Gilda-Um beijo pro recalque passar longe

Resenha de filme (com humor)


Nunca existiu uma mulher como Gilda. Essa é a primeira coisa que você precisa saber sobre este filme, aparentemente. É a frase que você vai ler em qualquer resenha sobre o tema (voilá) e que, provavelmente, fará você querer vê-lo. Este texto reúne algumas observações, sem ter a pretensão de resenhá-lo completamente. Na verdade, há algum tempo pensava em reunir em algum espaço aqueles comentários que fazemos depois de ver alguma coisa na tela mágica televisiva e, então, eis-me aqui.

Gilda é um filme noir de 1946, dirigido por Charles Vidor e estrelado pro Rita Hayworth, Glenn Close e George Macready. O personagem de Close, Johnny Farrell, é um trapaceiro americano que chega à Argentina e é salvo de um assalto no cais pelo excêntrico Magnata Ballin Mundson e sua bengala. Mais tarde, Dear Johnny visita o cassino do seu benfeitor e, para agradecê-lo, tenta trapacear no carteado. Algumas idas e vindas da bengala misteriosa de Ballin depois e o americano está empregado no cassino e vira o braço direito do chefe.

Mostrando a bengala

Vale dizer que o Sr. Mundson era uma pessoa realmente bizarra, com certa fixação em mover as persianas do seu escritório para bisbilhotar tudo o que acontecia lá embaixo e outras cositas más. Uma delas era tungstênio, a outra sua nova esposa. Quer dizer, eu não sei que tipo de pessoa não ficaria aficcionada por uma Rita Hayworth em tamanho real, mas o cara era estranho sim.

O que falar dessa Gilda que nem conheço mas já considero pacas?

Gilda, de fato, merece a honra de encabeçar sozinha este filme. Ela era um tipo de biscate poderosa, linda e bem-vestida, que seduzia todos os homens no cassino do maridão para causar ciúmes no seu antigo amor, o Johnnie. Nós nunca conseguimos descobrir da onde exatamente os dois se conheciam e nem como foi o romance que viveram, o que não nos impede de perceber a louca tensão sexual e o ressentimento que persiste entre eles.

Gilda: You do hate me, don’t you, Johnny?
Johnny Farrell: I don’t think you have any idea of how much.
Gilda: Hate is a very exciting emotion. Haven’t you noticed? Very exciting. I hate you too, Johnny. I hate you so much I think I’m going to die from it. Darling…
[they kiss passionately]
Gilda: I think I’m going to die from it.

Enfim, ao que interessa. O enredo se desenvolve com duas histórias mais ou menos paralelas: uma delas sobre o os negócios de Ballin, os quais envolvem um cartel, o monopólio de tungstênio, alguns vilões nazistas e planos de dominar o mundo; e o triângulo amoroso entre Mundson, Farrell e Gilda. Oficialmente, Ballin queria Gilda que desejava Johnnie, que a odiava — mas na verdade amava. Extraoficialmente, acredito nas teorias que sugerem traços homoafetivos na relação entre los hombres e prefiro interpretar a relação dos três como aberta e do tipo bissexual.

Na prática, Gilda e Johnnie só tem um rápido beijo, num momento de tensão, ao passo que ela encontra vários homens em hotéis da cidade durante as noites — vários, exceto o marido, de quem ela aparenta sentir medo e indiferença sexual. Mais tarde, quando este foge de Buenos Aires, Gilda e Farrell se casam e a trágica epopeia da moça se inicia. Veja, ela amava o cara, apesar de toda a pegação noturna e, ao se casarem, acreditava que iria ser feliz ao lado dele.

Acontece que Dear Johnny era um cara orgulhoso e nunca superara a ex-amante tê-lo abandonado e mais tarde se casado por interesse com outro homem, mais ainda o seu homem (aquele que iria dominar o mundo e torná-lo rico no caminho). Não superando, acreditando que o amigo havia morrido, decidiu culpar a bela viúva infiel pelos rumos que a vida tomara e casou-se com ela apenas para aprisioná-la em um quarto de hotel (ahá), seca e sozinha.

Gilda sofreu, esperou, chorou e implorou perdão e liberdade do amado, mas em vão. Nem a fuga da cidade foi capaz de libertá-la do jugo do agora novo diretor daquele antigo cartel.Cartel este que acabou sendo descoberto por um policial infiltrado e boa-praça que também era da turma do ‘deixa-disso’ e mandou uma ideia ao Johnny pra parar de cu doce que a Gilda na real nem tinha ficado com ninguém não e era tudo cena pra ele ficar bolado.

