Entre Abelhas (2015)

Deixar o humor de lado para tentar arriscar um papel dramático é um troço meio perigoso, principalmente quando a imagem do ator está amplamente associada à comédia (e geralmente a comédias ruins). E não é que Fábio Porchat deu uma de Jim Carrey e conseguiu se sair bem nessa empreitada? Quem diria?

Ian SBF (que também faz parte do Porta dos Fundos) já tinha mostrado um passo adiante nessa tentativa de uma direção mais elaborada em “Viral”, uma série sobre AIDS disponibilizada no Youtube, mas é neste longa que ele mostra realmente o quanto seu trabalho é promissor.

Entre Abelhas” é um drama com toques de realismo fantástico, coisa rara no cinema nacional. Na história, um cara passa por uma fase difícil, se separa da mulher e do nada começa a deixar de enxergar as pessoas. Elas ainda estão lá, mas ele simplesmente não consegue vê-las. Esse plot que poderia servir para um compor inúmeras esquetes engraçadinhas, acaba sendo aproveitado para discutir a solidão e a depressão nas grandes metrópoles.

Porchat impressiona, pois consegue deixar de lado sua persona caricata, para incorporar um sujeito completamente infeliz, que simplesmente já não consegue mais seguir em frente, pois seus problemas estão se acumulando de forma insuportável. Sua atuação se destaca não só pelo tom adequado, mas também pelo “humor físico” (existe o termo “drama físico”?) que ele precisa desempenhar devido a sua condição.

O filme derrapa justamente quando tenta ser engraçado. Os testes realizados por sua mãe para tentar entender o seu problema são praticamente inserções de quadros do Porta dos Fundos no meio da história. Além de serem um tanto desnecessários esses trechos não são nem engraçados, então daria pra descarta-los facilmente.

Por outro lado, o filme foge de vários outros clichês, chegando mesmo a fazer piada sobre eles como a cena da pintura. Fora isso temos o elo narrativo envolvendo a questão da cadeira, o amigo mais próximo que não é “do mal”, mas que no fundo não passa de um filho da puta, etc tudo isso torna a história rica e surpreendente.

Trata-se de um filme corajoso por deixar tantas questões em aberto ao final, proporcionando diversas leituras e interpretações, o que pode ser algo bem irritante para boa parte do público que gosta de coisas mais explicadinhas, mas que é um deleite para quem curte pensar sobre o que acabou de assistir.

Fica a torcida para que esses caras se arrisquem mais vezes assim.

Nota: 4/5

One clap, two clap, three clap, forty?

By clapping more or less, you can signal to us which stories really stand out.