Crítica | Amizade Desfeita

Mesmo se passando todo na tela de um computador, história não fica cansativa

Tem uns filmes que a gente começa a assistir já preparado para se decepcionar, mas que acabam nos surpreendendo positivamente no final das contas. É o caso de Amizade Desfeita, um filme de suspense que acontece todo diante de uma tela de computador. Durante uma hora e meia de filme tudo o que vemos é o que se passa na tela da personagem Blaire (Shelley Hennig), que está em uma conversa por Skype com alguns amigos de escola. Junto com eles aparece um usuário desconhecido, que ninguém consegue desconectar, e que aos poucos começa a ameaçar a vida de todos no grupo. Apesar da história bem clichê, a produção consegue manter o frescor justamente por conseguir apresentá-la apenas com a tela de um computador, sem que o filme fique cansativo.

A história começa com Blaire assistindo um vídeo no qual sua amiga Laura Barns (Heather Sossaman) comete suicídio no pátio da escola, já deixando clara a curiosidade mórbida que temos de assistir esse tipo de coisa na internet. As coisas começam a ficar estranhas quando ela recebe uma mensagem de Laura no Facebook, ao mesmo tempo em que começam as ameaças via Skype. O intruso na conversa, que atende pelo apelido Billie227, culpa todos ali por terem praticado bullying com Laura, o que a levou a tirar a própria vida. A partir daí vemos o grupo de amigos desconfiando uns dos outros e tentando descobrir quem é o tal intruso e como se livrar dele. O filme abre até a hipótese de ser algo sobrenatural, sem nunca deixar de mostrar apenas a tela do computador.

Sabendo que um filme nesse estilo poderia facilmente ficar cansativo, o diretor Levan Gabriadze consegue controlar o ritmo do filme através de mudanças na tela. Aqui ele substitui a tradicional montagem dos filmes por trocas que Blaire faz entre os programas que está usando no computador. No começo, por exemplo, vemos apenas ela e o namorado conversando, já que ainda está tudo calmo. Mas conforme a tensão aumenta, ela a passa a alternar com mais velocidade entre os aplicativos abertos, além de digitar algumas palavras erradas, mostrando todo o nervosismo que o momento pede. E quando ela tenta clicar várias vezes em algo que não está funcionando, o barulho do mouse ajuda o espectador a ficar tenso junto com a personagem. A cena da remoção de um vírus consegue nos deixar nervosos vendo alguém apenas esvaziando a lixeira do computador. Seguindo esta lógica, a trilha sonora do filme também entra em cena de forma orgânica, com Blaire trocando as músicas no Spotify.

Levan Gabriadze ainda consegue criar algumas cenas no estilo found footage, já que os personagens estão o tempo todo de frente para a webcam. Da mesma forma, alguns personagens fazem algumas trocas de cenário, ajudando a manter o dinamismo do filme. Claro que nem tudo é perfeito. Em algumas cenas que Blaire está em alguma conversa importante via chat, os outros personagens milagrosamente ficam em silêncio. Difícil acreditar que isso aconteceria com vários adolescentes fazendo uma conferência via Skype. Mas é apenas um pequeno detalhe que não prejudica o filme como um todo. No geral, Amizade Desfeita pega vários clichês de filmes de suspense e os apresenta de maneira bem inovadora, utilizando de forma eficiente todos os recursos disponíveis em um computador. Além disso, aproveita para mostrar os perigos do bullying no ambiente escolar, que pode fazer com que uma pessoa tire a própria vida.

Amizade Desfeita (Unfriended, EUA)
Ano de Lançamento: 2014
Duração: 1h 23min
Direção: Levan Gabriadze
Roteiro: Nelson Greaves