Você acreditaria nisso, caro leitor?

Bem, Dear Johnny acreditou e foi correndo pedir perdão. Tudo parecia que ia acabar bem, não fosse o marido ‘morto’ da bela cantora (eu mencionei que Gilda era uma cantora?) surgir das tumbas do seu escritório por 5 segundos. O que ele queria era matar os amigos que o haviam traído, mas antes que conseguisse perguntar se ia ter copa ou não, foi morto por um empregado do cassino numa verdadeira ejaculação precoce de clímax. Depois disso, tudo ficou bem — exceto pela futura pobreza do casal, já que o cartel havia sido destruído e Farrel preso, estando em liberdade provisória porque o policial era boa gente- .

Felizes para sempre, porém pobres

Então, o que nós pensamos disso tudo? Primeiro, é preciso admitir que Rita Hayworth é lindíssima e muito sensual, motivo pelo qual este filme continua a figurar como exemplo de sensualidade e sex appeal. De fato, o longa é sustentado por sua atuação impecável e pela construção da mulher e domito, Gilda.

O fato de um filme de 1946 explorar a sexualidade feminina de maneira tão contundente é algo notável, apesar de todas as ressalvas que devem ser feitas quanto a objetificação da mulher e seu papel de submissão, além da violência doméstica explícita.

É sintomático do patriarcalismo americano que a censura estivesse interessada em esconder os braços desnudos da atriz — na famosa cena do strip-tease — e disposta a aceitar um Johnny que bate na esposa e a mantém em cárcere privado.

De qualquer forma, Gilda é retratada, durante boa parte da película, como uma mulher independente, provocativa e livre sexualmente. É ela quem escolhe os homens com quem deseja passar as noites e dita as regras desses encontros. Curioso, talvez, seja assistir o filme que é por ela intitulado da perspectiva de Johnny. Se, por um lado, falta a sua visão de mundo na película, terminando por objetificá-la, por outro, esse distanciamento é eficiente em erigir uma figura mitológica, mais evidente nas declarações da própria Rita Hayworth de que nenhuma mulher seria capaz de ser Gilda o tempo todo.

Dito isso, é preciso admitir que o enredo do filme se perde do meio para o fim e os bons elementos do suspense noir, que estão presentes no começo, são deixados de lado num final apressado. Ballin era um personagem realmente interessante e merecia mais tempo de tela, especialmente em seu aguardado retorno. Passamos um bom tempo indagando que tipo de negócio ele dirigia em seu cartel e porque estava correndo risco de vida, mas nada disso realmente importa no final. A sua excentricidade é mal aproveitada e a impressão que fica é que serve apenas para justificar o ganho de poder de Johnny, hipótese em que não mereceria tanto tempo de filme. O tempo, aliás, é outra das coisas mal pensadas em Gilda, desde um começo que demora a engatar até o tempo de tela em que a assistimos cantar e dançar, em prejuízo de trabalhar melhor os temas propostos pelo roteiro. Em suma, terminamos sem a história de suspense e com uma história de amor contada pela metade.

O tema central do filme torna-se, portanto, Gilda e por óbvio, sua sexualidade (nada muito diferente da Hollywood de hoje). Apesar de todos os elogios ao poder de sedução da atriz, é necessário dizer que, também nessa esfera, haveria mais a ser explorado. O triângulo amoroso formado por Ballin e Farrel promete, mas não entrega e a saída encontrada pelos roteiristas para chegar ao final feliz — negar que a cantora se envolvesse sexualmente com seus amantes — é fácil demais.

De toda maneira, esta era uma limitação histórico-temporal causada por diversos motivos, um deles a censura, e cabe a cada espectador encontrar suas próprias lacunas interpretativas. A censura, aliás, é um dos componentes importantes no resultado final do filme. Eu, pessoalmente, acredito em que a proposta do enredo fosse bastante ousada e que as adaptações que sofreu para passar pelo crivo dos censuradores é que acabaram por prejudicar o andamento da história.

Ballin Mundson: Gilda, are you decent?
Gilda: Me?
[long pause]
Gilda: Sure. I’m decent.
Bônus: mas que diabos?

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