Superpoderes 12: elementais — fogo

Andre Mazzetto
Oct 31, 2017 · 5 min read

A nossa série sobre superpoderes continua, e hoje vamos falar sobre fogo! Imagine se você tivesse o poder de criar fogo de seu corpo. Alguns super-heróis, como o Tocha Humana, têm esse poder, e tal habilidade parece útil. Ele pode fazer com que as chamas saiam de suas mãos e ataquem o inimigo. É incrível … ou não é?

Voltemos ao mundo real. Se você realmente tivesse o poder de fazer fogo sair de seu corpo, você estaria morto quase que instantaneamente. Isso porque você está criando fogo em seu corpo real, e lembre-se, você não é invulnerável. Você estaria morto muito antes de qualquer outra pessoa começar a esquentar do seu lado.

Além disso, de onde vem o combustível? Seu próprio corpo? Você tem gasolina em suas veias em vez de sangue? Caso contrário, você só poderá “tacar fogo” em objetos inflamáveis ​​como pano ou madeira. Você constantemente procuraria algo para queimar.

A combustão humana espontânea sempre foi (desculpe o trocadilho) um assunto quente. Seria um processo onde um corpo humano pega fogo como resultado do calor gerado por ação química ou nuclear interna. Nunca ninguém testemunhou tal ato, mas várias mortes já foram atribuídas a isso (principalmente por escritores).

A Pirocinese é a suposta habilidade psíquica que permite que uma pessoa crie e controle o fogo com a mente. A palavra “pirocinese” foi inventada pelo autor Stephen King (o mesmo cara do “It — A coisa”) em seu romance “Firestarter” de 1980. Antes dele, Charles Dickens deu fim em um personagem por combustão espontânea após uma noite de bebidas em “Bleak House” (1852), alimentando uma crença popular de que o consumo excessivo de álcool poderia levar a pessoa a pegar fogo. Se consumir uma grande quantidade de qualquer bebida alcoólica provocasse auto-combustão, deveria haver muitos outros casos para se estudar por aí.

Ainda bem que é tudo ficção, certo? Não de acordo com algumas lendas urbanas e notícias vagas. Uma garota de 11 anos no Vietnã supostamente colocou tantas coisas em fogo sem ação física (apenas pensando em fogo) que seus pais finalmente buscaram ajuda (como se um pré-adolescente não fosse razão suficiente para isso). Mas pode ser feito? Bem, tecnicamente, não. As ondas cerebrais geram pouca energia, nem mesmo o suficiente para acender uma lâmpada.

Que tal partículas subatômicas?

Uma das minhas explicações favoritas é a de que um elemento subatômico seria na verdade a causa da pirocinese e até mesmo a combustão espontânea. A teoria é que se este elemento minúsculo atingir um quark, uma explosão nuclear acontece dentro de você (conhecida carinhosamente como “Efeito Hiroshima”), o que causa combustão interna de algum tipo. Ninguém jamais viu nenhuma destas partículas. O tal elemento subatômico que “controla” o fogo não existe.

As possibilidades físicas da combustão humana espontânea são remotas. Não só nosso corpo é principalmente água, mas, além do tecido adiposo e do gás metano, não há muito mais que possa queimar facilmente em um corpo humano. Para o ritual da cremação é necessária uma temperatura de 1.200 ºC por cerca de duas horas.

Além de um acampamento, será que é realmente incrível poder acender fogueiras em todos os lugares? E o quão cansativo seria sentir que você constantemente tem que correr para cada incêndio para ajudar a controlar as chamas?

Bom, talvez não seja tão interessante, mas resistir ao fogo é uma grande adaptação na natureza selvagem, e há animais que apresentam esta característica. Um deles é o simpático (e meio estranho) Equidna. Parece uma mistura de porco-espinho com pato, mas estes animais curiosos são os únicos membros sobreviventes — juntamente com os ornitorrincos — de um antigo clado de animais chamado monotremados, ou mamíferos que colocam ovos.

O edina, um bichinho resistente (crédito: BeccaH)

Os equidnas possuem o “superpoder” de sobreviver a incêndios florestais, e tal habilidade pode ajudar a explicar por que os mamíferos foram de alguma forma capazes sobreviver do impacto daquele asteróide que matou os dinossauros.

A habilidade foi reconhecida pela primeira vez em 2013, depois que um incêndio catastrófico atingiu o Parque Nacional Warrumbungle no leste da Austrália. Julia Nowack, uma pesquisadora da Universidade da Nova Inglaterra, percebeu que, enquanto a maioria dos animais selvagens estava devastada pelo fogo, a população de equidnas da área parecia tão robusta como sempre. Como eles escaparam do incêndio?

Para investigar, Nowack e seus colegas aproveitaram uma queima controlada sendo realizada e implantaram sensores de temperatura e GPS nos bichinhos.Os pesquisadores seguiram os equidnas por cerca de um mês antes e depois do incêndio. O resultado? Eles nuna tentaram fugir do fogo.

Os equidnas são conhecidos por serem capazes de um tipo de hibernação chamada torpor, onde reduzem seu metabolismo e, assim, diminuem a temperatura corporal. A adaptação lhes permite economizar energia em tempos de escassez, mas como isso ajuda a sobreviver ao fogo?

Os pesquisadores acreditam que a temperatura corporal reduzida que ocorre durante o torpor protege os animais do aumento do calor, além da hibernação ocorrer em um local protegido. As temperaturas geladas do corpo não são o único benefício do estado de torpor. Ele também permite que os equidnas durmam nos tempos de escassez, economizando energia até que as condições ideais retornem.

Muitos cientistas acreditam que o torpor era um traço muito mais comum nos mamíferos antigos do que é hoje. Um estado de torpor também é observado por outros animais que venceram o asteróide que matou os dinossauros, incluindo tartarugas e crocodilos. A capacidade de cair em estados de sono prolongado pode soar como algo meio bobo, mas que tal a capacidade de sobreviver ao fogo e a um asteróide que matou o maior predador já visto na face da Terra? Eu acho que é o suficiente para garantir que você nunca pense no Equidna da mesma maneira novamente.

No próximo texto vamos tratar do próximo superpoder elemental: o ar! Fique ligado!


Interessado pela série dos Superpoderes? Confira todos os textos neste link!

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Andre Mazzetto

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Biólogo, um cientista que não é movido a café. Entusiasta da Ciência e da Educação. Editor e autor do blog Ciência Descomplicada.

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