O ciclo empírico e vizinhos chatos

Na semana passada o vizinho que morava no apartamento de cima do meu se mudou. Quase fizemos uma festa aqui em casa. Nada contra o antigo vizinho, ele só era chato. Duas semanas depois, o apartamento já estava alugado novamente.

Adivinha?

Sim, outro chato. Eu comecei a pensar se eu tenho azar com vizinhos ou é assim com todo mundo. Como um bom pesquisador eu elaborei uma pesquisa, e resolvi fazer um teste.

Eu posso generalizar a observação, tornando ela uma regra geral, ou uma hipótese.

A hipótese é óbvia: todos os vizinhos são chatos. Esta hipótese foi baseada na minha observação. Detalhe importante: ela não necessariamente está correta. Eu conversei com alguns amigos e parentes e estas pessoas me falaram que também tem vizinhos chatos. Parece um padrão, entre a condição da pessoa (vizinho) e o comportamento (ser chato).

Esta fase é chamada de indução.

O significado de indução é pegar uma afirmação em um caso e supor que a observação é igual em vários casos, ou seja, todos os vizinhos são chatos. Precisamos agora testar esta afirmação.

Chegamos na fase da dedução.

Aqui nós vamos verificar se a regra geral determinada na indução se aplica a todas as situações. A partir da regra geral nós esperamos, prevemos ou deduzimos novas observações.

Para testar minha hipótese posso fazer uma pesquisa com 10 amigos, perguntando sobre o vizinho deles. Com base na minha hipótese, eu espro que todos digam que seus vizinhos são chatos.

Para fazer isso tenho que definir como a pesquisa será realizada. Começando do básico, ou seja, alguns conceitos:

  • o que é ser chato?
  • como meço o grau de “chatice” de uma pessoa?
  • como vamos reunir os dados (contar respostas ou desenvolver uma planilha para visualizar os dados?)
  • qual o protocolos de pesquisa? (quem serão as pessoas entrevistadas? qual a idade? gênero?).

Na fase de teste a hipótese é realmente testada, coletando dados.

Digamos que 8 dos meus 10 amigos entrevistados disseram que seus vizinhos são chatos, mas os outros 2 disseram que não são nem chatos, nem legais.

E agora?

Bom, temos que interpretar os resultados do teste na fase de avaliação.

A minha hipótese não se aplicou. Para que a hipótese fosse confirmada, todos os 10 vizinhos deveriam ser classificados como chatos. Mas não é por isso que a hipótese deva ser rejeitada. Isso mesmo…ainda não acabou. Em alguns casos uma hipótese pode ser confirmada, como “todos os cisnes são brancos”. A partir do momento que você encontra um cisne negro, a hipótese é rejeitada.

Em alguns casos a hipótese é ajustada.

Suponha que as 8 pessoas que responderam que seus vizinhos são chatos são mulheres, e as duas pessoas que responderam neutro são homens.

Neste caso podemos ajustar a hipótese para “todos os vizinhos de mulheres são chatos”ou ainda “todas as mulheres acham seus vizinhos chatos” ou ainda “os homens não acham que seus vizinhos são chatos”. Teoricamente estamos rejeitando a hipótese anterior, mas usamos ela para criar uma outra menos geral.

A nossa hipótese do vizinho não pode ser rejeitada, porque muitas vezes há possíveis explicações para o resultado.

A hipótese pode ser investigada novamente, com outras pessoas, em outra cidade, outro país, etc. Talvez tenham ocorrido problemas na metodologia, ou até mesmo com meus amigos, que ficaram desconfortáveis em dizer que o vizinho é chato e assim escolheram neutro.

Posso fazer a pesquisa novamente com as mesmas pessoas e desta vez dizer que o teste é confidencial e ninguém (nem seu vizinho) vai descobrir sua resposta. Essa pequena mudança pode alterar o resultado da pesquisa. Nestes casos nós preservamos a hipótese e melhoramos a pesquisa.

Assim, podemos criar novas hipóteses e fazer novos testes, voltando na fase da observação. É assim que o ciclo empírico funciona e gira a roda da Ciência.

Vamos supor que todos os meus amigos responderam que seus vizinhos são chatos.

Sucesso!

Fim da pesquisa, certo?

Não! Neste caso nós temos uma hipótese provisoriamente suportada. Não quer dizer que ela foi definitivamente provada, porque é possível que no futuro você encontre alguém que ama o seu vizinho.

Quantos mais estudos forem realizados com mais resultados positivos, maior o crédito da hipótese. Nós nunca podemos provar definitivamente uma hipótese. Vamos deixar bem claro: NENHUMA AFIRMAÇÃO CIENTIFICA EMPÍRICA PODE SER PROVADA PARA SEMPRE.

O melhor que podemos fazer é produzir muitas observações maravilhosas para aquela hipótese. O progresso da Ciência é feito em pequenos incrementos, não em saltos gigantes.

E o seu vizinho? É chato? Não? Tem certeza que você está respondendo isso só porque ele pode estar lendo agora? Aliás, eu espero que meu vizinho não esteja lendo…