Okja

Em Okja (2017), no ano de 2007 a Corporação Mirando atinge um novo patamar na produção de carne, ao geneticamente desenvolver uma espécie de super porco que causa mínimo dano ao meio ambiente, e que, segundo seus criadores, possui carne muito mais saborosa do que a de porcos ou vacas normais. A ideia da corporação é lançar uma grande estratégia de marketing ao enviar 26 porcos a diferentes camponeses ao redor do mundo, e depois de 10 anos declarar vencedor aquele que tiver criado o maior super porco. Okja é um desses super porcos, que vai parar nas mãos de um humilde senhor (vivido por Byun Hee-bong) e sua neta Mija (Ahn Seo-hyun), ambos vivendo em uma pequena propriedade no interior da Coreia do Sul.

Okja competiu pela Palma de Ouro no Festival de Cannes 2017

Na ficção, a publicidade da empresa conversa com o mundo real, um mundo em que um frango muito feliz faz propagandas sobre o quão incrível é comer frango, ou atores globais nos fazem acreditar que não há nada melhor do que consumir produtos de uma empresa fundada em corrupção. A propaganda da indústria da carne, que pode ser encarada como uma das mais falaciosas dentro do ardiloso mundo do marketing serve como o primeiro vilão de Okja. As personagens são enganadas em instâncias diferentes, mas a ideia de enviar os porcos pelo globo traz a legitimação que só uma abordagem lúdica (adotada pela Corporação) poderia dar a uma indústria tão suja.

Bong Joon-ho, que deixa bastante claro o quanto quer deixar sua marca no filme ao assinar como roteirista e diretor, pensou grande em balancear a argumentação que existe em cima das discussões sobre a vida animal. Por um lado, a Mirando desenvolve uma espécie de animal que não só é “gostosa”, mas que ainda não causará danos à natureza, o que parece ser o suficiente para aliviar um suposto peso na consciência daqueles que apoiam as práticas da indústria animal. Por outro lado, Mija serve como a voz da razão (ou do sentimento, dependendo do ponto de vista) que tenta mostrar que o buraco é mais em baixo, já que o consumo de carne não afeta somente a vida do planeta terra, mas também deixa de lado o fato de que trata-se de seres vivos, com vontades, desejos, pensamentos e - para os mais metódicos que necessitam de uma dose de ciência para serem convencidos - um sistema nervoso.

A história não funcionaria sem a dinâmica que o elenco e seus respectivos personagens seguem. Simplesmente ter nomes fortes não bastaria, e é por isso que a narrativa é montada com mais de um protagonista, dando igual importância e tempo de tela para muitos personagens. Tilda Swinton cumpre bem o papel da carismática CEO que precisa dar cara nova à marca. Paul Dano é o proativo e, de certa forma caricato líder da Frente de Libertação Animal, o grupo ativista que estabelece o antagonismo com a Corporação (suposto binarismo que renderia um texto à parte). E a atuação de Jake Gyllenhaal é talvez a cereja do bolo. O grotesco Richard Rasmussen estadunidense que na verdade tem pouca paciência com os porcos e que prefere o luxo da artificialidade urbana corrobora a realidade dos pseudo-amigos dos animais que vez e outra surgem na mídia, além de dar cara a um vilão no sentido mais estrito do termo.

Bong Joon-ho e Erik De Boer falam ao Movie Pilot sobre a criação de Okja

No que diz respeito a aspectos técnicos da obra, elogios são necessários à computação gráfica que deu vida à Okja. Joon-ho junta-se a Erik De Boer (que já ganhou um Oscar pelos efeitos visuais de As Aventuras de Pi (2012)) para fazer as primeiras artes conceituais do animal, que possui em seu design traços físicos de porcos, hipopótamos e peixes-boi. A dupla já chegou a afirmar que para além dos aspectos físicos, traços psicológicos e emocionais do animal eram necessários para que o público conseguisse ter empatia com as personagens humanas. Sendo assim, o CGI consegue perfeitamente passar ao espectador a personalidade de Okja: um ser gentil, introvertido e triste. A primeira sequência do filme é incrível, e serve para que a qualidade técnica dos efeitos seja percebida de cara, e para que a relação ideal entre humano e animal seja estabelecida.

O filme tenta abrir os olhos do público para práticas do cotidiano que muitos nunca pararam para ponderar a respeito, ou que sempre viram a situação de forma diferente. Os momentos “fofos” da obra ganham a família toda. Mas o tapa na cara, quando vem, te deixa no chão. Se você se recusa a assistir documentários sobre o tema que adotam uma postura nua e crua da realidade, talvez seja o receptor que Okja quer para sua mensagem.

Lucas Oliveira

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