Crítica | Manchester À Beira-Mar

Drama investe em longos e contemplativos silêncios

Manchester à Beira-Mar é um drama contemplativo, com desenvolvimento bem lento, que aposta em sequências com longos silêncios para desenvolver seu tema. É um filme sobre tragédias e como elas podem bagunçar a vida de um pessoa para sempre. É sobre como cada um lida com sua própria tragédia e como isso acaba afetando a vida das pessoas ao seu redor. O protagonista da história é Lee Chandler (interpretado por Casey Affleck), zelador que trabalha fazendo de tudo em alguns prédios e geralmente aguentando calado qualquer tipo de reclamação. Por trás da aparente calma do personagem, está alguém que prefere arrumar briga no bar do que conversar com uma bela mulher que dá em cima dele. Ele segue essa rotina até o dia que que seu irmão morre e ele precisa voltar para sua cidade natal para cuidar de tudo, incluindo aí seu sobrinho.

A partir do seu retorno ao lar, a montagem do filme começa a apresentar cenas de flashback que mostram Lee como uma pessoa bem diferente. Sempre sorridente e falastrão, em nada lembra o personagem que conhecemos no início do filme. Conforme a história avança e mais flashbacks vão sendo revelados, passamos a entender os motivos que o levaram a mudar tanto a sua atitude. Isso ajuda também a entender o que parece ser uma reação fria diante da morte do irmão. Claro que um filme desse tipo depende demais de um bom elenco para dar certo e Manchester à Beira-Mar não decepciona neste quesito.

Aparecendo na tela praticamente o filme inteiro, Casey Affleck entrega uma atuação que realmente mereceu a indicação ao Oscar de melhor ator. Só a cena em que ele beija o rosto do irmão morto já mereceria qualquer premiação. Além disso, sempre fica claro o desconforto dele ao encontrar certas pessoas do passado, mesmo que ele esteja tentando mostrar que está tudo bem com a situação. Infelizmente, a sempre talentosa Michelle Williams tem pouquíssimo tempo de tela, porém é responsável por uma das cenas mais bonitas do filme. Difícil não se emocionar quando ela diz “Meu coração estava destruído e vai ficar assim para sempre. Mas eu sei que o seu também está”. Já Kyle Chandler (que interpreta Joe, irmão de Lee) é capaz de comover com pouquíssimos gestos. A doçura no olhar dele quando ajuda o irmão em um momento difícil no passado é de partir o coração.

Além das excelentes atuações, a direção de Kenneth Lonergan, que também assina o roteiro, ajuda o espectador a se envolver ainda mais no melancólico cenário do filme. Como comentei no começo do texto, Manchester à Beira-Mar é um filme com muitos silêncios. Alguns são do tipo constrangedor entre dois personagens, daqueles que você percebe que os dois estão querendo sair daquela situação. Já outros surgem como uma espécie de contemplação não só para os personagens envolvidos na cena, mas também para o próprio espectador refletir sobre o que viu até ali. Mas a maioria é para ressaltar a tristeza ou angústia de um momento específico. Para auxiliar em tudo isso, o filme possui também um design de som excelente, com barulhos muito específicos no meio do silêncio. Reparem no barulho constante da lâmpada no teto do necrotério quando Lee chega para ver o corpo do irmão. É angustiante para qualquer pessoa que já passou algum tempo no hospital cuidando de uma pessoa que ama.

Manchester à Beira-Mar é um drama bem real, ressaltado por uma fotografia com cores bem realistas e muito som ambiente. Não é um filme que possui momentos catárticos, reencontros emocionados ou grandes mudanças de comportamento dos personagens. O clímax do filme deixa uma sensação agridoce, sem grandes conclusões. Afinal, a vida real é assim, só possui uma conclusão de verdade quando morremos. Mas para as pessoas que ficam, a vida continua. No final, a grande mensagem de Manchester à Beira-Mar é a de que precisamos continuar sempre seguindo em frente, não importando quão grande seja a tragédia pela qual passamos.

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