Um breve papo sobre microgravidade

pois ficar sem peso é interessante!

Cena de “Apollo 13”, Ron Howard (1995). Fonte: http://www.apollo-13.com

Sabe quando você está dentro de um elevador, de preferência num andar relativamente alto e, de repente, os cabos se arrebentam, de forma que você começa a cair e se sentir sem peso?

Se você está lendo isso agora, há duas possibilidades:

a) nunca experimentou essa sensação ou;
b) no céu tem wi-fi.

Para efeitos de discussão, vamos ficar com a primeira opção, que restringe nossa conversa ao mundo terreno e separa concepções místicas.

O efeito descrito no começo dessa nossa história é real e recebe um nome especial: microgravidade. Trata-se de uma sensação de ausência de peso; dizemos sensação porque, no fundo, o peso continua existindo, apenas não nos damos conta dele.

É provável que agora, enquanto você lê este texto, esteja sentado ou deitado sobre algo — uma cadeira, um sofá, uma belíssima cama de pregos; em outras palavras, neste momento você se encontra apoiado sobre uma superfície. Nesta situação, você está aplicando sobre o apoio uma força e, como forças só existem aos pares, de acordo com a 3ª lei de Newton, o apoio também está aplicando sobre você uma força. Podemos dizer que você faz uma ação sobre a superfície e ela reage sobre você. Como tanto faz quem é a ação e quem é a reação, prefiro não utilizar desses termos.

Durante toda nossa vida, presenciamos nosso próprio peso através dessas situações de contato com outras coisas. Ao nos “pesar” numa daquelas balanças de farmácia, por exemplo, não estamos medindo nosso peso, mas sim a intensidade da força que aplicamos na superfície de contato. Como permanecemos em equilíbrio nessa situação, sob ação exclusiva da força peso e da força de contato, suas intensidades são iguais e, assim, acabamos por medir o peso, de forma indireta.

Voltando à história do elevador, imaginemos por um instante que os cabos se romperam e você esta dentro do mesmo. Nos primeiros centésimos de segundo experimentará um terror inenarrável. Nos próximos também. Provavelmente ficará catatônico até o final da jornada. Mas, enfim, caso seja suficientemente sangue-frio, poderá apreciar uma sensação bastante agradável de leveza. Isso porque, nessas condições, tanto você quanto o elevador estão numa situação de queda livre, isto é, sujeitos exclusivamente à ação do campo gravitacional terrestre:

Se ambos os corpos (o elevador e você) caem com a mesma aceleração, não haverá distanciamento maior de um ou de outro. Assim, não havendo contato entre seus pés e o chão, você não sentirá a pressão que este lhe exerce e, portanto, ficará com uma impressão de ausência de peso. Taí uma boa propaganda para emagrecimento.

Garfield, utilizando de toda sua marotice, já percebeu isso.

Astronautas em treinamento utilizam esse fenômeno de microgravidade para se prepararem para missões espaciais. Como a ideia de se utilizar elevadores em queda livre é pouco verossímil, por questões óbvias, a saída encontrada foi reproduzir esse fenômeno em um avião. Dá uma conferida:

Repetindo a explicação do vídeo, observamos momentos em que o avião é acelerado para baixo com uma aceleração igual à da gravidade terrestre, simulando os efeitos da queda livre do elevador. Todos os corpos dentro do avião caem junto com o mesmo e, durante os 25 segundos aproximados de queda, tudo parece flutuar.

O que nos leva à ideia original deste post. O filme Apollo 13 (no Brasil, Apollo 13 — Do desastre ao triunfo), do diretor Ron Howard, relata a história da missão homônima à Lua que, por motivos técnicos, não pode chegar lá. Os astronautas Jim Lovell, Fred Haise e Jack Swigert, após um certo pânico no espaço, são trazidos de volta à Terra pela sua equipe de controle. Para alguns entusiastas, estes sim foram os maiores heróis, pois conseguiram propor soluções inteligentíssimas em curto período de tempo e com a maior pressão do mundo sob seus lombos. Um feito digníssimo e merecedor de admiração.

Para filmar algumas cenas do filme, a equipe também embarcou a bordo dum Boeing 707 KC-135, apelidado de Vomit Comet — por razões autoexplicativas. Deve ter sido divertido, mas às vezes nem tanto. Tamanho esforço de produção resultou num filme interessantíssimo e bastante factível. Recomenda-se assistir e observar os detalhes.