Lua e nuvens sob o Oceano Pacífico, fotografadas por Frank Borman e James A. Lovell durante a missão Gemini 7. Crédito: NASA.

Os seres humanos são a única civilização tecnologicamente avançada no universo?

A verdade pode não estar “lá fora”.


Texto originalmente publicado por Ethan Siegel. Leia o original (em inglês) aqui


Talvez nunca tenha havido outra espécie alienígena inteligente e tecnologicamente avançada em toda a história do universo. Quando você considera que pode haver 400 bilhões de estrelas na Via Láctea, até três mundos potencialmente habitáveis em muitos desses sistemas estelares e algumas trilhões de galáxias em todo o universo, parece que a vida inteligente é uma inevitabilidade. Mas nossa intuição geralmente pode nos desnortear; o que sentimos não é um substituto para a ciência. A magnitude das incógnitas que a abiogênese, evolução, habitabilidade a longo prazo e outros fatores presentes nas equações, coloca muitos dos nossos pressupostos sobre a vida em dúvida. É verdade que há um número astronômico de possibilidades de formas de vida inteligentes e tecnologicamente avançadas, mas as grandes incertezas tornam uma possibilidade muito real de que os seres humanos sejam os únicos alienígenas espaciais que nosso universo já conheceu.

A caminhada espacial livre mais longa, pelo astronauta Bruce McCandless da NASA, a bordo da [missão] STS-41-B. Crédito: NASA.

Em 1961, o cientista Frank Drake surgiu com a primeira equação para prever quantas civilizações espaciais existem no universo atualmente. Ele dependia de uma série de grandezas desconhecidas para as quais ele poderia fazer estimativas e, finalmente, chegou a quantas espécies alienígenas tecnologicamente avançadas havia, atualmente, em nossa galáxia e em nosso universo observável. Com os avanços dos últimos 55 anos, muitas dessas grandezas que uma vez só podíamos estimar por meio de adivinhação, agora são conhecidas por um incrível grau de precisão.

Crédito: NASA; ESA; G. Illingworth, D. Magee e P. Oesch, Universidade da Califórnia, Santa Cruz; R. Bouwens, Universidade de Leiden; e a equipe HUDF09.

Para começar, a nossa compreensão do tamanho e da escala do universo aumentou drasticamente. Agora sabemos, graças as observações feitas com observatórios espaciais e terrestres cobrindo o espectro completo dos comprimentos de onda eletromagnéticas, quão grande é o universo e quantas galáxias existem dentro dele. Temos uma compreensão muito melhor da formação estelar e da forma como as estrelas funcionam, e assim, quando olhamos para o grande abismo do espaço profundo, podemos calcular quantas estrelas existem no universo, tanto agora como por toda a história cósmica desde o Big Bang. Esse número é enorme — em algum lugar próximo de 10²⁴ — e representa o número de chances que o universo teve, nos últimos 13,8 bilhões de anos, de produzir vida como a nossa.

Ilustração do telescópio espacial que busca planeta, Kepler, da NASA. Crédito: NASA Ames / W. Stenzel.

Nós costumávamos imaginar quantas dessas estrelas tinham planetas ao redor delas, quantos desses planetas eram rochosos e capazes de ter atmosferas como a nossa, e quantos deles estavam na distância correta de suas estrelas para ter água líquida em suas superfícies. Por inúmeras gerações, isso foi algo o qual apenas nos perguntávamos. Mas, graças aos grandes avanços em estudos exoplanetares, mais espetacularmente com o lançamento da nave espacial Kepler da NASA, aprendemos muito sobre o que está lá, inclusive que:

  • por volta de 80–100% das estrelas têm planetas ou sistema planetário orbitando-as,
  • aproximadamente 20–25% desses sistemas têm um planeta na “zona habitável” de sua estrela, ou o local certo para que a água líquida se forme na superfície,
  • e aproximadamente 10–20% desses planetas são semelhantes à Terra em tamanho e massa.

Então, dito tudo isso, existem mais de 10²² planetas potencialmente terrestres no universo, com as condições adequadas para a vida neles.

Moléculas de açúcar no gás que cerca uma estrela jovem, semelhante ao Sol. Crédito: ALMA (ESO/NAOJ/ NRAO)/L. Calçada (ESO) e NASA/JPL-Caltech/WISE Team.

A situação é ainda melhor do que isso, porque, exceto as primeiras gerações das primeiras estrelas, praticamente todas elas se enriqueceram com os elementos pesados e ingredientes necessários para a vida. Quando olhamos para o meio interestelar, em nuvens de gases moleculares, nos centros de galáxias distantes, no fluxo de estrelas maciças ou mesmo em nossa própria galáxia, encontramos os elementos da tabela periódica — carbono, nitrogênio, oxigênio, silício, enxofre, fósforo, cobre, ferro e mais — necessários para a vida como a conhecemos. Quando olhamos dentro de meteoritos e asteroides em nosso próprio Sistema Solar, encontramos não só esses elementos, mas os encontramos configurados em moléculas orgânicas como açúcares, anéis de carbono e até mesmo aminoácidos. Em outras palavras, não existe apenas mais de 10²² planetas potencialmente terrestres no universo; existe mais de 10²² potencialmente planetas terrestres com ingredientes básicos para a vida!

