Black Mirror T2E2 White Bear; Urso Branco

Espetacularização da Modernidade

Black Mirror é uma série britânica, lançada em 2011, cuja problemática central busca trabalhar em cima do processo do aumento tecnológico e da midiatização da vida social e seus impactos nas relações humanas modificadas em razão do desenvolvimento das tecnologias digitais. A série trabalha com diferentes fatores mas, em particular, será analisado o episódio Urso Branco da segunda temporada, que trata fortemente sobre a espetacularização da vida moderna em todos os aspectos e como as personagens que nela vivem (nós mesmos) se tornam reféns dessa engrenagem.

Nesse episódio, uma mulher acorda com amnésia numa casa que desconhece e que, aparentemente, apresenta uma série de detalhes de quem vive nesse ambiente: fotos e outros objetos, além de uma televisão permanentemente ligada com um símbolo não usual ao dia a dia. À medida que começa a explorar a casa e por fora das dependências, começa a ser perseguida por um grupo de caçadores, enquanto é filmada por celulares o tempo todo por outras pessoas que simplesmente não tomam nenhum partido, apenas a observam em sua fuga. Não adianta fugir, sempre há uma câmera de celular filmando, ajudando os caçadores a encontrá-la. Percebe-se assim já a crítica ao sensacionalismo midiático e a espetacularização da violência, sendo a audiência o seu agente direto, que se mantém impassível diante da dificuldade dessa mulher, pois o importante é registrar a situação e destacar o acontecimento. Mas as reviravoltas da narrativa alteram o sentido lógico com um final surpreendente. A protagonista é, de fato, uma criminosa e tudo que ela passa é punição; julgada e condenada pela justiça por participar do crime de tortura e morte de uma criança, tem sua pena transformada em entretenimento; protagonizar um reality show de exposição e tortura psicológica em um parque temático específico para isso, de forma repetitiva, pois sua memória é apagada a cada dia para que toda a sua jornada de sofrimento possa ser repetida novamente no dia seguinte para entretenimento de quem a está observando.

Durante o episódio, outros subtextos interessantes se misturam: (i) crime causou comoção popular pela perversidade por ter sido registrado em detalhes com uma câmera de celular; (ii) juiz proferiu sentença ressaltando a proporcionalidade da pena a ser cumprida, (iii) é precisamente o ato de filmar o sofrimento da criança com uma câmera, o que confere a proporção da crueldade do crime aplicado cotidianamente à pena da prisioneira, já que os espectadores do parque a filmam e não prestam socorro a ela, fato que não distancia esse grupo de pessoas do comportamento da personagem principal. Nesse ponto de vista, todos, então, são prisioneiros de um mercado de entretenimento, já que a personagem principal realmente cometeu um crime e seu castigo é sofrer todos os dias uma lavagem cerebral, apagando todas as suas memórias e por fim, protagonizar um show de horrores, onde ela é caçada e humilhada publicamente, enquanto o público revive essa experiência de ver, filmar, rir e assistir ao vivo o sofrimento dela a cada dia, por diferentes espectadores, que é transformado em uma indústria de entretenimento.

Essa indústria, capitalizada pelo parque de diversões específico para o deleite dessa punição por espectadores ávidos, já fora destacada por Débord no livro ”A Sociedade do Espetáculo”, visto como meio de dominação da sociedade; pois aqui temos um consumo de um público alienado e passivo que reafirma o modo de produção capitalista com a venda não apenas de imagens mas de uma gama de outros bens (estacionamento, entrada e toda sorte de produtos relacionados), mesmo às custas do sofrimento, violência e humilhação de qualquer pessoa. O espetáculo é um agente de manipulação social e conformismo político, embriagando a consciência de atores sociais e fazendo com que se identifiquem com as mercadorias que estão sendo oferecidas por uma indústria cultural de forma a direcionar essas pessoas a consumi-las. Ademais, ressaltam-se as alegorias utilizadas pelo roteiro do episódio ao se fazer alusão que todos aqueles que não tinham ”sinal” (sinal de celular, como ressaltado por uma personagem do episódio que mais tarde vir-se-á a saber que era uma funcionária do parque) eram alvos dos caçadores e não faziam parte da massa alienada e que seu objetivo durante a pretensa fuga era destruir a Estação White Bear, emissora do ”sinal” para garantir a liberdade. Ou seja, qualquer pessoa desconectada dessa indústria cultural é um perigo e um potencial alvo de perseguição.

Esse episódio, então, não apenas apresenta a espetacularização do sofrimento e da tirania, típicas de nossa sociedade atual, onde pessoas são julgadas por seus atos fora das alçadas legais e expostas pelos meios midiáticos. Vai além disso, pois demonstra que enquanto o capitalismo consegue lucros, públicos permanecem alienados e, como uma constituição moderna da luta de classes marxista, o espetáculo passa a ser o palco de dominação da burguesia sobre o proletariado. Ao desenvolver sua ideia da sociedade do espetáculo, aprofunda-se o conceito de fetiche de mercadorias, onde a dominação se realiza completamente no espetáculo, no qual o mundo sensível é substituído por uma seleção de imagens que existe acima dele. E ao observar a sociedade alienada e vislumbrada por esse fetiche, confere-se ao tempo espetacular o poder de desassociar o público do tempo cronológico do tempo presente e de inseri-lo em um tempo virtual. O tempo virtual está completamente ligado ao consumo da mercadoria e forma uma base de alienação. E de certa forma, o roteiro do episódio brinca com a atemporalidade da mercadoria que está sempre sendo oferecida, reinicializada a cada dia, com a limpeza da memória da mulher. De fato, devido à presença do espetáculo, tempo e espaço perderam sua configuração “normal” e se tornaram virtuais; pessoas perderam a autenticidade nas suas formas de viver; a vida tornou-se uma representação e pura ilusão e as relações sociais passaram a ser mediadas por imagens. Essa repetição é outra característica dos tempos modernos, como se a vida fosse uma repetição de vários episódios diários muito semelhantes nos quais estão presentes em rotinas estabelecidas e altamente sistematizadas, tal como uma série de televisão. Engraçado observar esse modelo de produção estar tão mais presente e imposto na vida cotidiana moderna.

“O sistema capitalista encontrou na mídia de massa e na indústria cultural elementos para manter um sistema político, econômico e social de controle e anulação de indivíduos”

Como conclusão , Débord vê no espetáculo uma criação do capitalismo, na qual seus constituintes existem na condição de alienados ao mesmo tempo que é a ideologia por excelência; não é um suplemento ao mundo real, mas é o coração da irrealidade da sociedade real. Isso tudo é visto claramente no Parque de Diversões White Bear. E essa conclusão é dura de aceitar, principalmente, porque a espetacularização da modernidade e seu decorrente ciclo vicioso aprisionam as experiências da vida em rotinas que por muitas vezes trazem ansiedade e angústia, não mais vistas como meramente consequências dessa forma de vida; ao contrário, agora são ativos, capitais desse processo, típicas da modernidade. E são quantificadas, tem seu preço.

É difícil não sentir esses sentimentos ao assistir esse episódio; todavia, ter essa dimensão, por pior que seja, vem em momento oportuno num mundo cada vez mais difícil de ser compreendido e vivido.

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