Elizabeth Taylor e Montgomery Clift, o casal avassalador de “Um Lugar ao Sol”.

Crítica : “Um Lugar ao Sol” (1951)

Ontem, zapeando a televisão atras de algum programa interessante, tive a deliciosa experiência de ver, no Telecine Cult (onde mais?!), um dos maiores clássicos da ‘era de ouro de Hollywood’. Estrelado por ninguém mais, ninguém menos que Elizabeth Taylor e Montgomery Clift, dois ícones do cinema, “Um Lugar ao Sol” (A Place in the Sun, 1951) é daqueles filmes que você tem certeza que vai querer comprar e ter na coleção. Baseado no livro “Uma Tragédia Americana” de Theodore Dreiser, o longa conta a história de George Eastman ( Montgomery Clif), um rapaz pobre de Chicaco que se muda para Los Angeles em busca de um emprego melhor na empresa de seu tio rico. Mesmo começando de baixo, George se empenha em sua nova ocupação e começa a namorar uma colega de trabalho (mesmo sendo contra as regras da empresa). Tudo vai bem, até ele conhecer a bela e rica Angela Vickers (vivida divinamente por Elizabeth Taylor). Apaixonado, e determinado a aproveitar o que a nova vida pode lhe proporcionar, o rapaz se mostra disposto a tudo para viver aquilo que sempre sonhou.

Dirigido por George Stevens, o longa retrata perfeitamente o desespero para viver o ‘sonho americano’, e as terríveis consequências que isso pode trazer para a vida de quem o quer viver a qualquer custo. O roteiro fantástico traz uma construção perfeita do personagem principal: vemos George numa escalada de quebra de regras, uma atrás da outra, das mais bobas como não namorar uma colega de trabalho, ou insistir para entrar e namora-la em seu quarto, mesmo ela dizendo que sua senhoria não permite, até a quebra de regras mais significativas como não namorar duas mulheres ao mesmo tempo.

O envolvimento cálido de George e Alice Tripp.

Recheado de dilemas morais, o filme é construído com sólidas atuações, daquelas que não vemos mais hoje em dia. Completamente absorto e assombrado por suas escolhas e atos, o George de Montgomery Clif é sombrio, mas ao mesmo tempo deslumbrado, ingênuo. É impressionante como o ator se transforma no decorrer do filme, olhos e expressões corporais, tudo é usado para passar exatamente o que George sente. Ele não diz o que está pensando, mas percebemos exatamente como ele se sente, suas intenções e até mesmo o que fará, porque seus olhos nos mostram o quão apaixonado ou angustiado ele está. Isso é mérito do ator, mas sem dúvida também é mérito da direção acertiva de Stevens, que usa os enquadramentos como função narrativa, não só para a ambientação, mas também para a construção dos personagens.

Mas não é só Clif que rouba a cena! É impossível não falar de Elizabeth Taylor! No frescor de sua juventude, a linda atriz pinta uma Angela destemida, divertida e completamente deslumbrante. Ela representa perfeitamente tudo que George deseja tão ardentemente: a liberdade, o status, o amor incondicional e por isso mesmo, avassalador. Na outra ponta temos Alice Tripp, a jovem operária de origem humilde, que assim como George veio para Los Angeles em busca de melhores condições. Shelley Winters se transforma em cena, passando de uma jovem docemente apaixonada à uma mulher desesperada que faz o impossível para salvar sua dignidade ferida.

São dois lados de uma moeda, a qual George tenta seguir girando, e quando as coisas se complicam, o jovem se vê tão enredado em suas mentiras que escolher um lado, significa fazer o inimaginável. Mas vou parar por aqui para não dar spoiler para quem ainda não viu o filme. A verdade é que vemos mais do que a construção do caminho que o personagem faz para ter um lugar ao sol, vemos toda a disputa interna que essa construção requer, e todas as escolhas e ações que o levam ao fatídico final.

“Eu te amo desde a primeira vez que te vi, na verdade acho que te amo mesmo antes de te-la visto” (George se declarando para Angela).

O amor avassalador que sentia pode ser o pretexto para suas ações, mas a narrativa nos mostra que George não é movido somente pelo amor. E isso fica claro nas cenas finais, quando ele conversa com um padre sobre as reais intenções por detrás de seus atos. É um diálogo dos mais geniais já feitos! Não é à toa que o filme levou para casa o Oscar de Melhor Roteiro, e mais outras cinco estatuetas: Melhor Diretor, Melhor Fotografia, Melhor Montagem, Melhor Figurino e Melhor Trilha Sonora. Impecável tecnicamente falando, “Um Lugar ao Sol”, conseguiu envelhecer de forma digna, se tornando um filme atemporal.

Com atuações monumentais, roteiro impressionante e a direção, montagem e trilha trabalhando à favor da história, seria impossível “Um Lugar ao Sol” não ter virado um clássico! Completamente merecedor do título, o longa é um dos grandes exemplares da era dourada de Hollywood, merecendo um lugar cativo na lista dos filmes preferidos, que devem ser visto e revisto várias e várias vezes, só pelo prazer de se ver um ótimo filme.

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Elizabeth Taylor e Montgomery Clift em fotos promocionais.
Cartazes de “Um Lugar do Sol”.