espontânea (como o próprio nome diz, o conceito de que a vida surge espontaneamente), uma questão que naquela época dividia os cientistas em dois campos opostos.

Suas ideias iniciais eram radicalmente contra esta teoria. Ele recebia críticas pesadas, particularmente de outro famoso cientista francês, Félix Archimède Pouchet. Para resolver o debate entre os eminentes cientistas, a Academia Francesa de Ciências ofereceu o “Prêmio Alhumbert”, no total de 2.500 francos, para quem pudesse finalmente demonstrar experimentalmente qual era a hipótese correta.

Por meio de experiências simples e precisas, incluindo a filtração de ar e a exposição de líquidos não fermentados ao ar dos Alpes, Pasteur provou que o alimento se decompõe quando colocado em contato com germes presentes no ar, o que causa a sua putrefação.

Você deve lembrar disso lá do Ensino Médio. Explicação rápida:

Pasteur colocou líquido fervido em um balão e deixou o ar quente lá dentro. Ele fechou o frasco e nenhum organismo cresceu nele. Em outro experimento, quando ele abriu frascos contendo líquido fervido, a poeira entrou, fazendo com que os organismos crescessem dentro dos frascos. O número de frascos em que os organismos cresceram foi menor em altitudes mais altas, mostrando que o ar em altitudes elevadas continha menos poeira e menos organismos. Pasteur também usou frascos de pescoço de cisne contendo um líquido fermentado. Ele permitiu que o ar entrasse no balão através de um longo tubo com uma curvatura, que fez com que as partículas de poeira ficassem retidas e não alcançassem o líquido. Nada cresceu nos caldos, a menos que os frascos fossem inclinados, fazendo o líquido tocar as paredes contaminadas do pescoço. Isso mostrou que os organismos vivos que cresciam em tais caldos vieram de fora, ao invés de “surgir” espontaneamente dentro do líquido.

Ele venceu o Prêmio Alhumbert em 1862 e concluiu:

E nunca se recuperou mesmo.

A controversa aventura na Medicina

Em 1881, Pasteur aperfeiçoou uma técnica para reduzir a virulência de vários microrganismos produtores de doenças. Ele conseguiu vacinar um rebanho de ovelhas contra a doença conhecida como antraz. Da mesma forma, conseguiu proteger as galinhas da cólera de frango, pois observou que, uma vez que os animais atingidos com certas doenças se recuperaram, eles se tornavam posteriormente imunes a um novo ataque. Assim, isolando o “germe da doença”, cultivando uma forma atenuada ou enfraquecida do germe e inoculando a galinha com a tal forma atenuada, Pasteur poderia imunizar os animais contra a doença. Em 1882, Pasteur realizou pesquisas sobre o tratamento preventivo da raiva.

Os cadernos originais de Pasteur retratam a corrida para desenvolver a vacina do antraz, mostrando a sua vontade de ser pioneiro em diversas área. No entanto, os inúmeros casos de sucesso de Pasteur não dependiam apenas seus talentos científicos, mas também de suas habilidades retóricas e sua disposição para ocultar quaisquer detalhes inconvenientes das suas pesquisas.

Os experimentos de Pasteur são frequentemente citados como exemplos errados em relação à ética médica. Ele não tinha experiência na prática da Medicina, e mais importante, não possuía uma licença médica. Isso é frequentemente citado como uma séria ameaça à sua reputação profissional e pessoal. Pasteur também foi criticado por manter o sigilo de seus procedimentos e não fazer ensaios pré-clínicos adequados em animais.

A morte como herói

Apesar da personalidade dúbia e controversa, Pasteur morreu como um herói francês. Ele foi o diretor do Instituto Pasteur, estabelecido em 1887, até sua morte, em 1895. Foi dado um funeral estadual um enterro na famosa Catedral de Notre Dame. Depois de algum tempo, seus restos foram enterrados no Instituto Pasteur, em Paris.

O Instituto Pasteur, em Paris.

Sua dedicação com os experimentos e a vontade de sempre estar a frente do seu tempo fizeram de Pasteur um dos mais importantes cientistas no mundo. Suas descobertas refletiram tanto a sua vontade de unir a teoria com a prática (no caso da fermentação, salvando a economia francesa na época), como o questionamento de dogmas (no caso da geração espontânea) e o espírito inovador (na corrida pelas vacinas). Muitos dizem que Pasteur teve “sorte” por se envolver com tantas pesquisas que se tornaram centrais em nossas vidas modernas, mas como ele mesmo dizia:


Confira todos os cientistas que você deveria conhecer neste link!

Ciência Descomplicada

Explorando a Ciência

Andre Mazzetto

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Biólogo, um cientista que não é movido a café. Entusiasta da Ciência e da Educação. Editor e autor do blog Ciência Descomplicada.

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