Frances Ha (2012)

Após correr em vão atrás da melhor amiga que, mais uma vez, está partindo de sua vida, Frances (Greta Gerwig) desiste, olha para o chão e por alguns segundos sente o asfalto sob seus pés descalços.

Frances Ha” é sobre isso, sobre sentir a textura do mundo e encarar as ausências que o compõe.

“I’m standing in the wind / But I never wave bye-bye / But I try, I try” canta David Bowie embalando os passos da garota que corre e gira pelas ruas de Nova York. Aos 27 anos, Frances está longe de ter uma vida bem sucedida: as chances de se tornar uma bailarina profissional são diminutas e ela mal tem dinheiro para pagar a sua parte no aluguel. E sobre o amor, os amigos a definem como “Inamorável”.

Ela é uma bailarina toda desengonçada e isso, mais do que ser engraçado, é bonito, pois a falta de estabilidade física e econômica a torna humana como tantos de nós, pessoas que às vezes mais erram do que acertam nessa vida e seguem em frente num equilíbrio meio torto.

Portanto as coisas não vão bem para Frances, mas ela tenta. E a amizade é parte fundamental nesse seguir em frente. O amor que ela e Sophie sentem uma pela outra (heterossexuais, elas se definem como um casal de lésbicas que não fazem mais sexo) é algo realmente comovente, um bromance tão natural, tão sincero e bonito que faz a gente sentir vontade de viver naquele universo em preto e branco.

A trilha sonora e a bela fotografia (e, é claro, os cigarros) nos remetem aos bons momentos da novelle vague. Já os diálogos se distanciam bastante do tom filosófico-existencial, meio literário até, dos filmes franceses. Há sim, profundidade nas falas, mas elas são tão naturais que se assemelham a improvisos certeiros, parece até que a câmera está ali por acaso. Talvez isso se dê, pois a própria Gerwig também assina o roteiro junto com o diretor Noah Baumbach (A Lula e a Baleia).

“Frances Ha” é um filme para se apaixonar.

Quando vemos a adorável protagonista de mochila no colo, cheia de sacolas do mercado e lendo um livro no metrô é como se a conhecêssemos, como se ela fizesse parte do nosso círculo de amigos. Alguém com quem gostaríamos muito de tomar uma cerveja e dar risada numa sexta-feira à noite para esquecer as dificuldades da semana.

É um filme que faz a gente entender porque somos tão apaixonados pelo cinema. Há vários momentos inesquecíveis, como a comovente troca de olhares na festa, a frustrante viagem à Paris, os giros pelas ruas, mas nada me comoveu mais esse ano do que a cena final. O último segundo do filme é uma das coisas mais bonitas que já vi, pois traduz, num pequeno gesto, a beleza triste de existir.

Siga em frente Frances, vai ficar tudo bem.

Nota: 5/5


Originally published at cinemaporescrito.blogspot.com.br.

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