“Descreva o que você vê!”: um pouco sobre audiodescrição

Quando falamos de educação, precisamos lembrar de um ponto: ela é universal.

A educação é uma das mais profundas bases da formação humana em sociedade. Sua existência remonta a um dos primeiros aparatos sociais encontrados em nossa história. Através dela é possível o avanço da humanidade, individualmente e/ou socialmente, na garantia de um futuro melhor a todos. Conforme as gerações passavam, um sentimento estava latente: o ensino precisa ser para todos.

O Relatório de Salamanca, feito pela UNESCO em 1994, afirma que:

“A educação é um direito fundamental a todas as pessoas”.

Sendo assim, o ensino precisa ser relacionar com o outro, para abracá-lo e torná-lo integrante desse processo. E nesse abraço, são (ou deveriam ser) extintos quaisquer barreiras que impeçam o processo educativo.

O que isso tem a ver com áudiodescrição? Tudo. Afinal, ela ajuda a acessibilizar uma das barreiras existentes na educação: o uso de imagens para pessoas com deficiência visual.

A acessibilidade é, por definição, “um atributo essencial do ambiente que garante a melhoria da qualidade de vida das pessoas”. Um dos pontos de sustentação consiste na retirada de barreiras entre a pessoa com deficiência e a sociedade, dando a ela igual direito a quaisquer situações. As barreiras são entraves, obstáculos, atitudes e/ou comportamentos que impeçam a participação social da pessoa com deficiência, além de restringir seus direitos constitucionais, válidos a qualquer pessoa.

Então, barreiras não são apenas físicas, vão muito além. Quando utilizo rótulos e estereótipos a uma pessoa com deficiência (Fulano não consegue fazer a tarefa sozinho, Beltrano é “especial” demais para tal atividade) eu só estou aumentando as dificuldades que o aluno está vivendo, por exemplo. A acessibilidade é justamente o contrário disso.

Você já deve conhecer alguns itens de acessibilidade: rampas em prédios públicos/vias para quem tem dificuldades de locomoção, o uso de Libras (segundo idioma oficial brasileiro, vale salientar) em programas ou eventos, e a impressão em Braile. Todas elas são importantes, mas toda ajuda é bem-vinda. Nessa ajuda, a áudiodescrição entra.

A áudio-descrição (abreviada como AD) é uma ferramenta de tradução intersemiótica, ou seja, há diferença entre o idioma verbal e idioma não-verbal nos termos a serem traduzidos (Libras também é assim). Os usos de palavras transmitem as informações-chave de um recurso visual, para que estes recursos (imagem, vídeo) possam ser acessados de forma integral e sem prejuízo de conceito a uma pessoa com deficiência visual. Sua máxima é “descreva o que você vê”.

Sua origem é “recente”, a partir de recomendações educacionais nos EUA, na década de 60. No Brasil, começou a ser utilizada somente neste século, mas já está oficializada, via Lei Nº10.098, de 19 de dezembro de 2000. Seu uso é recorrente em eventos artísticos, teatros e filmes, por exemplo. Se você usa Netflix, pode perceber que além dos canais de áudio tradicionais, existe uma outra opção áudiodescritiva. Infelizmente, ainda se resume a produções próprias, e a grande maioria está apenas em inglês.

A áudio-descrição não é apenas uma descrição de imagens, mas a tradução visual de elementos que, sendo apresentados ao usuário, podem conferir a ele uma representação mental precisa, objetiva e vívida do que está sendo visto no evento imagético.

Ao invés de simplesmente descrever, é melhor mostrar como pode ser utilizada, não? Observaremos dois: o primeiro em um episódio do seriado Chaves. Sugiro que você, leitor que enxerga, aperte o play, feche os olhos e “assista”:

O próximo exemplo mostra como a áudiodescrição é um instrumento poderoso de inclusão na educação. Observe a questão de vestibular a seguir:

(IFSP) Ao estudar um costão rochoso, um aluno fez o esquema de dois tipos de animais encontrados, A e B, e de um tipo de alga C. Os animais A e B apresentam grau de parentesco mais próximo, respectivamente, com:
a) o caramujo e o caranguejo.
b) o siri e o camarão.
c) a anêmona e a ostra.
d) a esponja e a barata-da-praia.
e) o camarão e a ostra.

Conseguiu resolver a questão? Sem observar a imagem, é claro que não. O problema é que um aluno com deficiência visual, mesmo com o recurso visual, ainda não teria acesso a informação necessária para a resolução da atividade.

Tente resolver a questão sem observar a figura, somente com a AD abaixo:

“Ilustração colorida de um ambiente litorâneo, cortado longitudinalmente desde à costa praieira até o oceano, separado em 3 camadas empilhadas. Na primeira camada, que envolve apenas a areia da praia, lê-se: A — CRACAS. Na segunda camada, onde a areia encontra o mar, lê-se: B — MEXILHÕES. E na terceira camada, que delimita apenas o meio marítimo, lê-se: C — ALGAS.”

A áudiodescrição tem essa função inclusiva. Com a roteirização adequada, é um recurso extremamente enriquecedor, não somente por pessoas com deficiência visual, mas também atende a outras deficiências físicas/mentais, ou até mesmo a pessoas sem deficiência. Acessibiliza o aprendizado, a construção do conhecimento de forma independente, a resolução de atividades e questões. A propósito, a imagem do exercício era essa:

Imagem utilizada na questão de vestibular (IFSP)

A AD tem um fator facilitador para seu uso difundir-se: não há necessidade de equipamentos (Braile), ou aprendizado de um novo idioma (Libras) para entrar na sala de aula, para ser aplicada em museus, exposições e eventos.

Quer conhecer mais sobre áudiodescrição? Segue abaixo alguns links:

http://audiodescricao.com.br/ad/
http://www.vercompalavras.com.br/home
http://www.ebc.com.br/audiodescricao
http://www.blogdaaudiodescricao.com.br/