Crítica | Victoria

Filmagem em apenas um take é o grande atrativo do filme

Na saída de uma boate na Alemanha, Victoria (Laia Costa) conhece quatro rapazes que, já alterados pelo álcool, estão afim de continuar farreando até o nascer do sol. Praticamente recém chegada ao país, a garota resolve sair com eles na esperança de finalmente começar a fazer amigos na Alemanha. O que começa como uma madrugada de bebedeira acaba se transformando em uma história frenética quando um dos rapazes precisa resolver um problema do passado. A princípio essa sinopse pode não chamar tanto a atenção, mas a grande sacada de Victoria (o filme) é que ele foi todo filmado em um único plano sequência e consegue se tornar um filme bem tenso e claustrofóbico conforme a história avança.

O filme abre dentro de uma boate escura, com luzes piscando na cara do espectador, criando aquele típico incômodo que sentimos ao entrar em um ambiente desse tipo. A câmera vai atravessando a multidão, como se procurasse alguém, até finalmente encontrar a protagonista Victoria e se deter ali durante alguns segundos enquanto a vemos dançar. Com esta pequena sequência inicial, o diretor Sebastian Schipper e o câmera Sturla Brandth Grøvlen já mostram toda a habilidade que possuem para conseguir efeitos diferentes em um mesmo ambiente sem o uso de cortes, além da capacidade de nos fazer sentir como parte da história.

Apesar do grande atrativo da produção ser justamente a filmagem sem cortes, é interessante como Victoria nunca tenta chamar atenção para este fato. Pelo contrário, em alguns momentos o diretor parece querer que esqueçamos tal fato, como o momento em que ele coloca uma trilha sonora para tocar e não escutamos o que os personagens estão dizendo. Talvez o que tenha acontecido é que os atores esqueceram a fala e este foi o jeito encontrado para não precisar refilmar. Porém, mesmo que tenha sido este o motivo, não deixa de ser interessante como isto acabou deixando Victoria com mais cara de “filme normal”.

Também chama a atenção como certas dificuldades de se fazer um filme em plano sequência acabam contribuindo para que a produção fique ainda mais interessante no final. Em determinado momento do filme, o personagem Sonne entra no café em que Victoria trabalha e diz que é um belo hotel, ele começa a rir e logo se corrige. Porém, esse pequeno deslize acaba ajudando a fazer uma rima com algo importante que acontece mais à frente no filme. Outra situação curiosa é uma cena dentro de um carro na qual a atriz Laia Costa acabou errando de verdade a direção para a qual tinha que ir. Então o desespero de todos dentro do carro é real, já que indo pelo caminho errado havia o perigo de que membros da produção aparecessem na tela, acabando assim com todo o trabalho feito até ali. O pior só foi evitado graças à habilidade do câmera que passou a filmar tudo de baixo pra cima, sem mostrar as janelas do carro.

E por falar no câmera, ele é o verdadeiro astro do filme. Sturla Brandth Grøvlen aguenta as mais de duas horas de filmagem com uma câmera nas mãos sem perder o ritmo, além de sempre encontrar novos ângulos e conseguir dar ritmo ao filme. Nas cenas dentro de carros é quase imperceptível que ele está ali, quando os personagens entram nos veículos é como se a câmera já estivesse ali dentro. Até mesmo quando a cena exige uma certa correria Sturla consegue manter a câmera relativamente estável, sem prejudicar a compreensão da cena em momento algum. O trabalho dos atores também está fantástico. Além de entregarem boas atuações, eles conseguem sempre agir com bastante naturalidade mesmo nas cenas mais agitadas, onde poderia acontecer de um deles acabar esbarrando no câmera.

Além de toda a qualidade técnica da produção, Victoria é um daqueles filmes que começam tranquilos e, de repente, entram em um ritmo tão frenético que, ao final, parece até que a história se passou ao longo de pelo menos uma semana. O fato de ter sido filmado todo em tempo real deixa o filme ainda mais sensacional, já que faz com que o espectador perceba quanta coisa pode acontecer na vida de uma pessoa em pouco mais de duas horas.

One clap, two clap, three clap, forty?

By clapping more or less, you can signal to us which stories really stand out.