Deve haver muitos mundos que começaram com condições parecidas com as das Terra, e estamos muito perto de quantificar uma série de mundos como esses, em nossa própria galáxia e no universo, com uma precisão confiável. Crédito: usuário do Wikimedia Commons, Lucianomendez.

Mas é aí que nosso otimismo, se formos cientificamente honestos e meticulosos, deveria terminar. Porque há três grandes fatores, para obter uma civilização humana, que precisam acontecer:

  1. O fator da abiogênese — em que as matérias-primas associadas aos processos orgânicos se tornem realmente o que reconhecemos como “vida” — precisar ocorrer.
  2. A vida deve sobreviver e prosperar por bilhões de anos em um planeta para evoluir a multicelularidade, a complexidade, a diferenciação e, finalmente, o que chamamos de “inteligência”.
  3. E, por fim, que a vida inteligente deve tornar-se uma civilização tecnológica, seja para ganhar a capacidade de anunciar sua presença ao universo, chegar além da sua casa e explorar o universo, ou chegar ao palco onde pode escutar outras formas de inteligência no universo. (Ou, mais otimista, os três.)

Quando Carl Sagan originalmente apresentou o Cosmos em 1980, ele afirmou que era razoável dar a cada um desses três passos uma chance de 10% de sucesso. Se fosse correto, haveria mais de 10 milhões de civilizações inteligentes e alienígenas que existiram apenas na Via Láctea!

Um berçário estelar na Grande Nuvem de Magalhães, uma galáxia satélite da Via Láctea. Crédito: NASA, ESA e a Hubble Heritage Team (STScI/AURA)-ESA/Hubble Collaboration.

Há aqueles que argumentam que não é realista dar a esses três fatores uma probabilidade combinada de menos de 10^-22 e, portanto, concluem que deve haver alienígenas em outro lugar do universo. Mas esta é uma reivindicação absurda, com base em evidência alguma. A abiogênese pode ter sido comum; pode ter ocorrido várias vezes apenas na Terra, ou em Marte, Titã, Europa, Vênus, Encélado ou em outros lugares, mesmo fora do nosso Sistema Solar. Mas também pode ser um processo tão raro que, mesmo que criássemos uma centena de clones de uma Terra jovem — ou mil, ou um milhão ou mais — nosso mundo poderia ser o único planeta a emergir com a vida nele.

Estruturas no meteorito ALH84001, que tem origem marciana. Alguns argumentam que as estruturas mostradas aqui podem ser a vida marciana antiga. Crédito: NASA, de 1996.

E mesmo que a vida ocorra, quão afortunado você precisa ser para sobreviver e prosperar por bilhões de anos? Um cenário de aquecimento catastrófico, como Vênus, seria o padrão? Ou um cenário catastrófico de congelamento e perda atmosférica, como em Marte? Ou a vida acabaria por envenenar-se da existência a maior parte do tempo, como quase aconteceu na Terra há dois bilhões de anos? E mesmo que você tenha sobrevivido por bilhões de anos, com que frequência você conseguiu algo como a explosão Cambriana, em que plantas gigantes, multicelulares, macroscópicas, animais e fungos passaram a dominar um planeta? Pode ser relativamente comum, em que talvez 10% das tentativas o façam, ou pode ser raro, onde 1 em um milhão ou mesmo 1 em um bilhão estão mais perto das chances realistas.

Bonobo no Zoológico de San Diego “pescando” para cupins. Crédito: usuário do Wikimedia Commons, Mike R.

E mesmo se você chegar lá, quão raro é um uso de ferramentas, desenvolvimento tecnológico, lançamento de foguete com espécies como um ser humano? Répteis, pássaros e mamíferos complexos que podem ser considerados inteligentes por muitas métricas estiveram por perto durante dezenas a centenas de milhões de anos, mas os humanos modernos chegaram há menos de um milhão de anos, e nós só nos tornamos o que consideramos “tecnologicamente avançado” no último século ou dois. Existe 10% de chance de que, se você fizer isso no passo anterior, você consegue uma civilização espacial? Ou isso é mais como um-em-um-mil, um-em-um-milhão, um-em-um trilhão, ou mesmo muito, muito pior?

A verdade que importa é: nós não sabemos. Nós sabemos que o universo dá vida inteligente a um número muito grande de chances, na ordem de 10²². E sabemos que há apenas uma pequena probabilidade de passar de uma chance de vida a uma civilização espacial e tecnologicamente avançada. O que não sabemos é se essa chance é algo como 10^-3, 10^-20, 10^-50 ou qualquer outro número. Sabemos que a vida como seres humanos surgiu uma vez neste Universo, pelo menos, então a probabilidade deve ser diferente de zero. Mas além disso? Nós precisamos de dados. E nenhuma grandeza especulativa ou pronunciamentos substituirá essa informação; temos que encontrá-los para sabermos. Qualquer outra coisa, apesar do que os prognosticadores de todos os tipos podem reivindicar, não passa de adivinhação.


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